Antonio Pagola, teólogo espanhol, comenta Marcos 10, 1-12
Os fariseus fazem a Jesus uma pergunta para pô-lo à prova. Desta vez não é uma questão sem importância, mas um facto que faz sofrer muito as mulheres da Galileia e que é motivo de vivas discussões entre os seguidores de diversas escolas rabínicas: “É lícito ao homem divorciar-se da sua mulher?”
Os fariseus fazem a Jesus uma pergunta para pô-lo à prova. Desta vez não é uma questão sem importância, mas um facto que faz sofrer muito as mulheres da Galileia e que é motivo de vivas discussões entre os seguidores de diversas escolas rabínicas: “É lícito ao homem divorciar-se da sua mulher?”
Não se trata do divórcio moderno que conhecemos hoje, mas da situação em que vivia a mulher judia dentro do matrimónio, controlado pelo homem. Segundo a lei de Moisés, o marido podia quebrar o contrato matrimonial e expulsar de casa a sua esposa. A mulher, pelo contrário, submetida em tudo ao homem, não podia fazer o mesmo.
A resposta de Jesus
surpreende a todos. Não entra nas discussões dos rabinos. Convida a descobrir o
projeto original de Deus, que está por cima das leis e normas. Esta lei
“machista” foi imposta ao povo judeu pela “dureza de coração” dos
homens que controlam as mulheres e as submetem à sua vontade.
Jesus aprofunda o mistério
original do ser humano. Deus “criou homem e mulher”. Os dois foram criados em
igualdade. Deus não criou o homem com poder sobre a mulher. Não criou a
mulher submetida ao homem. Entre homens e mulheres não deve haver
dominação por parte de ninguém.
A partir desta estrutura
original do ser humano, Jesus oferece uma visão do matrimónio que via, antes de
tudo, o estabelecido pela “dureza de coração” dos homens. Mulheres e homens
uniram-se para “ser uma só carne” e iniciar uma vida partilhada na
mútua entrega sem imposição nem submissão.
Este projeto matrimonial é para Jesus a suprema expressão do amor humano. O homem não tem direito algum de controlar a mulher como se fosse dono. A mulher não aceitou viver submetida ao homem. É Deus mesmo quem os atrai a viver unidos por um amor livre e gratuito. Jesus conclui de forma clara: “O que Deus uniu o homem não deve separar”.
Com essa posição
Jesus destrói na raiz o fundamento do sistema patriarcal sob todas as
suas formas de controle, submissão e imposição do homem sobre a mulher. Não só
no matrimónio como em qualquer instituição civil ou religiosa.
Temos de escutar a mensagem
de Jesus. Não é possível abrir caminhos para o reino de Deus e da Sua justiça
sem lutar ativamente contra o sistema patriarcal. Quando iremos reagir
na Igreja com energia evangélica contra tanto abuso, violência e agressão do
homem sobre a mulher? Quando iremos defender a mulher da “dureza de
coração” dos homens?

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