A juventude cresce na lógica de um individualismo narcisista (cf. DAp 51). Para as gerações jovens perde-se o sentido do passado ao mesmo tempo em que o futuro se apresenta como uma simples possibilidade, onde a única coisa que importa é viver o êxtase do tempo presente (n.º 3).
Vivemos num mundo digital fortemente marcado pela comunicação em tempo real em que a velocidade é considerada um fator fundamental. Os modos de pensar e agir próprios desse tempo geram uma instabilidade de saberes, costumes e verdades (n.º 4).
Como parte dos processos de mudanças culturais, a família, célula base da sociedade, vê-se submergida numa série de dificuldades com contínuos ataques à sua identidade, colocando em risco a estabilidade da sociedade (n.º 5).
Têm havido consideráveis avanços no campo dos direitos humanos. No entanto, constatamos também que se torna cada vez mais difícil a construção dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais. Junto com isso, persiste a corrupção, a crise de valores, o individualismo político, a violência, as migrações massivas e a perda da consciência cidadã cresce assustadoramente (n.º 6).
Expressamos, de maneira particular, nossa preocupação pela crescente migração que vivem nossos povos pela falta de empregos dignos e estáveis e por razões de ordem político-ambiental, que ameaçam a vida das pessoas e dos povos (n.º 7).
Entre os muitos sinais positivos que encontramos, alegra-nos constatar o aumento da participação cidadã na busca de uma sociedade mais justa e igualitária, nos processos democráticos e de controle social das entidades públicas e privadas, em defesa da vida digna e dos direitos dos cidadãos (n.º 8).
A mudança cultural que vivemos, onde o testemunho tem mais relevância que a palavra e o discurso, exige de nós viver a Palavra Encarnada e dar a vida pelo Reino, que nos leva reencarnar o mundo a partir de Jesus e dos valores do Reino (n.º 14).
III- Compromissos para a ação
18. A urgência do amor de Deus nos leva a buscar boas práticas que devam ser implementadas na vida dos leigos, tornando presente a Igreja comprometida com o Reino de Deus na construção de um mundo mais justo, mais humano e ecologicamente sustentável.
19. Inspirados por Jesus Cristo, Palavra Encarnada, diante dos desafios que a realidade nos apresenta, propomo-nos a:
a. Abandonar as estruturas caducas que não favorecem a transmissão da fé e da vida (DAp 365);
b. Renovar as estruturas e organizações com a participação dos cristãos na construção da nova civilização;
c. Aprofundar a identidade laical;
d. Promover a formação do laicato num mundo em crise cultural, que busca novos paradigmas, com voz profética, que, por um lado, denuncia as práticas de morte que existem em nosso meio, e, por outro lado, anuncia a novidade do Reino de vida a partir da Palavra Encarnada;
e. Ser voz que defenda e promova a vida nos novos areópagos da sociedade;
f. Retomar o olhar crente sobre a criação a partir da Palavra de Deus, entendendo que tudo leva em si a marca do Verbo, por quem todas as coisas foram feitas (cf. VD 109);
g. Promover estilos de vida sóbrios. Reverter, com uma nova forma de viver o cotidiano, os efeitos do atual modelo econômico, genocida e geocida;
h. Gerar e impulsionar, criativamente, formas de economia que privilegiem a dignidade do ser humano e promovam a justiça, o bem comum, a igualdade e a solidariedade;
i. Defender o trabalho digno como direito humano fundamental de acordo com a Doutrina Social da Igreja;
j. Impulsionar a renovação dos processos educacionais para que estes facilitem o encontro e a troca de saberes entre as pessoas. Que a educação promova os valores que privilegiem a construção da justiça, da fraternidade, da solidariedade, da verdade, da paz e do amor, na valorização do ser em detrimento do ter;
k. Educar as novas gerações na generosidade e disponibilidade para o serviço solidário com a responsabilidade social, ambiental e ecológica;
l. Conhecer, aprofundar e difundir a Doutrina Social da Igreja;
m. No bicentenário da Independência de nossos povos, assumir o desafio de fazer deste continente da esperança um continente do amor a partir dos pobres e excluídos, onde todos sejamos cidadãos das Américas, com responsabilidades e direitos, o que nos exige abrir definitivamente nossas fronteiras;
n. Aos fiéis leigos que participam da política ou de cargos públicos, de modo direto ou indireto, se lhes pede que:
i. Promovam o respeito à vida desde sua concepção até sua morte natural;
ii. Defendam a família como núcleo da sociedade e espaço privilegiado de formação;
iii. Fomentem os processos de construção de uma democracia participativa com ética e respeito à pluralidade, fortalecendo os organismos de fiscalização e controle dos poderes do Estado;
iv. Promovam o projeto e a execução de políticas públicas que favoreçam a qualidade de vida dos mais pobres e excluídos, principalmente nas áreas de habitação, alimentação, saúde e educação;
v. Atuem coerentemente com sua fé, assumindo o poder como serviço aos irmãos e à sociedade para gerar o bem comum, a justiça, a paz e a solidariedade.
A construção de uma nova sociedade, casa comum e espaço de fraternidade, compete a todos. Nela nascemos, vivemos e exercemos a variedade dos dons que o Criador tem nos dado. Inspirados pela Palavra de Deus e animados pelo Espírito Santo de Deus, junto a pessoas de boa vontade, assumimos com inteireza e coragem a responsabilidade de contribuir para o crescimento e dilatação do Reino de vida, verdade, justiça, paz e amor.
Sentimos que não estamos sozinhos nesta tarefa. O Espírito de Deus nos anima, inspira e fortalece para que, junto com a Virgem Maria, Mãe de amor e Senhora da esperança, sejamos, ante o mundo, testemunhas da verdade e do amor que nos leva ao encontro do Senhor ressuscitado, que está entre nós, caminhando com seu povo.
In Mensagem aos fieis leigos da América Latina e Caribe, Lima, Março de 2011.
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