Sem chamar a atenção, Jesus voltou à Terra. Veio na pessoa de um coletor de material reciclável, morador de rua. Comia refeições preparadas por vendedores ambulantes ou sobras que, pelas portas do fundo, os restaurantes lhe ofereciam.
Andava sempre com uma pomba pousada no ombro direito. Estranhou o modo como as pessoas bem vestidas o encaravam. Lembrou que, na Palestina do século I, a sua presença suscitava curiosidade em alguns e aversão em outros.
Agora predominava a indiferença. Sentia-se, na cidade grande, um Ninguém. Um ser invisível.
Ao revirar latas de lixo à porta de uma faculdade, nenhum estudante ou professor o fitou. “Fosse eu um rato a remexer no lixo, as pessoas demonstrariam asco,” pensou. Agora, nada. Nem o percebiam. Ou consideravam absolutamente normal um homem andrajoso remexer o lixo.
Graças a seu olhar sobrenatural, capaz de apreender alma e mente das pessoas, Jesus sabia que eram, quase todas, cristãs...
Roubaram um carro defronte a faculdade. A vítima, uma estudante cirurgicamente embelezada, apontou-o como suspeito de cúmplice dos ladrões. A polícia, sem pistas dos criminosos, decidiu prendê-lo para aplacar a ira da moça, filha de um empresário.
O delegado inquiriu-o:
— Nome?
— Jesus.
— Jesus de quê?
— Do Pai e do Espírito Santo.
O delegado ditou ao escrivão:
— Jesus da Paz, natural do Espírito Santo.
A polícia conhece a diferença entre bandidos e moradores de rua. Tão logo a moça e seus pais deixaram a delegacia, Jesus foi libertado.
Saiu pela avenida, de olho nas vitrinas das lojas. Impressionou-se com os rápidos flashes coloridos dos televisores expostos nas lojas. A profusão de anúncios. Comentou com o Espírito Santo:
— Houvesse TV naquela época, teriam transmitido o Sermão da Montanha como um discurso subversivo e exibido no Fantástico a multiplicação dos pães. Se eu facilitasse, uma marca qualquer de cerveja iria querer me patrocinar...
Em busca de material reciclável, Jesus se surpreendeu com a quantidade e a variedade de lixo. Quanta coisa ele não conhecia! Como as pessoas consomem supérfluos! Quanta devastação da Natureza!
Dormiu num banco de praça. Ao acordar, deu-se conta de que desaparecera seu saco repleto de latinhas e papéis. Possivelmente outro coletor o levara. Pobre roubando pobre. Resignado, passou o dia revirando lixo para ganhar uns trocados e poder garantir a janta.
Tarde da noite, viu uma igreja aberta. Decidiu entrar. Os fiéis, ao vê-lo tão maltrapilho, torceram o nariz. Jesus preferiu ficar de pé no fundo do templo.
Achou o padre com cara triste, como se celebrasse um ritual mecânico. O sermão soou-lhe moralista. Não sentiu que houvesse, ali, a alegria da comemoração da presença de Deus feito homem. Os fiéis se mostravam apressados, ansiosos por retornarem às suas casas.
Achou o padre com cara triste, como se celebrasse um ritual mecânico. O sermão soou-lhe moralista. Não sentiu que houvesse, ali, a alegria da comemoração da presença de Deus feito homem. Os fiéis se mostravam apressados, ansiosos por retornarem às suas casas.
Terminada a missa, Jesus perambulou pela cidade.
Passou diante de uma padaria que fechava as portas. O padeiro, ao ver o coletor, pediu que esperasse. Retornou lá de dentro com uma sacola de pães, fatias da salame e um refrigerante.
— É para a sua ceia – disse o homem.
Jesus chegou a uma praça semi-escura. Havia ali uma mulher excessivamente maquilhada. Procurou um banco e nele se instalou para poder comer. A mulher aproximou-se:
— Olá, o tem o que aí?
— Pão, salame e refrigerante.
— Não comi nada hoje.
Jesus preparou o sanduíche e estendeu-o à mulher.
— Se não se importar de beber no mesmo gargalo...
— Tenho lá nojo de alguma coisa? – murmurou a mulher...
— Você não tem família?
— Tenho, lá na terra. Larguei aquela miséria para tentar uma vida melhor aqui na cidade. Como não fui para escola...
— Mulher, hoje é Dia do Senhor. Não significa nada para si?
A mulher fez uma pausa para enxugar as lágrimas e indagou:
— Acha que, se Jesus voltasse hoje, esse mundo iria melhorar?
— Não sei... O que acha você?
— Acho que ninguém lhe ia dar importância. Essa gente só quer saber de festa e não de fé. Mas ele bem que podia voltar. Quem sabe esse mundo às avessas ganhava bons modos.
— Há dois mil anos, Ele veio e deixou os seus ensinamentos. Uns seguem, outros não. Se o mundo está deste modo, a ponto de eu ter que catar lixo e você alugar o corpo, é porque não se dá importância ao que ele ensinou. Hoje, Jesus ressuscita para quem?
— No meu coração ele renasce todos os dias. Gosto muito de orar, não faço mal a ninguém, ajudo a quem posso. Mas, sabe uma coisa? Eu gostaria de poder falar com Jesus, assim como estamos a conversar aqui.
— E o que lhe diria?
— Bem, eu perguntaria se o que Deus vê na minha vida é pecado; ou como posso ter a certeza de que sou sua filha muito amada.
— Esse Jesus sou Eu, que estou a falar contigo. E lembro-me do que disse um dia: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito.»
Texto de Frei Betto, com algumas modificações.
Original: A Volta de Jesus

Maravilhoso 🌈
ResponderEliminar