terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Por que é que Maria visita apressadamente a sua prima Isabel? E porquê isso é essencial para a nossa vida cristã?

Conta o evangelista S. Lucas: «Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade da Judeia. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Então, erguendo a voz, exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Pois, logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor."» (Lc 1, 39-45).

Entender esta passagem é essencial para a nossa vida cristã
Maria acaba de ficar grávida e fica a saber que a sua prima Isabel, sendo já idosa, está no sexto mês de gravidez. Então, põe-se a caminho da casa da sua parente, para a acompanhar durante o tempo que falta para o nascimento do menino.

Todavia, não se trata apenas de uma sensibilidade feminina. Maria liga os factos: foi o mesmo anjo que lhe anunciou que ia ser mãe de Jesus que lhe comunicou a gravidez de Isabel. As duas gravidezes estavam relacionadas. Por um lado, eram bênção divina: Isabel e Zacarias não tinham filhos e agora já podiam ser pais, e o seu filho seria o que apresentaria Jesus ao mundo; e Jesus era o Filho de Deus que vinha ser Emanuel, isto é, Deus connosco, para nos salvar.

Maria vai apressadamente, não só porque Isabel precisa de ajuda (mas teria vizinhos e outros parentes), mas sobretudo porque Ela não pode conter apenas para si tamanha alegria: ser a Mãe do Salvador. Prova disso são as palavras que saem da sua boca com voz forte: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva» (Lc 1, 46-47).

Porquê isso é tão essencial para a nossa vida cristã?
Porque todos nós passamos pela mesma experiência quando nos encontramos com Jesus. Ele, de certa forma, encarna em nós.
E é isso o que esperamos no Advento e celebramos no Natal: Jesus vem habitar no nosso coração, faz em nós a Sua morada. 
E quando estamos conscientes de que Jesus está em nós, assim como Maria o experimentou, sentimos essa mesma necessidade de nos colocarmos ao serviço dos outros. 

Ao experimentar-se amada, Maria coloca-se ao serviço: grávida de Deus que é amor, torna esse amor concreto no serviço ao próximo. Serve o próximo, amando-o como fruto do amor de Deus.

Ir. João António Johas, em Jovens de Maria 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Advento é «ter o coração de portas abertas»


Advento
É uma multitude de caminhos
de procura e esperança
para percorrer em ritmo ligeiro
seguindo as pegadas:
de Abraão, nosso pai na fé,
de Jacob, apaixonado, astuto e tenaz,
de Moisés, conhecedor de desertos e guia do seu povo,
de Isaías, profeta e cantor de um mundo novo,
de Jeremias, sensível aos sinais dos tempos,
de João Batista, o precusor humilde e consciente,
de José, um enraizado e com a vida alterada,
de Maria, crente e grávida,
e com olhos fixos em quem vai nascer
em qualquer lugar e circunstância.

Advento,
na nossa vida e história,
é sempre uma aventura ousada
Isso acontece em qualquer praça,
rua e encruzilhada,
ou dentro da nossa casa,
ou nas nossas próprias entranhas.

Advento
é tempo e ocasião propícia
para preparar o caminho:
nivelar o acidentado,
endireitar o torto,
abaixar o pretensioso,
lançar ao vento o orgulho
preencher os buracos negros
limpar o horizonte
assinalar as fontes de água fresca,
Não criar neblinas nem tempestades
semear a verdade, a justiça e o amor
e ter o coração de portas abertas.

Agradecemos-Te, Senhor,
a reiterada oferta do Advento
na nossa vida e história.

Nele, graças ao Teu Espírito e Palavra,
e ao nosso humilde acolhimento,
desponta uma nova aurora.

Florentino Ulibarri

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O jovem Marcos - autor do segundo Evangelho - descobriu surpresas em Jesus Cristo: com Ele COMEÇA ALGO BOM e DIFERENTE do esperado

Ao longo deste novo ano litúrgico (chamado Ano B), os cristãos iremos ler aos domingos o evangelho de Marcos. O seu pequeno escrito começa com este título: «Início da Boa Nova de Jesus, o Messias, Filho de Deus.»

O texto continua: «Uma voz clama no deserto: 'Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.' (...) João Batista pregava assim: "Depois de mim vai chegar outro que é mais forte do que eu, diante do qual não sou digno de me inclinar para lhe desatar as correias das sandálias. Eu baptizei-vos em água, mas Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo."» (Mc 1, 1-8)

Com Jesus «começa algo de novo»
É o que em primeiro lugar quer deixar claro Marcos.
Todo o anterior pertence ao passado. Jesus é o começo de algo novo e inconfundível. No relato, Jesus dirá que «o tempo cumpriu-se». Com Ele chega a boa nova de Deus.

Isto é o que experimentam os primeiros cristãos.
Quem se encontra vitalmente com Jesus e penetra um pouco no Seu Mistério sabe que com Ele começa uma vida nova, algo que nunca se tinha experimentado anteriormente.

O que encontramos em Jesus é uma «Boa Nova».
Algo novo e bom. A palavra «evangelho» que utiliza Marcos é muito frequente entre os primeiros seguidores de Jesus e expressa o que sentem ao encontrar-se com Ele. Uma sensação de libertação, alegria, segurança e eliminação de medos. Em Jesus encontram-se com «a salvação de Deus».

Não encontraremos uma notícia melhor
Quando alguém descobre em Jesus o Deus amigo do ser humano, o Pai de todos os povos, o defensor dos últimos, a esperança dos perdidos, sabe que não encontrará uma notícia melhor. Quando conhece o projeto de Jesus de trabalhar por um mundo mais humano, digno e feliz, sabe que não poderá dedicar-se a nada maior.

Esta Boa Nova é Jesus mesmo, o protagonista do relato que vai escrever Marcos. Por isso a sua intenção primeira não é oferecer-nos doutrina sobre Jesus nem contribuir com informação biográfica sobre Ele, mas sim seduzir-nos para que nos abramos à Boa Nova que só poderíamos encontrar Nele.

As surpresas que o jovem Marcos descobriu em Jesus
Marcos atribui a Jesus dois títulos: um tipicamente judeu; o outro, mais universal. No entanto, reserva aos leitores, algumas surpresas. 

Jesus é o «Messias»
a quem os judeus esperavam como libertador do Seu povo. Mas um Messias muito diferente do líder guerreiro que muitos desejavam para destruir os romanos. No seu relato, Jesus é descrito como enviado por Deus para humanizar a vida e encaminhar a história para a sua salvação definitiva. É a primeira surpresa.

Jesus é «Filho de Deus»
mas não dotado do poder e a glória que alguns poderiam ter imaginado. Um Filho de Deus profundamente humano, tão humano que só Deus pode ser assim. Só quando termine a Sua vida de serviço a todos, executado numa cruz, um centurião romano confessará: «Verdadeiramente este homem era Filho de Deus». É a segunda surpresa.

Texto: José Antonio Pagola: Tradução: Antonio M. Á. Perez

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A "fórmula da vida honesta", segundo S. Martinho de Dume

«Ao muito glorioso e pacífico Rei Miro [1], insigne na Fé Católica e em piedade:
  
Regra da Vida Honesta [2]
O parecer de muitos sábios reduziu a quatro aquelas espécies de virtudes por cuja prática   pode o ânimo humano chegar à vida honesta ou virtuosa. A primeira delas é a prudência; a segunda, a magnanimidade; a terceira, a temperança; a quarta, a justiça. Estas, pois, por meios que abaixo se explicam, fazem o homem virtuoso.

CAPÍTULO I - Da Prudência

Quem quer que tu sejas, tu, que queres seguir a prudência, viverás bem regulado pela razão se primeiro que tudo avaliares e pesares cada coisa e determinares o seu valor, não pela opinião do grande número, mas pela sua própria natureza.
Porque deves saber que há coisas que parecem boas sem o serem; e outras que não parecem boas, e o são. Tudo quanto possuis de coisas transitórias, não o admires, nem tenhas como grande o que é efêmero; não vejas como alheias as coisas que de ti tens, mas governa-as e usa delas como tuas, e para o teu bem.
Se abraçares a prudência, serás em toda a parte o mesmo; e conforme exigido pela variedade das coisas e dos tempos, assim deves acomodar-te às ocasiões. Que tampouco as coisas te mudem, mas amolda-te tu a elas, tal como a mão que, ou se abre e estende, ou se fecha, mas é sempre a mesma.
É próprio do prudente examinar os conselhos e não se deixar levar arrebatadamente pelos falsos com fácil credulidade. Nas coisas duvidosas não decidas, mas suspende o teu juízo.
Nada afirmes sem o teres averiguado, porque nem tudo o que tem aparência de verdade é verdadeiro; assim como muitas vezes o que à primeira vista parece incrível, nem por isso é falso. Pois muitas vezes a verdade tem cara de mentira, e não poucas a mentira se esconde debaixo da aparência de verdade.
E assim como às vezes o amigo mostra o semblante carregado, e o lisonjeiro o mostra risonho, assim a falsidade se cora com a verisimilhança, e para enganar, ou se insinuar, toma essa cor.
Se desejas ser prudente, olha sempre adiante e examina no teu ânimo todas as coisas que podem acontecer. Nada faças de arrebatado, mas reflete primeiro com vagar. Porque quem é prudente não diz: “Não percebi que isso aconteceria”, porque não vacila, mas detém-se; não suspeita, mas previne.
Examina tu a causa de qualquer fato, e tendo-lhe descoberto a origem, preverás o êxito. Leva em conta que em algumas coisas deves continuar, já que as começaste; aquelas, porém, em que o continuar é mau, nem as deves começar.
O prudente nem quer enganar, nem pode ser enganado. É de homem bom não enganar outro nem ao ponto da morte. Sejam as tuas opiniões juízos formados. Cogitações vagas e inúteis e semelhantes a sonhos, não as abraces; pois se o teu ânimo se deixar enganar por elas, afinal de contas ficarás triste; mas seja o teu discurso estável e certo; ou deliberes, ou questiones, ou contemples, não te afastes da verdade.
Não sejam também inúteis as tuas palavras, mas que persuadam, ou movam, ou consolem, ou ensinem. Deves ser parco em louvar, e mais ainda em vituperar, porque tão repreensível é o louvar irresponsável, como o vituperar sem bom modo: porque o primeiro te faz suspeito de adulação, e o vituperar, de malignidade.
Dá testemunho à verdade, e não à amizade. Promete com consideração, e cumpre além ainda do que prometeste. Se o teu ânimo é prudente, deve ser repartido pelos três tempos; regula o presente, previne o futuro, recorda-te do passado. Porque quem nada considera do passado, perde a vida; e a quem nada pensa sobre o futuro, tudo o apanha desprevenido.
Põe diante do teu ânimo os males e bens futuros para que possas suportar aqueles e dirigir estes. Não estejas sempre em ação; mas dá de quando em quando folga ao teu ânimo; e que este descanso seja preenchido com o estudo da sabedoria e com bons pensamentos, porque o prudente nunca se entorpece com o ócio.
Sim, o prudente tem às vezes o ânimo mais frouxo, mas nunca desatado; acelera as coisas tardias, desenvolve as embaraçadas, abranda as duras, leva ao fim as árduas; pois sabe por que caminho deve entrar em cada coisa, e conhece cada uma delas, e as vê todas distintamente.
O discernimento dos sábios decifra as coisas escuras pelas coisas claras, as coisas grandes pelas pequenas, as coisas remotas pelas coisas próximas, e o todo pelas partes.
Não te arraste a autoridade de quem fala, nem prestes demasiada atenção a quem diz algo, mas ao que diz; nem olhes a quantos agrada o que é dito, mas a quais indivíduos.
Busca só aquilo que podes achar; aprende o que podes saber; deseja o que se pode desejar diante dos bons. Não te lances à coisa mais alta, na qual nem poderás te sustentar sem tremor, nem subir sem queda. Toma para ti conselhos saudáveis. Quando a prosperidade da vida te lisonjeia, considera que estás em terreno escorregadio, e pára; tampouco te deixes levar pelos primeiros ímpetos, mas lança o olhar para o local a que queres ir, ou até onde.

CAPÍTULO II - Da Magnanimidade

Se na tua alma morar a magnanimidade, que também se chama fortaleza, em grande segurança viverás livre, intrépido, desassustado. É um bem do homem magnânimo não vacilar, não desmentir de si mesmo, e esperar desassombrado o fim da vida. Nada há grande nas coisas humanas senão o ânimo que despreza as coisas grandes. Se fores magnânimo, nunca pensarás que alguém te faz uma afronta. Do inimigo dirás: “não me fez mal, teve intento de o fazer”; e quando o tiveres debaixo do teu poder considerarás como vingança poder tomá-la: pois deves saber que é um honrado e grande gênero de vingança o perdoar. A ninguém acometas disfarçadamente, a ninguém roas na pele: busca-o com a cara descoberta; não tenhas contenda sem a haver anunciado, porque as fraudes e os enganos só ao fraco competem. Serás magnânimo se nem desafiares os perigos, como o temerário, nem os receares, como o tímido; porque nada faz o ânimo timorato senão o remorso da vida repreensível. Está portanto a medida da magnanimidade em não ser o homem tímido, nem temerário.

CAPÍTULO III - Da Temperança

Se amas a temperança, corta o supérfluo e encurta os teus desejos. Considera contigo quanto a natureza necessita, e não quanto apetece à cobiça. Se fores temperado, chegarás a conseguir o contentar-te contigo mesmo, porque quem se satisfaz consigo nasceu rico. Põe freio e modo aos teus apetites e repele os atrativos, que com oculto engodo arrastam o ânimo.
Não comas além do que podes, nem bebas até a embriaguez. Estejas atento para que, em companhia de mesa, ou em outra qualquer da vida, não pareças condenar aqueles a quem não imitas; nem te envolvas nos deleites presentes, nem estejas suspirando pelos ausentes. A tua comida seja comum; não chegues a ela como a um regalo, mas como a um sustento: que seja a fome que estimula o teu paladar, e não os guisados. Atende com pouco os teus desejos, porque só deves cuidar em que eles cessem, e, como amoldando-te ao Divino exemplo, passa o mais depressa que puderes do corpo para o espírito.
Se buscas a temperança, seja a tua morada não deleitosa, mas saudável; nem queiras que o dono seja conhecido pela casa, mas sim a casa pelo dono. Não te atribuas o que não hás de ser, nem queiras parecer coisa maior do que és. Cuida muito em que a tua pobreza não seja imunda, nem a parcimônia sórdida, nem a singeleza desatenciosa, nem a brandura lânguida; e se as tuas posses são poucas, não sejam motivo de preocupação. Nem chores o que é teu, nem admires o alheio. Se amas a temperança, foge das coisas indecorosas antes que se te avizinhem; nem te preocupes com o recato de outrem mais que com o teu. Lembra que tudo é mais tolerável que a indecência.
Abstém-te também de palavras indecentes, porque a soltura nestas fomenta a impudência. Gosta mais dos dizeres úteis que dos jocosos e agradáveis, mais dos ajustados que dos obsequiosos. Poderás às vezes misturar entre as coisas sérias alguma jocosidade, mas moderada e sem detrimento do respeito, ou do pudor. Porque o riso se faz repreensível toda a vez que é excessivo, ou desatado puerilmente, ou mulherilmente requebrado. Também torna odioso a um homem o riso ou desdenhoso, ou claro, ou maligno e disfarçado, ou provocado dos males alheios. Portanto se a ocasião pede alguma graça, diz a graça sempre com dignidade discreta, de modo que nem se ressintam de ti por picante, nem por insípido te desprezem.
Não haja em ti zombaria grosseira mas uma agradável cortesia. Sejam os teus sais sem mordacidade, as graças sem baixeza, o riso sem gargalhadas, a voz sem gritos, o andar sem estrondo; o teu descanso não seja preguiça e enquanto os outros brincam trata tu de alguma coisa boa e santa. Se és temperado, foge das adulações; e tão triste coisa seja para ti ser louvado por indignos, como se fosses louvado de coisas indignas.
Fica mais contente toda vez que desagradares aos maus e pelo fato de seres, pelos maus, mal avaliado; considera-o um verdadeiro louvor. O mais dificultoso ato de temperança é sacudir as adulações dos lisonjeiros, cujas palavras com uma certa satisfação amolentam o ânimo. Não procures granjear a amizade de alguém por meio de adulação, nem abras a porta para que outros por meio dela granjeiem a tua. Não sejas ousado nem arrogante; entra com cuidado nas coisas, não te arremesses. Conservada a gravidade, aceita de bom grado as advertências, e as repreensões com paciência.
Se alguém te repreender com razão, lembra que te ajudou; e se fizer isso sem razão, sabe que desejou ajudar-te. Não tens que temer as palavras ásperas, mas sim as brandas. Foge sempre dos vícios, e dos vícios alheios não sejas curioso indagador, nem severo censor, mas corrige-os sem os lançar em rosto; de modo que antes da advertência vá o bom modo, e ao erro dá facilmente desculpa. Não exaltes pessoa alguma, nem a abatas. Sê ouvinte calado dos que falam, e acolhe bem-disposto os que se dirigem a ti. A quem te pergunta responde facilmente; a quem porfia facilmente cede: não te demandes em contendas e discussões inúteis.
Se és temperado, vigia os movimentos do teu ânimo e corpo; que não sejam descomedidos, nem prescindas deles por ficarem ocultos, pois que importa que ninguém mais os veja se tu os vês?
Sê flexível, mas não leve; constante, mas não teimoso. O fato de teres conhecimento de alguma coisa nem fique escondido, nem se faça enfadonho. Faz todos iguais a ti; aos inferiores não desprezes com soberba; aos superiores, vivendo bem, não temas. Em matéria de troca de obséquios nem te dispenses dela nem a exijas. Para todos sejas afável, para ninguém meigo, familiar com poucos, para todos justo.
Sê mais severo no juízo que nas palavras, na vida que no semblante. Sê dado à clemência e  inimigo da crueldade. Quanto à boa fama, nem semeador da tua própria, nem invejoso  da alheia. Sobre rumores, crimes, suspeitas, não sejas crédulo, nem dado à má tendência, mas antes muito oposto àqueles que com a aparência da simplicidade tratam de prejudicar a outros.
Para a ira sê lento, para a misericórdia fácil; nas adversidades firme, nas prosperidades acautelado e comedido; ocultes as tuas próprias virtudes como outros escondem seus vícios; desprezes a vã glória e ao requerer dos outros os bens, de que és dotado, nada rigoroso. A ninguém desprezes por ignorante. Fala pouco, mas aguenta os faladores. Sério, mas não austero, e aturando mesmo o folgazão. Desejoso de sabedoria e dócil: o que sabes participa-o sem presunção a quem te o pedir; o que não sabes pede, sem disfarçar a ignorância, que te o participem. O sábio não alterará os costumes públicos, nem atrairá a si o povo com a novidade do seu viver. Segue-se a isto a virtude da justiça.

CAPÍTULO IV - Da Justiça

Que outra coisa é a Justiça senão uma tácita convenção da natureza, achada para o bem de muitos? A justiça não é instituição nossa, mas Lei Divina e vínculo da Sociedade humana. Nesta, não temos que averiguar o que convém: convém-te quanto ela te ditar. Tu, pois, quem quer que sejas que a queres agradar, teme e ama a Deus primeiro para que sejas amado por Deus. [3]
Serás amável a Deus se o imitares em desejar fazer bem a todos [4], a ninguém mal; então te chamarão todos de homem justo, seguir-te-ão e te respeitarão, e te amarão. Para seres justo não só não farás dano, mas impedirás que o façam, pois que o não fazer dano não chega a ser justiça, é apenas abster-se da injustiça. Começa pois por não tirar nada aos outros e ir-te-ás adiantando a alguma coisa mais, a restituíres o que outros tiraram. Castiga e coíbe os roubadores para que não façam temíveis aos outros.
Não armes contendas por uma palavra equívoca, mas observa a intenção com que é dita. Não sejas menos exato na afirmativa que no juramento. Sabe que a fé e a Religião intervêm toda vez que se trata da verdade, porque ainda que no juramento seja Deus [5] expressamente invocado, também do que não o invoca é testemunha: portanto não atropeles a verdade, para não atropelares a lei da Justiça.
Se alguma vez te vires na necessidade de usar de juramento, não o uses para defesa de coisa falsa, mas de coisa verdadeira; e quando por uma mentira houvesse de ser resgatada a fidelidade, não mintas, mas escusa-te; por quanto em toda boa causa o justo não revela o segredo, mas cala o que deve ser calado e fala o que se deve falar: e assim terá uma alta paz e segura tranquilidade. De modo que ao passo que os outros são pelo mal vencidos, vence ele o mal. Se cuidares, pois, de estudar isso, esperarás sereno e intrépido o fim da tua carreira: olharás alegre para as coisas tristes deste mundo, olharás quieto para as tumultuosas, e desassombrado para as extremas.

CAPÍTULO V - Da Medida e Regulamento da Prudência

Observados, pois, estes documentos, as quatro espécies de virtudes te tornarão homem perfeito se guardares a sua justa medida em um teor de vida igual. Porque se a prudência exceder os seus limites, as tuas ações serão dissimuladas e receosas; darão mostras de investigador das coisas ocultas e de averiguador de quaisquer defeitos; serás visto como tímido, reservado, como alguém que está buscando alguma coisa, sempre temendo alguma, sempre duvidando; e pela apreensão do teu ânimo moldarás as tuas sutilíssimas suspeitas. Serás apontado como manhoso, complicado e inimigo da simplicidade, e observador de culpas; em uma palavra, por todos serás chamado de mau homem. A estes defeitos te conduzirá a prudência desmesurada: mas se em tudo te fixares no justo meio, nada haverá em ti de grosseiro nem de malicioso.

CAPÍTULO VI - Do Modo de Regular a Fortaleza

Do mesmo modo, se a magnanimidade ou fortaleza exceder a sua medida, ficará o homem ameaçador, turbulento, inquieto e muito propenso a jactâncias de ditos e de ações, sem falar do decoro. A cada passo fecha o semblante, semelhante a um besteiro, que vai perturbar o que estava quieto. A um fere, a outro afugenta. Mas embora seja arrojado, não poderá fazer frente a muitas valentias da parte contrária. E ou chega a um mísero fim, ou deixa de si tristíssima memória. É portanto a justa medida da magnanimidade não ser o homem nem tímido, nem atrevido.

CAPÍTULO VII - Dos Limites da Temperança

Nos mesmos limites também conterás a tua Temperança. Evita o que é demasiado escasso; não encolhas a mão com desconfiança e receio. Não concentres a atenção em coisas mínimas,  porque uma visão tão estreita será tida como vil. Em uma linha média, pois, regularás a temperança, de modo que nem te mostres dado aos apetites, pródigo e gastador, nem tenhas um apego de avarento, o que te tornaria sórdido ou abjeto.

CAPÍTULO VIII - Como Se Há de Regular a Justiça

Finalmente, a Justiça deve ser governada por ti com uma tal regra de equilíbrio que nem um leve toque desfaça a tua consistência imóvel de ânimo. Ao mesmo tempo que não pretendes corrigir os grandes vícios, nem os pequenos vícios dos que erram, não deixes a rédea solta à maldade dos que brandamente te lisonjeiam, ou dos que atrevidamente te iludem. E tampouco te mostres intratável à sociedade humana negando com rigidez e austeridade toda desculpa e flexibilidade. O regulamento da Justiça deve ser tal que a autoridade da sua disciplina não caia em desprezo por uma excessiva vulgaridade de condescendência, nem perca a graça da afável amabilidade pela dureza de uma severidade atroz.

Conclusão das coisas sobreditas

Por isso, se alguém deseja regular a sua vida inculpavelmente não só para o seu próprio benefício mas para o dos outros, deve conservar com tal equilíbrio este regimento das virtudes acima referidas, segundo a qualidade dos tempos, dos lugares, das pessoas e causas, que à maneira de quem caminha por entre precipícios, indo a meia ladeira, evite a queda temerária e despreze a fraca covardia.»

NOTAS:
[1] Miro, rei dos Suevos (559-583). (CCA)

[2] “Regra da Vida Virtuosa” (“Formula Vitae Honestae”). Uma cópia está no volume “Opúsculos Morais”, São Martinho de Dume, Coleção Pensamento Português, 1998, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Portugal, 111 pp., pp. 27-43. A edição da Imprensa Nacional usou a versão de Claude W. Barlow. (CCA)

[3] A reciprocidade revela a presença da lei do equilíbrio. Para a filosofia esotérica, o vago termo “Deus” só pode fazer sentido quando significa a Lei Universal da justiça, ou a pluralidade infinita de inteligências divinas do Cosmo. O termo pode ainda simbolizar o eu superior ou alma imortal de cada ser humano. Sem esta salvaguarda, a palavra é enganosa quando usada no singular e estimula o fanatismo. O “Deus” convencional é quase sempre uma propriedade particular de alguém. Os fundadores e líderes de inúmeras igrejas e seitas costumam comandar deuses “monoteístas” e “todo-poderosos”, especialmente fabricados por eles próprios. (CCA)
[4] Neste caso Deus é nossa própria alma espiritual, a luz divina que ilumina a consciência de cada indivíduo. (CCA)
[5] A Lei do Carma e da Justiça, que pune o hipócrita e recompensa o honesto. (CCA)

Qual é o significado do presépio na família cristã?


A maior dificuldade de muitas pessoas do nosso tempo é contextualizar, nos acontecimentos atuais, o misterioso evento do Nascimento de Jesus.

Maria e José com o Menino Jesus: imediatamente vem à mente a Sagrada Família de Nazaré, o modelo de qualquer família cristã, que testemunhou a santidade por muitas provações e tribulações vividas.

Maria e José foram rejeitados quando chegaram a Belém para o censo ordenado por decreto de César Augusto. Esta situação recorda a situação de muitos migrantes que por vários motivos são forçados a deixar suas terras por causa da pobreza, da guerra e das perseguições políticas.

Muitos migrantes deixam os seus países de origem em busca de um futuro melhor, mas muitas vezes encontram as portas fechadas nas fronteiras dos estados, que os rejeitam, porque eles não têm todas as permissões. E quando conseguem entrar, vem negado um contrato de trabalho regular que lhes permita ter tudo o que precisam para ficar no país estrangeiro. Eles são explorados, privados do direito de receber uma remuneração adequada, negado o direito de tirar férias, negado o direito de contribuir para a aposentadoria.

Os pastores: são outros protagonistas da cena da Natividade, que representam os excluídos e rejeitados de todos os tempos da história:
 - Os pastores representam aqueles que vivem à margem da nossa sociedade; podemos reconhecê-los em muitas categorias de pessoas. Podemos ver neles os que perderam o emprego e vivem na expectativa de recuperar a dignidade perdida.
 - Esses pastores são a imagem de muitos casais inférteis que esperam abraçar um filho seu e se alegram com o anuncio da boa nova do início de uma gravidez ou do nascimento de um filho tão desejado.
 - Esses pastores simbolizam os pais adotivos que depois de tantas vigílias pensando nos filhos, deixam tudo para correr e abraçar seus filhos que se encontram em moradias precárias e sofrem o frio do abandono.
 - Esses pastores representam muitos pais de família que vivem o flagelo da separação ou do divórcio e esperam as festas para abraçar seus filhos e passar um tempo com eles.

Rei Herodes: é a personificação do mal, que está sempre presente, em cada período da história, para obstruir e destruir o projeto de Amor de Deus.

Menino Jesus: Diante desse imperioso avanço do mal, a esperança proposta pelo presépio é o nascimento do menino Jesus, a plenitude divina contida no corpo de um recém-nascido.

Esta criança recorda que a vitória sobre o mal não se realiza pela força da violência ou com a crueldade da guerra. O Menino Jesus pede para ser acolhido, amado e servido, como qualquer criança que vem ao mundo.

Olhando para o Menino Jesus recuperamos a confiança e a esperança, porque sentimos com estupor a presença de um Deus que é capaz de fazer-se pequeno para estar perto cada criatura humana. A única condição pedida é fazer-se também pequeno, inclinando-se para abraçá-lo e tê-lo nos braços, e prostrar-se diante dele para adorá-lo.

Os Magos: A adoração é o verdadeiro culto espiritual do presépio. Adorar não significa apenas cair de joelhos com o rosto por terra à frente do menino Jesus. Adorar significa, antes de tudo, dirigir-se a Deus em espírito e verdade, com espírito de humildade e com a verdade da caridade. Adorar significa deixar-se guiar pela inspiração e força do Espírito Santo, para seguir a vontade de Deus, que é o caminho da verdade que nos leva a ter uma vida pacífica, esperançosa e alegre.

Fonte: Zenit.org

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Imagina um Natal sem Jesus... «Disseram-me que o Natal era... mas eu vejo...»

Disseram-me que o Natal deu à luz o direito de nascer.
Mas eu vejo tantos que dão às trevas o direito de matar.

Disseram-me que o Natal era uma Criança.
Mas eu vejo que, para muitos, é um velho: o Pai Natal dos brinquedos.

Disseram-me que o Natal fez aliança entre dois mundos: o mundo de Deus e o mundo dos homens.
Mas eu vejo um "terceiro mundo" sem Deus e quase sem pessoas.

Disseram-me que o Natal era a festa da família.
Mas eu vejo tantas pessoas sem família e tantas famílias sem Natal.

Disseram-me que o Natal era a Paz entre os homens de boa vontade.
Mas eu vejo que de boa vontade apenas resta: "Se queres a paz, prepara a guerra".

Disseram-me que o Natal era o dia mais feliz das crianças.
Mas eu vejo crianças com fome no dia de Natal.

Disseram-me que o Natal era o dia da fraternidade universal.
Mas eu vejo pessoas a odiarem-se no dia de Natal.

Disseram-me que o Natal proibiu o Sol de se apagar.
Mas eu vejo homens que proíbem a noite de amanhecer. 

Frei Manuel Rito Dias, em Livro da Vida

«O Natal ficou sem Menino Jesus e tornou-se a festa do cone iluminado»

De repente no meio da rua lá está aquela tranquitana metalico-luminosa a que chamamos árvore de Natal. E foi perante aquele cone iluminado, artefacto que nos sobrou devidamente expurgado de tudo o que possa identificar aquilo que somos, o que sentimos, o donde vimos, que me dei conta de como em nome da segurança, da tolerância, da saúde e de sei lá mais o quê estamos a criar um mundo faz de conta. Um mundo em que:

O bolo rei já não tem brinde.

O iogurte ficou sem lactose.

As natas perderam a gordura.

O leite vem da soja e não das vacas.

Os doces ficaram sem açúcar.

Os bolos não têm farinha.

O café perdeu a cafeína.

A manteiga ficou magra.

O pão não tem glúten.

O circo ficou sem leões, depois sem elefantes e agora sem animais.

A humanidade ficou sem sexos e dizem que está perder o interesse pelo sexo.

O namoro ficou sem palavras por causa do assédio.

A Bela Adormecida ficou sem beijo porque o príncipe foi acusado de abuso.

A Capuchinho Vermelho já não é salva pelo caçador que também deixou de caçar e o lobo ficou vegetariano.

Os maridos e as mulheres passaram a cônjuges.

Os parques infantis ficaram sem escorregas de verdade. E alguns sem baloiços.

Chama-se a televisão em vez da polícia.

Os brinquedos ficaram sem graça mas estão cheios de didatismo.

As crianças não têm tempo para não fazer nada.

A má educação tornou-se bullying.

Os pátios das escolas já não têm árvores nem terra.

As gaiolas ficaram sem grilos.

Os filhos não têm pai nem mãe mas sim progenitores.

As feiras não têm graça.

O atirei o pau ao gato ficou sem letra.

A mentira tornou-se inverdade.

A culpa é alegada.

A verdade inconveniente.

O artesanato é certificado.

A fruta não tem bicho.

Brincar é uma actividade devidamente monitorizada.

Os filmes não contam histórias, ilustram teses.

As universidades tornaram-se uma liga de costumes.

As coisas deixaram de ser o que são para se tornarem num dado a avaliar consoante o seu enquadramento numa perspectiva condicionada por diversas valências.

Tudo é relativo.

O Natal ficou sem Menino Jesus e tornou-se a festa do cone iluminado.

Helena Matos, em http://observador.pt
Foto: Aveiro tem a maior árvore de Natal do País (50 metros/altura)