António Pinto Leite, na primeira entrevista como presidente
da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), no período de 2011 e
2016, usou um discurso disruptivo. Numa linguagem pouco habitual nos líderes
empresariais, o advogado explica como os princípios cristãos trazem maior
competitividade às empresas
POR BRUNO PROENÇA (cortesia Diário Económico)
Qual a diferença na abordagem à crise entre um empresário
cristão e outros empresários ou gestores?
No último Censos, 90% dos portugueses revelam que são
católicos. Assim, nove em cada dez gestores devem ser cristãos. Nesta
perspectiva, os valores da doutrina social da Igreja são entendidos e desejados
pela maioria dos que dirigem as empresas ou são donos dos negócios. A proposta
da ACEGE passa por adoptar o amor ao próximo como critério de gestão
empresarial. Pode parecer místico ou ingénuo, mas é um critério de grande
solidez operacional e pragmático porque significa tratar os outros como
gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar deles.
Concretamente, a que é corresponde em termos
operacionais?
Relativamente aos colaboradores, usar o despedimento apenas
como último recurso e pagar o salário mínimo mais elevado possível, de forma a
retirar da pobreza todos os que integram a comunidade empresarial. Ainda
relativamente aos trabalhadores, fazer o diagnóstico social interno para
conhecer as situações familiares dos colaboradores mais carenciados. É uma
espécie de sonda confidencial que permite acompanhar essas situações. Há
situações de pessoas que ganham acima do limiar da pobreza, mas que enfrentam situações
de disrupção familiar graves.
Que outros exemplos concretos pode dar da aplicação do
princípio do amor ao próximo na gestão?
Relativamente aos fornecedores, o pagamento pontual é o
mínimo ético empresarial de forma a evitar constrangimentos de liquidez nas
outras empresas, nomeadamente nas mais pequenas. Quem entra numa gestão de
tesouraria em que atrasa sistematicamente os pagamentos está a contribuir para
uma cadeia de sinistralidade empresarial, que leva ao desemprego. Assim, a
ACEGE recomenda energicamente que se pague a tempo e horas. Não vale a pena ter
políticas de responsabilidade social muito cheias de marketing - como limpar
jardins ou pintar paredes de IPSS - se depois não se paga a horas.
Quando se fala com muitos empresários, não se ouve este
discurso da ACEGE. O que é que estão a fazer para passar a mensagem?
Há muitos anos que tinha percebido que a ética - não esta
ética cristã, mas em geral - era o melhor investimento de longo prazo. Hoje
tenho a consciência profunda de que há uma diferença entre o código civil e o
Evangelho. E muitos empresários nem sequer respeitam o código civil,
nomeadamente o princípio da boa fé, como acontece com o pagamento fora de
horas. Esta é uma batalha de muitos anos da ACEGE. O estudo do professor
Augusto Mateus mostra que se perderam 72 mil empregos nos últimos cinco anos
por este factor, além de uma quebra de 2,8 mil milhões de euros em volume de
negócios por ano.
Como é que perspectiva os caminhos de saída para esta
crise?
O que tem valido à Europa é que ainda não se chegou ao ponto
em que se percebe que já perdeu o controlo da situação. Ainda há a noção de que
com uma liderança enviesada de Alemanha e França e com algumas soluções, como a
ajuda a Portugal, a situação vai sendo controlada. O caso da Itália deixa o
nível de preocupação bastante mais acelerado porque poderá ser incontrolável. A
implosão do euro e, consequentemente, do projecto europeu, seria para a nossa
geração o correspondente a uma catástrofe natural. No plano dos valores
cristãos, é necessário sublinhar como teriam sido úteis para os pequenos
Estados, que de algum modo faltaram ao respeito dos compromissos
internacionais. Portugal, se estivesse no lugar da Alemanha, não faria o que
fez. Bem como hoje, a Alemanha terá um comportamento diferente se tentar
colocar-se no papel de Portugal, Grécia ou Itália e perceber as necessidades
destes povos.
Mas que soluções existem?
Há soluções técnicas para resolver estes problemas,
nomeadamente com outra actuação do Banco Central Europeu. Há uma teimosia
luterana ou uma falta de criatividade latina que está a impedir a aplicação de
uma política monetária expansionista.
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