José Mattoso
Historiador
7ª Jornada da Pastoral da
Cultura, Fátima, 17.6.2011
In Didaskalia, 2011/2
© SNPC | 25.01.12
1.
Para quem tomar os três
conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade em si mesmos, não pode deixar
de os considerar como valores incontestáveis, seja para um cristão, seja para
quem for. Por isso, o observador desprevenido acha estranho que a Igreja tenha
levantado objeções à sua valorização. De facto, a Igreja, durante o longo
pontificado do papa Pio IX, e, depois disso, durante muito tempo, não hesitou
em condenar o liberalismo em geral e o liberalismo católico em particular. Foi
preciso uma muito lenta maturação intelectual e doutrinal para que a vigilância
censória do Vaticano atenuasse as suas desconfianças. Quanto à trilogia que os
liberais apresentavam quase como um novo Evangelho, a apologética cristã do
século XIX interpretava-a como pura hipocrisia: do seu ponto de vista, os
liberais não queriam instaurar a igualdade e a fraternidade, mas destruir a
Igreja.
Na verdade, não se pode
negar que a maioria dos governos liberais de então considerava a ação
anticlerical como necessidade inerente ao triunfo do liberalismo e à
implantação do Progresso. Em compensação, os católicos raramente souberam
distinguir o sentido ideológico da trilogia da sua verdade essencial. Não
compreenderam que esse uso ideológico, ao ocultar os interesses da burguesia
como classe dominante, não lhe retirava o valor como expressão de um ideal que
a Igreja devia também defender.
Procurando o sentido
próprio dos conceitos, temos de reconhecer que a trilogia, em si mesma, enuncia
um ideal. Sendo um ideal, é inatingível neste mundo. Não é por isso que deixa
de ser mobilizador de uma prática efetiva. Mas a trilogia tem também uma função
ideológica. Como tal, pode esconder objetivos menos desinteressados do que
parece. A apologética cristã dos séculos XIX e XX denunciou-a como
inconciliável com o Cristianismo e com os direitos da Igreja. Pio IX e alguns
dos papas que se seguiram condenaram as obras de Lamennais, e os princípios do
liberalismo católico. Esqueceram-se da profunda identidade de princípios que
devia unir cristão e não cristãos na defesa da Liberdade, da Igualdade e da
Fraternidade. Raros foram aqueles católicos que reivindicaram a sua inspiração
cristã, isto é a sua coerência com a mensagem de Jesus Cristo. Raros foram,
também, os defensores do liberalismo político que proclamaram a origem
evangélica dos seus ideais.
2.
Tendo este quadro
histórico como pano de fundo das reflexões (…) queria agora dizer a que
Sabedoria me refiro, para tentar averiguar que relação tem com o conceito de
Fraternidade. Não que haja várias Sabedorias. A meu ver, a Sabedoria é uma só.
Aquela que prega a resignação, o bom senso e a prudência, que «joga pelo
seguro», que escolhe sempre «do mal o menos», não é sabedoria, mas cálculo.
Evita o compromisso e a responsabilidade. Tem medo do risco. É por isso que a
literatura cristã fala tantas vezes de «verdadeira Sabedoria». A esta opõem-se
as sabedorias falsas ou aparentes. Mas a Sabedoria é uma só. Abrange a
totalidade do comportamento humano. O seu objeto é de tal modo vasto e complexo
que tem de se alimentar do contacto vivo com Deus na meditação e na
contemplação. É nesse contacto que se percebe, numa intuição súbita, ou numa
perceção progressiva, que a excessiva vastidão e complexidade do real se reduz,
em Deus, à Unidade. À simplicidade do Uno. O exercício contemplativo introduz o
homem na compreensão vivencial do mistério de Deus e do Homem. Vivencial,
portanto intuitiva. Não discursiva nem racional. Envolve a visão simultânea do
Universo, na sua incomensurável totalidade, com todas as suas leis e o seu
funcionamento, e como lugar onde a Humanidade inteira completa, no tempo, a
marca que a torna imagem e semelhança de Deus. Através da beleza indescritível
do mundo cósmico e do mistério da história humana, vê em si mesma a imagem e a
semelhança de Deus. Aceita as lutas e contradições que o Homem introduz na
História, e até a sua própria perversidade destruidora, como expressões de um
sentido incompreensível, ao mesmo tempo necessário e intrínseco, que se resolve
na visão unitária do Universo. A contemplação dá a perceção vivencial de que a
Totalidade do real exige também a realidade da contradição e, ao mesmo tempo, a
necessária conciliação do inconciliável. A perceção da totalidade torna-se
também vertigem no limiar do abismo que nos separa de Deus, e no insaciável
desejo de nele perdermos o nosso próprio ser. Ou seja, de instaurar a unidade.
A Sabedoria a que me
refiro decorre, pois, da experiência contemplativa. O fascínio pelo abismo da
totalidade não é exclusivo do Cristianismo. Encontra-se também na filosofia
platónica, nos textos védicos da Índia e na doutrina budista. Todas estas
tradições religiosas afirmam que a diversidade inerente à totalidade do real se
resolve na Unidade. Para o cristão, todavia, esta perceção fundamental
transfigura-se com a emergência de um elemento inesperado: Jesus Cristo. O
papel de Jesus Cristo na relação da totalidade com a unidade tem a ver com a
História humana e com cada um de nós. Jesus é Filho de Deus e Filho do Homem. É
ponte sobre o abismo que separa a unidade divina da limitação humana. É também
traço de união entre a História, isto é a diversidade e o tempo, e a unidade
divina. Jesus Cristo surge como instaurador da unidade. Intuímos este mistério
não em virtude de um raciocínio mas como evidência íntima de que Jesus Cristo é
o acontecimento feito Palavra que faltava à perceção da totalidade.
Jesus-Palavra resolve o mistério da unidade. Na apreensão íntima, vivencial, de
Jesus Cristo como Homem e, por isso, como nosso irmão, tornamo-nos atores do
grande drama da contradição entre o bem e o mal, entre a justiça e a
misericórdia, entre a necessidade e a liberdade humana. Jesus Cristo revela
onde está, e em que consiste aquele «fundo da alma», de que fala Tauler, e que
é onde reside a marca da nossa semelhança com Deus. Nesse drama, em que o mal e
o sofrimento representam um papel tão forte, Jesus não resolve praticamente
nada: cura alguns doentes, proclama a bem-aventurança dos pobres e perseguidos,
e aceita ao Paixão e morte. Mas estas ações e palavras são o símbolo de uma
atitude muito mais vasta. Na verdade, a ação que Jesus desempenha como Redentor
e Salvador é completamente diferente daquela que os homens usam para resolver
os seus problemas. Os homens usam o poder e a técnica. Traduzem a sua condição
em termos quantitativos. Em biliões, em cêntimos, em percentagens, em ratios,
em gráficos, em estatísticas. Mas o raciocínio quantitativo mostra a impotência
humana para resolver os problemas fundamentais: a fome, a pobreza, a doença, a
desigualdade, e todos os outros. Jesus não nega nada disso, mas aponta para uma
solução no plano de uma lógica não quantitativa. A Sabedoria ensina-nos que as
ações realizadas e propostas por Ele não valem pela sua eficácia material mas
como símbolos da força que Deus põe em nós e nos torna instrumentos de amor
fraterno e construtores de uma família humana unida pela solidariedade. São os
símbolos que sustentam a esperança.
O enraizamento da
Sabedoria no Evangelho torna o sábio cristão particularmente sensível à
exclusão dos preconceitos, à largueza de vistas e à busca da verdade, à
distinção entre o ser e o dever ser, à perceção da boa ou má vontade escondidas
ou patentes, ao papel do indivíduo e ao condicionamento mental, social ou
económico, ao esforço pessoal e ao resultado obtido, à construção dos consensos
e à necessidade das ruturas, à fidelidade nas convicções e à aceitação das
consequências. O sábio cristão sabe esperar. Não tem pressa. Para ele não há
absolutos. Tudo é relativo: um sorriso pode ser mais importante do que a
fundação de uma dinastia. Acredita no valor e na eficácia dos símbolos. Não
pronuncia sentenças nem faz discursos. O seu espaço é o silêncio. Considera que
a sua função não é julgar e condenar ou absolver, mas salvar, isto é, dar vida
à imagem de Deus que está no fundo de cada homem.
3.
Que diz, então, a
Sabedoria (a cristã, evidentemente) acerca da Fraternidade? Esqueçamos, por
enquanto, o significado que os ideólogos da Revolução Francesa lhe atribuíram.
Pensemos no significado claro e simples que a palavra tem. «Fraternidade» é
aquilo que é próprio da relação entre irmãos. Ao tomá-la como modelo da relação
entre todos os homens, a Sabedoria propõe a partilha de bens e de sentimentos,
a subordinação do individual ao comunitário, a exclusão das diferenças, a
igualdade de direitos, a amizade, a ajuda mútua, a solidariedade, a
consideração da humanidade inteira como uma só família. Atualmente, ao falar em
Fraternidade, tende a colocar-se o acento na Igualdade, justamente em virtude
do sentido que lhe deram os doutrinários da Revolução Francesa. Para eles, a
Fraternidade torna-se assim uma espécie de explicitação e confirmação da
«Igualdade». Propunham que acabassem as diferenças entre os homens e se
abandonassem barreiras e privilégios.
Notemos, porém que, se
considerarmos as relações entre irmãos de um ponto de vista antropológico,
verificamos que adquirem expressões muito diversas conforme os sistemas de
parentesco adotados nas diversas culturas e a escala de valores por elas definida.
Assim, por exemplo, na própria cultura ocidental, os irmãos não tinham todos os
mesmos direitos e deveres. O que prevalecia não era a paridade entre irmãos,
mas a subordinação de todos aos interesses comuns da família. Ser bom irmão,
para os filhos-segundos da nobreza e de grande parte da burguesia, significava
aceitar ser excluído da herança paterna, renunciar ao matrimónio, procurar a
subsistência na vida militar ou tomar as ordens sacras. A ideologia
revolucionária não contestou o modelo, mas o seu efeito na perpetuação de
privilégios de classe. Depois da Revolução, continuou a ser praticada pela
burguesia rural que queria manter o seu estatuto social, evitando a
fragmentação da herança. Em termos antropológicos, Fraternidade não significa,
pois, igualdade de direitos.
Em termos psicológicos,
também não. Sabemos bem que o caráter individual de cada pessoa se forma em
contraposição ao comportamento dos seus próprios irmãos. O sucesso pessoal de
um pode provocar a rivalidade de outro; a preferência do pai ou da mãe por um
dos filhos suscita reações que marcam a personalidade em formação e, por
oposição, a dos outros irmãos. Estes problemas de comportamento não são só dos
dias de hoje, nem uma aquisição da psicologia moderna. As rivalidades fraternas
inspiraram, por exemplo, alguns dos capítulos mais importantes do Antigo
Testamento. O que eles narram não são mais do que variantes de uma realidade
universal. Recordem-se histórias como a do assassinato de Abel por seu irmão
Caim, o estratagema de Isaac para se apoderar do direito de primogenitura de
seu irmão Esaú, a inveja dos irmãos de José por ser o preferido de seu pai
Jacob. Encontra-se o mesmo tema em muitos contos e mitos de várias culturas, o
que mostra a complexidade da relação fraterna e, portanto, a ambiguidade da
noção de fraternidade.
4.
Não parece, pois, que a
Fraternidade liberal se inspire em tais modelos. Qual é, então o seu sentido?
Para o compreender temos de recorrer a aspetos da cultura ocidental derivados
do Cristianismo. Na cultura ocidental, a Fraternidade liberal não evoca os
vínculos que unem os membros da família natural, mas os que formam as
comunidades monásticas ou religiosas. Estas, por sua vez, inspiram os membros
das irmandades, confrarias e ordens terceiras que estruturavam a sociedade
medieval. Com efeito, a vertente cenobítica da vida monástica criou as
comunidades artificiais de indivíduos que decidiam viver em comum, sem que os
unissem os vínculos do sangue. Os eremitas procuravam a solidão; quando
aceitavam a convivência com alguém, era apenas para lhe transmitir os seus
ensinamentos e a sua experiência contemplativa; esta associação era temporária.
Nas cidades e sobretudo junto a algumas basílicas onde se veneravam relíquias
dos mártires, havia também grupos de ascetas e de clérigos que invocavam o
exemplo mítico da comunidade de Jerusalém, cujos membros punham todos os seus
bens em comum, como lembram os Atos dos Apóstolos. Este modelo constituía uma
espécie de institucionalização da forma de vida adotada por Jesus e os Doze
Apóstolos. A literatura cristã dos primeiros séculos chamou-lhe «Vida
apostólica». Foi invocado durante os séculos XI a XV por várias instituições
monásticas e ascéticas, rurais e urbanas, que se influenciaram umas às outras,
dando origem a costumes precisos e a organizações cujos membros se
consideravam, de facto, irmãos uns dos outros. A sua conceção dos vínculos que
os uniam inspirava-se nas relações fraternas, mas profundamente idealizadas: os
motivos religiosos da associação valorizavam, como um ideal absoluto, a prática
da caridade, a renúncia aos bens em favor da comunidade e a obediência a um
abbas, isto é um pai que devia tratar todos os membros da comunidade como
filhos. Este tipo de associações foi adaptado pelas confrarias medievais, também
baseadas num parentesco fictício, mas não viviam em comum nem renunciavam aos
bens pessoais. Os seus membros também cultivavam a ajuda mútua e exprimiam a
sua associação por meio de rituais identitários e socializantes. O conceito de
Fraternidade proposto pelos revolucionários de 1789 inspirava-se, de facto,
consciente ou inconscientemente, no modelo monástico e religioso da Idade Média
ocidental. A sua origem é profundamente cristã. Não apela para a fraternidade
entre irmãos de sangue, mas entre irmãos de crença. Mas a vida monástica não é,
evidentemente uma solução para a organização da sociedade, mas apenas um sinal,
um símbolo que promete a transfiguração da fraternidade humana em fraternidade
divina.
Todavia, ao contrário do
que acontecia na vida monástica e religiosa, e muito menos nas confrarias,
seria impensável considerar a fraternidade revolucionária como um ideal que
propunha a diluição do indivíduo na comunidade. As regras monásticas criaram
práticas tendentes a suprimir a vontade própria e a sacrificá-la ao bem comum.
A evolução da cultura ocidental depois da Idade Média, todavia, não foi nesse
sentido. Pelo contrário, valorizou cada vez mais a autonomia individual na
criação intelectual e artística, no desenvolvimento da personalidade, na responsabilidade
pessoal, na iniciativa da ação. A Fraternidade revolucionária é temperada pela
Liberdade. Concebe a formação e o desenvolvimento da sociedade como resultado
da associação harmónica de esforços voluntários.
Aparentemente, esta
conceção da Fraternidade já não espelha de uma maneira tão evidente a origem
cristã. Em si mesma, porém, não só não a contradiz, mas constitui uma forma
mais perfeita de realização. Uma vez que Jesus Cristo aceita entre os seus
discípulos não só homens, mas também mulheres; não só adultos, mas também
crianças; não só pessoas sãs, mas também cegos, estropiados e leprosos; não só
judeus vulgares, mas também levitas e sacerdotes do Templo; não só fariseus
cumpridores da lei, mas também publicanos e soldados romanos; e se, entre os
seus discípulos, havia temperamentos tão diferentes como os de Pedro e João –,
deve-se concluir que a imitação de Cristo exige a conciliação da edificação do
bem comum com a realização pessoal. A realização pessoal implica a liberdade
para com todas as leis do mundo. Por isso diz S. Paulo aos Gálatas que «foi
para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gál., 5.1). Se o ideal monástico
medieval não põe em evidência o indivíduo mas a comunidade, é em Jesus Cristo
que tem de se procurar a valorização da convivência fraterna como apoio e
estímulo da realização pessoal. Muitas das congregações religiosas souberam pôr
em prática este ideal, e devem-lhe o seu sucesso na época moderna. Como tal,
são o símbolo da conjugação do ideal fraterno com a criatividade individual.
A origem cristã da
Fraternidade proposta por Jesus Cristo tem ainda uma componente mais vasta e,
por assim dizer, mais política, mas também mais misteriosa. Jesus é o Messias.
Não salva quem o acolhe por meio do poder, mas da aceitação do sofrimento e da
morte. Mostra assim a sua solidariedade com os pobres, os humilhados e os
perseguidos. Dirigindo-se aos seus discípulos deixa-lhes como última
recomendação: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo., 15. 12). Os
cristãos sempre consideraram estas palavras como um preceito universal. Ou
seja, mesmo que não vivam em comum, os homens e mulheres que tomam Jesus Cristo
como seu modelo consideram-se membros de toda a família humana e responsáveis
pela instauração da sua unidade. Estamos de novo no domínio dos ideais e dos
símbolos e não no das ideologias. Mas continuamos a ter de reconhecer a
inspiração cristã da Fraternidade revolucionária.
5.
Contudo, a Fraternidade
de que falam os liberais pode ter uma inspiração diferente e ao mesmo tempo
mais precisa. Na mente dos seus ideólogos tinha, sem dúvida, como modelo
oculto, a fraternidade maçónica. Para alguns dos seus principais fautores,
significava a ajuda mútua na prossecução de um modelo de sociedade organizada
em função da implantação do Progresso universal, como ele era concebido desde o
triunfo do Iluminismo. Este objetivo devia ser alcançado com o concurso e sob a
orientação de uma elite esclarecida. A sua eficácia baseava-se na coordenação
dos esforços de indivíduos escolhidos a dedo, e no compromisso de ajuda mútua,
tanto para garantir o sucesso pessoal de cada um deles, como para suprimir os
obstáculos à realização plena da Humanidade por meio do Progresso.
Se, teoricamente, não
existe contradição entre Fraternidade maçónica e Fraternidade cristã, também
não se pode negar que, em muitos casos concretos, o que prevalece é a oposição.
Assim acontece nas lojas que cultivam o ateísmo e cujos membros se associam
para beneficiar da troca de favores pessoais. O caráter secreto da fraternidade
maçónica, em si mesmo, também não é incompatível com o ideal cristão. Mas a
ocultação das pessoas e dos meios de ação favorece a ambição pessoal e a
conquista do poder económico ou político por meio de processos ilícitos. A
Sabedoria cristã não acusa a fraternidade maçónica como tal, mas também não
pode deixar de apontar o risco de perda de critérios morais quando o objetivo é
favorecer um grupo secreto e excluir os seus concorrentes.
Os ataques da Maçonaria à
Igreja católica, considerada como obstáculo ao Progresso, não podiam deixar de
cavar o fosso entre uma e outra. Historicamente falando, o ódio clerical à
Maçonaria tornou-se, em muitos casos, uma verdadeira obsessão. Alimentou
interpretações conspiratórias impossíveis de provar. As acusações mútuas suscitaram
represálias violentas e deixaram marcas profundas de ambos os lados. Mas a
Igreja portuguesa da época moderna também não era imaculada. Ao lado de muitos
exemplos de espírito evangélico, a Igreja foi responsável por muitos outros de
sentido contrário. A sua história está cheia de luz, mas também de muita
sombra. A secularização dos bens das ordens religiosas não foi só uma
espoliação injusta; foi também uma purificação necessária. A acusação de
obscurantismo intelectual feita ao clero português do século XIX e durante o
período republicano pelos liberais e maçons foi, em geral, temos de o
reconhecer, bastante merecida.
A Sabedoria manteve-se
silenciosa no meio destas controvérsias. Não foi ela que inspirou a apologética
clerical do século XIX, baseada sobretudo na contestação aos ataques do
liberalismo. Esquecendo a origem cristã, e até monástica, do conceito e da
prática da Fraternidade, a intelectualidade clerical dessa época, aliou-se ao
conservadorismo político, e tentou por todos os meios recuperar a sua posição
privilegiada. A Sabedoria, porém, deixa que o tempo revele a verdade das
coisas. Esperou que a Igreja se refizesse dos seus traumas. Nunca deixou de
inspirar a vivência de pequenas bolsas de cristãos mais preocupados com a vinda
do reino de Deus do que com triunfos institucionais. Deixou as ideias
amadurecerem. A Igreja acabou por perceber que não havia nenhuma
incompatibilidade entre o Cristianismo e o Liberalismo. Os liberais perceberam
também que o verdadeiro obstáculo ao Progresso era a intolerância e não a
doutrina cristã. Por isso podemos hoje estar aqui, tentando ouvir a voz do
Espírito divino, sem medo de dizer o que Ele silenciosamente nos põe no
coração.
6.
Ainda falta mais uma
palavra acerca da Fraternidade. A Sabedoria não pode, também, deixar de
denunciar o caráter por assim dizer luciferiano do tipo de Progresso proposto
pela ideologia maçónica e pelo positivismo, isto é, daquele Progresso que
esquece o Homem e se alcança pela técnica e o voluntarismo racionalista. O
positivismo novecentista confiava na realização plena das virtualidades humanas
a partir do desenvolvimento técnico e da lógica racional. Mas a evolução
sócio-económica do mundo atual parece demonstrar o seu fracasso de forma cada
vez mais categórica. A capacidade técnica do homem não garante o sentido da
responsabilidade no uso dos meios ao seu dispor. A conceção consumista em que
se baseia a economia de mercado e a busca do lucro a qualquer preço, com todas
as suas consequências para as grandes massas indefesas, coloca nas mãos de
predadores sem escrúpulos a gestão do dinheiro, do poder e dos bens naturais e
artificiais: a gestão da água, da terra, da energia, do lixo tóxico e não
tóxico, das armas, dos órgãos humanos, da droga, do sexo, da informação, da
privacidade. O que o racionalismo trouxe foi a reserva dos benefícios da
modernidade e das realizações técnicas para uma minoria cada vez mais reduzida.
As estatísticas não mentem. Um panorama quantitativo dos problemas humanos como
a fome, a limitação da energia ou da água e do que a técnica humana tem
conseguido fazer para os resolver conduz a uma situação de desespero. Numa
época em que os meios de comunicação eram limitados podíamos, talvez, acreditar
no Progresso universal. Hoje, cada vez mais bem informados do que se passa no
mundo, sabemos bem que o progresso técnico só veio aprofundar o fosso que
separa os seus beneficiários das suas vítimas. Se algum progresso houve foi à
custa da Fraternidade.
Por isso deixámos de
acreditar no Progresso que os metadiscursos utópicos das filosofias iluministas
prometiam. A técnica, a racionalidade pura e dura, e o imperialismo da
quantidade, são impotentes para resolver os problemas da humanidade. A
Sabedoria ensina que é preciso temperá-las por meio de uma teoria e uma prática.
Por meio da valorização dos sinais e dos símbolos, a valorização da qualidade e
da linguagem poética; da atenção concedida aos pequenos gestos e à gratuidade
do dom; da perceção das harmonias e do respeito pela dignidade de cada homem,
cada mulher e cada criança; enfim, pela evidência de que o mundo em que vivemos
é limitado. A realização da Humanidade tem de envolver o homem inteiro, corpo e
espírito, coração e razão, e de valorizar todas as participações, mesmo as mais
humildes e imperfeitas. A Sabedoria traz-nos a esperança de que os pequenos
gestos de fraternidade ao nosso alcance, realizados com todo o coração e com
toda a alma são sinais de que o ideal da Fraternidade não se deixa vencer pela
visão realista de um mundo à beira da catástrofe.
O que a Sabedoria propõe
é de facto a Fraternidade. Sendo ela revelação da unidade na totalidade, mostra
os caminhos por meio dos quais se realiza a unidade da família humana: a
partilha e comunhão dos bens da vida e da terra; a solidariedade que faz a cada
um sentir-se, e ser, de facto, responsável por todos; a ousadia de interceder,
na oração, por todos os que necessitam de ajuda, e de pedir perdão por aqueles
que não sabem o que fazem; a convicção íntima de que cada homem representa a
humanidade inteira; a partilha dos bens com os necessitados. A Sabedoria mostra
também que cada gesto de solidariedade, cada ato de amor, cada renúncia em
favor de alguém, é realmente mais um passo que nos aproxima da Fraternidade. A
Sabedoria faz-nos acreditar que essas pequenas ou grandes realizações são sinal
de que a Humanidade pode continuar a esperar a plena realização da fraternidade
universal.
Para o cristão, não
bastam os modelos, por assim dizer, institucionais, propostos, pelas várias
culturas humanas através das estruturas de parentesco, ou pela Igreja através
das ordens religiosas e das confrarias. O Evangelho vai mais longe do que a
Igreja. Exagera, como sempre. Os limites que propõe ultrapassam a capacidade
humana: «Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que
vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam» (Lc., 6.27-28). E, por fim: «Sede
perfeitos como é perfeito o vosso Pai do Céu» (Mt., 5.48).
«Perfeitos como é
perfeito o vosso Pai do Céu»! A Fraternidade proposta pela verdadeira Sabedoria,
a de Jesus Cristo, não tem, pois, limites nem meio termo. Jesus convida-nos a
exceder a nossa própria capacidade. A expressão, a forma e a prática da
Fraternidade cristã não decorrem do dever, mas da voz e do agir de Deus em nós;
ou da fé de que falava Fr. José Augusto Mourão pouco antes de morrer: «A fé -
dizia ele - só existe em ato».
Toma forma concreta, por
exemplo, nas palavras inspiradas que Etty Hillesum, em 1943, no campo de
concentração de Westerbork, escrevia aos seus amigos. – E com elas termino.
«A miséria neste lugar é
realmente indescritível. As pessoas dos barracões grandes vivem como ratazanas
no esgoto. Veem-se muitas crianças a morrer […] Volta a assolar-me o sentimento
– não consigo evitá-lo, as coisas são como são, existe uma força elementar – de
totalmente novo. E quantos mais delitos e horrores se derem, mais amor e
bondade teremos de oferecer em contrapartida, sentimentos que temos de
conquistar dentro de nós. Podemos sofrer mas não podemos sucumbir. E se
escaparmos a estes tempos, imaculados no corpo e na alma, sem rancor, sem ódio,
então também nós teremos algo a dizer após a guerra» (Etty Hillesum, Cartas,
ed. Assírio & Alvim)
Temos alguma coisa a
dizer. Sem dúvida. Se formos capazes de, em contrapartida dos delitos e
horrores do nosso tempo, oferecermos mais amor e bondade. Mais do que quê? Mais
do que temos oferecido, é claro. Mais porque o que temos oferecido não é, nem
será nunca, suficiente. Mais porque os pobres e oprimidos deste mundo vivem na
miséria e são nossos irmãos. Mais, porque o que podemos fazer é apenas símbolo
do que seria preciso.
Não sabemos como se faz
esta contabilidade do mais e do menos. Só sabemos que temos de abandonar muitos
preconceitos, de alijar muita carga inútil e de oferecer mais amor e bondade.
Temos de converter o nosso olhar sobre o mundo ao olhar de Jesus Cristo. Temos
de converter o nosso coração, e deixar que a Palavra, que é o próprio Jesus
Cristo, produza em nós a metanoia. Temos de acreditar, com uma fé inteira, na
eficácia dos gestos simbólicos que Jesus nos ensinou a fazer. Então, por meio
de um olhar novo sobre o mundo, seremos capazes de ver o que nele já existe de
divino, e que é semente e promessa de unidade. E tendo visto a marca do divino,
deixar que ela solte em nós esses amor e bondade que são a marca da verdadeira
Fraternidade.

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