A presença de mulheres no Concílio Vaticano II, pelo simples
fato de ter havido, marcou uma reviravolta importante na história da Igreja e
do século XX, enquanto os resultados possíveis são mais numerosos e nuançados
do que a alternativa entre conservação e progresso.
A opinião é da historiadora italiana Lucetta Scaraffia,
professora da Universidade La Sapienza de Roma e articulista do jornal do
Vaticano, L'Osservatore Romano. O artigo foi publicado no jornal Il Sole 24
Ore, 22-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
As 23 mulheres convidadas por Paulo VI para participar no
Concílio Vaticano II como auditoras presenciavam as reuniões vestidos de preto,
com um véu na cabeça como em uma função pontifícia. Nos intervalos, podiam ir a
uma sala-bar separada, preparada para elas, e, por duas vezes, foi negada a
Pilar Bellosillo (foto), presidente da União Mundial das Organizações Femininas
Católicas, a possibilidade de tomar a palavra em público.
Todas coisas que hoje nos indignam, mas normais se julgadas
com critérios históricos: em 1964, nenhuma reunião do Banco da Itália, do
Conselho Superior da Magistratura e nem da Suprema Corte norte-americana, para
nos limitarmos a alguns exemplos, previa presenças femininas.
Em vez disso, livros como o de Adriana Valerio, Madri del
Concilio, fazem entender o quão rápida e radicalmente o mundo mudou – mesmo um
mundo lento como o da Igreja – graças à revolução das mulheres. Ainda na
encíclica Pacem in Terris, João XXIII havia reconhecido a emancipação feminina
como um importante e positivo "sinal dos tempos", e muitos cardeais e
bispos apoiaram a proposta de Paulo VI de abrir as portas do Concílio às
auditoras.
A escolha das convidadas, contudo, foi difícil, mesmo que a
sua presença seria simbólica – assim a definiu o Papa Montini –, não tendo o
direito nem de palavra nem de voto. Ao invés disso, as auditoras participaram
ativamente dos grupos de trabalho, apresentaram memórias e contribuíram com a
sua experiência na elaboração dos documentos, particularmente sobre questões
como a vida religiosa, a família, o apostolado dos leigos.
A presença de duas viúvas de guerra contribuiu para reforçar
o peso femininos também nas discussões sobre a paz, nas quais, do exterior, a
norte-americana Dorothy Day contribuía com a sua atividade de lobby.
Faziam parte das auditoras 10 religiosas e 13 leigas. Muitas
delas, especialmente as religiosas, constituíam o fio terminal de grupos
constituídos às margens da assembleia conciliar para preparar comentários e
demandas. Em particular, o peso desse trabalho de mediação pesou sobre os
ombros de Sabine de Valon, superiora geral da Sociedade do Sagrado Coração que,
em 1962, havia organizado a União Internacional das Superioras Gerais, da qual
era presidente. Superiora também das auditoras tendo entrado na aula conciliar
cheia de entusiasmo – saudou esse momento como "a passagem da sala de
espera para a sala de visitas" –, deparou-se, depois, com tensões e
ansiedades crescentes.
A mais animada das auditoras leigas, sem dúvida, foi Pilar
Bellosillo, presidente da União Mundial das Organizações Femininas Católicas,
escolhida justamente por isso, por duas vezes, como porta-voz do grupo das
auditoras. Em 1965, para o último período, foi chamada a mais jovem das participantes,
a argentina Margarita Moyano Llerena, presidente do Conselho Superior das
Jovens, combativa como Gladys Parentelli (foto), uruguaia, que não renunciou,
durante o Concílio, de ir com a cabeça descoberta e de mangas curtas, a ponto
de ser excluída, depois, das fotos oficiais. Gladys se sentiu desiludida com o
pouco espaço dado aos auditores leigos durante os trabalhos conciliares, a
ponto de não participar da sessão de encerramento.
Lendo as biografias reconstruídas no livro, pode-se ver como
muitas auditoras, incluindo Parentelli, se aproximaram, depois, de posições
progressistas, consideradas pouco ortodoxas. Muitas das participantes, além
disso, teriam se declarado a favor do sacerdócio feminino. A autora se inclina
sem hesitar ao lado destas últimas, apresentando com olhar crítico as
observações conclusivas sobre as mulheres de Paulo VI, que falam de "um
modelo que representava o feminino na função 'natural' de guardião de uma
humanidade a ser salva", porque substancialmente reiterava o papel
materno.
O material oferecido pelo livro mereceria, contudo, uma
análise mais aprofundada, com um olhar mais atento também para a relação com o
mundo externo à Igreja e às mudanças daqueles anos, para superar a fácil
interpretação de todo fato conciliar como progressista ou conservador.
Até porque a presença das mulheres, pelo simples fato de ter
havido, marcou uma reviravolta importante na história da Igreja e do século XX,
enquanto os resultados possíveis são mais numerosos e nuançados do que a
alternativa entre conservação e progresso.
• Adriana Valerio. Madri del
Concilio. Ventitrè donne al Vaticano II. Roma: Carocci, 168 página
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