Introdução
Segundo
informação vaticana de 30 de Abril p.p., Bento XVI teria enviado aos bispos
católicos da Alemanha uma mensagem determinando que a expressão “pro multis”,
isto é, “por muitos”, da consagração eucarística do vinho, e que em várias
línguas (incluindo a portuguesa) é actualmente traduzida “por todos”, seja a
preferida, porque mais fiel ao texto bíblico. É verdade, filologicamente. Mas
não, semanticamente. E em hermenêutica bíblica, se interessa a filologia, mais,
muito mais nos deve interessar a semântica. Mas, vamos por partes.
A
consagração eucarística do vinho
É
verdade que no texto original do Missal Romano se lê, na fórmula eucarística da
consagração do vinho e a propósito do sangue do Senhor Jesus: qui pro vobisetpro
multiseffundetur in remissionempeccatorum, o que dá em português e
consta dos missais canonicamente aprovados e em uso: derramado por vós e por
todos os homens para remissão dos pecados. Assim também em outras
línguas, em que o multis do Missal Romano, isto é, muitos, é
traduzido por todos. Quem tem razão? Vamos a ver. Mas antes, sejam-me
permitidas algumas observações prévias.
Observações
Prévias
O
primeiro documento bíblico que nos informa sobre o que hoje consideramos a
Eucaristia (ou a Missa, se quisermos), é a referência que Paulo faz à refeição
fraterna dos fiéis de Corinto (1 Cor 11, 17-34)[1].
Nele Paulo afirma taxativamente: “Com efeito, eu recebi do Senhor o que também
vos transmiti: na noite em que foi entregue, o Senhor tomou o pão e, depois de
dar graças, partiu-o e disse “Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei
isto em memória de mim”. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse:
“Este cálice é a nova Aliança no meu sangue: todas as vezes que dele beberdes,
fazei-o em memória de mim” (1 Cor 11, 23-26). E mais não disse Paulo nem
escreveu.
Outros
bem puxados vinte anos depois, o médico Lucas, caríssimo discípulo e
companheiro[2]e
colaborador de Paulo[3],
na narrativa da Ceia de Despedida do Senhor Jesus escreve: “Depois da ceia,
fez o mesmo com o cálice, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue,
que vai ser derramado por vós” (Lc 22, 20), no que está essencialmente de
acordo com Paulo (1 Cor 11, 25), diferindo, quanto ao sangue, apenas naquele: que
vai ser derramado por vós. E nada mais.
Os
dois outros Sinópticos (Marcos, que escreveu antes dos demais, e Mateus)
dão-nos as seguintes versões sobre o mesmo[4]:
Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho. Todos beberam dele. E Ele
disse-lhes: “Isto é o meu sangue da aliança, que vai ser derramado por todos…”
(Mc 14, 23-24). Segundo Mateus: Em seguida, tomou um cálice, deu graças e
entregou-lho, dizendo: “Bebei dele todos. Porque este é o meu sangue, sangue da
Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados (Mt 26, 27-28).
Embora no texto grego original, e quanto ao sangue derramado, a expressão num e
noutro evangelista seja a mesma, e translitero: tòekchynnónenonhypèrpollôn (Marcos);
tòperìpollônekchynnónenon, é notável que a tradução em Marcos e Mateus do termo grego pollôn, que é o busílis da questão, não seja a mesma: todos, em Marcos, e muitos, em Mateus. Afinal em que ficamos? Em todos ou só em muitos? Segundo Bento XVI deverá ser muitos. Segundo me parece e justificarei, literariamente, o tradutor de Marcos tem razão: são todos.
tòperìpollônekchynnónenon, é notável que a tradução em Marcos e Mateus do termo grego pollôn, que é o busílis da questão, não seja a mesma: todos, em Marcos, e muitos, em Mateus. Afinal em que ficamos? Em todos ou só em muitos? Segundo Bento XVI deverá ser muitos. Segundo me parece e justificarei, literariamente, o tradutor de Marcos tem razão: são todos.
A chave da questão
Não
há dúvida nenhuma de que o termo grego pollôn[5]
se pode traduzir, à letra, por muitos. Assim leio na quase dúzia de
versões portuguesas que possuo[6],
à excepção de duas: a TEB – a tradução ecuménica, publicada no Brasil pelas
Paulinas em 1995, com recomendação do Presidente da Conferência Nacional dos
Bispos Brasileiros, e cujo texto é: derramado em prol da multidão, e A
Boa Nova Para Toda A Gente, da Sociedade Bíblica, publicada em Lisboa em 1978
(Novo Testamento), com a aprovação de D. António, bispo do Porto, presidente da
Comissão Episcopal da Doutrina da Fé, e cuja versão é: derramdo em favor da
humanidade. Claro que isto não são versões mas interpretações. S. Jerónimo
quando, no século IV, traduziu a Bíblia do hebraico e do grego para o latim,
foi filologicamente (e acentuo: filologicamente) fiel ao original, vertendo: qui
pro multis effundetur. E da Vulgata Latina terá passado para o Missal
Romano. Mas, bem ou mal? Mal, porque não se trata apenas de uma questão
filológica, mas também, e sobretudo, semântica. Ou, por outras palavras: o que
é que aquele texto grego quer dizer: muitos ou todos?
Estou
convencido de que quer dizer todos e pelas seguintes razões:
1. A
tradição cristã em voga no tempo tanto da redacção dos Evangelhos segundo
Marcos e Mateus, como no tempo de S. Jerónimo, era a de que o Senhor Jesus de
Nazaré era o Messias. Na Sua Paixão e Morte realizara o predito pelo Segundo
Isaías (século VI a.C.) sobre o Servo de Yahwéh: “Por isso ser-lhe-á dada
uma multidão como herança, há-de receber muita gente como despojos, porque ele
próprio entregou a sua vida à morte, e foi contado entre os pecadores, tomando
sobre si os pecados de muitos (rabbim, no hebraico) e sofreu pelos
pecados (Is.53,12). Quem não lê esta parte da “profecia” repercutida na
fórmula consecratória do vinho em Mateus (21,22)[7]?
Ademais, é e bom que se diga em abono da ciência bíblica,
as narrativas da Ceia de Despedida nos Sinópticos não correspondem por inteiro
ao que, historicamente, então se terá verificado, não repugnando, por isso, que
constituam criações da primitiva Comunidade Cristã face à prática cada vez mais
generalizada de se reunirem os fiéis discípulos do Senhor Jesus em comunitárias
e fraternas refeições a que, pouco a pouco, se foi dando carácter sagrado.
2. Em segundo
lugar, o plural do adjectivo grego polús, pollê, polú (muito) é usado,
tanto no grego clássico[8],
como no grego bíblico do Novo Testamento no sentido da totalidade, de todos.
Assim, por exemplo, quando Paulo escreve aos Romanos:Se pela falta de um
só homem (ei gàrtôitoỹenòs (um) paraptốmati) todos morreram (hoipolloiapéthanon),
com muito mais razão a graça de Deus, aquela graça oferecida por meio de um só
homem (enósanthôpoy), Jesus Cristo, foi a todos (eis toyspolloys)
concedida em abundância (Rm.5,15). Aqui, não há dúvida, o sentido do
adjectivo grego é o de totalidade (todos) e não apenas de pluralidade (muitos).
E, mais abaixo, volta Paulo a usar polys, pollê, poly no mesmo sentido
de totalidade: De facto, tal como pela desobediência de um só homem
(toỹenòsanthôpoy), todos (hoipolloi) se tornaram pecadores…
(Rm.5,19).
3. Finalmente,
o argumento da analogia da fé. Como é que que esta opção pelo muitos
(sangue derramado por muitos), em vez de todos, se compagina com as
afirmações bíblicas (e não é agora caso de tomar em mãos o tema, que isso nos
levaria longe) da universalidade da salvação messiânica[9]?
Conclusão
Filologicamente,
é possível a tradução: derramado por muitos. Semântica e exegeticamente,
não. Por isso, está certo e bem traduzir-se: derramado por todos, na
fórmula consecratória do vinho.
Artur Cunha de Oliveira, biblista
[1]
Esta Primeira Carta de Paulo aos Coríntios terá sido escrita uns vinte e poucos
anos após a morte do Senhor Jesus.
[2]
Como bem se fica sabendo pelo uso do plural por Lucas em Act.16,10-17; 20,5-15;
21,1-18; 27,1-28.
[3]
Cl.4,14; Flm.24; 2Tm.4,11.
[4]
Estou seguindo a versão portuguesa da Nova Bíblia dos Capuchinhos (1ª edição,
1989).
[5]
Genitivo do plural do adjectivo polys, pollê, polú (do sâncrito: púruh,
com sentido de plenitude), que significa: muito, numeroso, e similares.
[6] Os
ingleses traduzem:for many, e os alemães fürviele.
[7]
Sobre tudo isto, nem palavra no IV Evangelho, que terá sido composto depois do
ano 90, ou seja, bem mais de meio século após a morte do Senhor Jesus.
[8]
Veja-se Lorenzo Rocci, no seu monumental Vocabulário Greco-Italiano,
1534.
[9]
Por desfastio, leia-se, entre outras, qualquer das seguintes citações: Lc.3,6;
Jo.3,17;4,42;12,47; Act.4,12;28,28; Rm.11,11; 1Tm.2,4;4,10; Tt.2,11; 1Jo.4,14.
Comentários
Enviar um comentário