Há meio século, o futuro papa estava "sob pressão" por
causa de seu papel de consultor teológico em vista do iminente Concílio.
A reportagem é de Gianni Valente, publicada no
sítio Vatican Insider, 24-08-2012. A tradução é de Moisés
Sbardelotto.
No quieto verão de Castel Gandolfo, Bento
XVI concluiu a escrita do seu último livro sobre a vida de Jesus, e
dizem que ele está definindo as principais linhas da sua quarta encíclica
papal.
Há 50 anos atrás, também, o Joseph Ratzinger de 35
anos – que naquele período lecionava teologia fundamental na Universidade
de Bonn – estava lidando com os fascículos para estudar, os rascunhos
para corrigir e os textos para preparar.
Naquele época, o que estava o submetendo a dias intensos de excesso
de trabalho eram os pedidos provenientes do arcebispo de Colônia,
Joseph Frings, que o escolhera como seu consultor teológico em
vista do Concílio e pretendia se valer da sua ajuda já nos agitados estágios
finais da fase preparatória da cúpula conciliar.
Frings era membro da Comissão
Preparatória Central do Concílio, e já nessas vestes
se candidatava com os seus discursos e as suas iniciativas ao papel de futuro
personagem central do Vaticano II.
Graças a Frings, Ratzinger tivera
acesso, ainda na primavera de 1962, aos esquemas dos documentos elaborados
pelas comissões preparatórias para serem discutidos e aprovados no Concílio.
Entre maio e setembro, como documentam os renomados estudos históricos de Norbert
Trippen e do jesuíta Jared Wicks, Ratzinger analisou
em nome de Frings boa parte do material produzido pelos órgãos envolvidos na
fase preparatória, fazendo julgamentos lúcidos, claros e muitas vezes
surpreendentes.
Por exemplo, em uma carta enviada em maio ao padre Hubert
Luthe – o secretário de Frings, que havia sido seu
colega de estudos na faculdade teológica de Munique –, Ratzinger
valorizava com tons entusiasmados principalmente os esquemas
produzidos pelo Secretariado para a Unidade dos Cristãos, o
órgão que, sob a liderança do cardeal Augustin Bea, iria
progressivamente se delineando como interlocutor dialético com relação à
Comissão Teológica, presidida pelo secretário do Santo Ofício,
Alfredo Ottaviani.
Entre os esquemas assinados por Bea também figuram
os esboços primordiais dos futuros decretos conciliares sobre o ecumenismo e
sobre a liberdade religiosa. "Se fosse possível orientar o Concílio a
ponto de assumir esses textos", escreveu Ratzinger ao
secretário de Frings, ainda em maio de 1962, "isso
certamente valeria a pena e se alcançaria um verdadeiro progresso. Aqui,
realmente se fala a linguagem que é útil ao nosso tempo, que pode ser
compreendida também por todos os homens de boa vontade".
No fim de junho, ainda sob o mandato de Frings –
que nesses meses tornou-se o porta-voz da crescente insatisfação de amplos
setores dos Episcopados europeus pela forma como estava procedendo a fase
preparatória do Concílio –, Ratzinger redige até o esboço de
uma Constituição Apostólica que defina sinteticamente e com clareza didática os
objetivos do Vaticano II antes do seu início: três páginas
datilografadas em latim, nas quais o jovem teólogo bávaro começa a partir de
uma observação realista das circunstâncias históricas em que o Concílio foi
convocado ("a luz divina parece obscurecida, e Nosso Senhor parece ter
adormecido em meio à tempestade e às ondas de hoje") e conclui valorizando
a atualidade do modelo de anúncio mostrado por São Paulo, que,
para dar testemunho de Jesus Cristo, "tornou-se tudo para todos"
(1Cor 9, 22).
O discernimento crítico exercido por Ratzinger sobre
os textos produzidos na fase preparatória do Concílio atingiu o seu pico em
setembro de 1962. A
menos de um mês da abertura do Vaticano II, Ratzinger o
aplicou diretamente ao primeiro conjunto de sete esquemas elaborados de forma
definitiva pelas comissões preparatórias, sob inspiração predominante dos
órgãos doutrinais da Cúria Romana.
Em um texto concluído por Ratzinger em meados de
setembro – e "redirecionado" com sua própria assinatura e sem maiores
acréscimos pelo cardeal Frings ao secretário de Estado, Amleto
Cicognani –, as avaliações positivas são reservadas apenas aos dois
esquemas sobre a renovação litúrgica e sobre a unidade com as Igrejas do Oriente.
Segundo o professor de Bonn, somente tais textos de trabalho
"correspondem muito bem ao objetivo do Concílio estabelecido pelo Romano
Pontífice".
Se a intenção é "a renovação da vida cristã e a adaptação da
disciplina da Igreja às necessidades de hoje", é metodologicamente
importante evitar que o Concílio atole desde o seu início "em questões
complicadas levantadas pelos teólogos, que as pessoas do nosso tempo não podem
aferrar e que acabam as perturbando".
Todos os outros esquemas –
especialmente os elaborados pela Comissão Teológica Preparatória,
presidida pelo cardeal Ottaviani – são julgados por Ratzinger
como "muito escolásticos". Em particular, foi rejeitado o
esquema sobre a preservação da pureza do depositum fidei ("é tão
carente que, dessa forma, não pode ser proposto ao Concílio"). Com relação
ao dedicado às "fontes" da divina Revelação, Ratzinger
sugere mudanças substanciais de estrutura e de conteúdo. Enquanto os dedicados
à ordem moral cristã, à virgindade, à família e ao casamento são liquidados por
ele com argumentos de oportunidade pastoral. Estes, segundo Ratzinger,
"sobrecarregam o leitor com a sua excessiva abundância de palavras".
Os textos conciliares – repete o jovem professor de Bonn –
"deveriam dar respostas às questões mais urgentes e deveriam fazer isso,
dentro do possível, não julgando e condenando, mas sim usando uma linguagem
materna, com uma ampla apresentação das riquezas da fé cristã e das suas
consolações".
Das contribuições oferecidas ao cardeal Frings já
na fase preparatória do Concílio, intui-se que Joseph Ratzinger não
chegou ao encontro com o Vaticano II de maneira despreparada.
O jovem professor bávaro apareceu bem consciente do que estava em jogo naquele
evento eclesial, mesmo antes do seu início. Na sua colaboração com Frings,
Ratzinger se predispõe, já desde então, a um armamentário
flexível, mas bem perfilado, de propostas e reflexões, que depois darão
densidade à sua intensa participação na aventura conciliar.

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