Da Homilia do Papa na missa de abertura do Sínodo sobre a
Nova Evangelização, em 2012-10-07, sublinho este parágrafo, que nos diz
especial respeito.
«O matrimónio está ligado à fé, não num sentido genérico. O
matrimónio se fundamenta, enquanto união do amor fiel e indissolúvel, na graça
que vem do Deus Uno e Trino, que em Cristo nos amou com um amor fiel até a
Cruz. Hoje, somos capazes de compreender toda a verdade desta afirmação, em
contraste com a dolorosa realidade de muitos matrimónios que, infelizmente,
acabam mal. Há uma clara correspondência entre a crise da fé e a crise do
matrimónio. E, como a Igreja afirma e testemunha há muito tempo, o matrimónio é
chamado a ser não apenas objeto, mas o sujeito da nova evangelização. Isso já
se vê em muitas experiências ligadas a comunidades e movimentos, mas também se
observa, cada vez mais, no tecido das dioceses e paróquias, como demonstrou o
recente Encontro Mundial das Famílias.»
O texto completo:
"Veneráveis Irmãos, queridos irmãos e irmãs,
Com esta solene concelebração inauguramos a XIII Assembleia
Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que tem como tema: A Nova Evangelização
para a transmissão da fé cristã. Esta temática responde a uma orientação
programática para a vida da Igreja, de todos os seus membros, das famílias,
comunidades, e das suas instituições. Tal perspectiva se reforça pela
coincidência com o início do Ano da Fé, que terá lugar na próxima quinta-feira,
dia 11 de outubro, no 50º aniversário da abertura do Concílio Ecuménico
Vaticano II. Dirijo a minha cordial saudação de boas-vindas, cheia de gratidão,
a vós que viestes formar parte nesta Assembleia sinodal, em especial, ao
Secretário-Geral do Sínodo dos Bispos e aos seus colaboradores. Estendo a minha
saudação aos delegados fraternos de outras Igrejas e Comunidades Eclesiais, e a
todos os presentes, convidando-os a acompanhar com a sua oração diária, os
trabalhos que realizaremos nas próximas três semanas. As leituras bíblicas, que compõem a Liturgia da Palavra
deste domingo, oferecem-nos dois pontos principais de reflexão: o primeiro
sobre o matrimónio, que tratarei adiante; e o segundo sobre Jesus Cristo, que
abordarei em seguida. Não temos tempo para comentar esta passagem da Carta aos
Hebreus, mas devemos, no início desta Assembleia sinodal, aceitar o convite
para fixar o olhar no Senhor Jesus, «coroado de glória e honra, por ter sofrido
a morte» (Hb 2,9). A Palavra de Deus nos coloca diante do crucificado glorioso,
de modo que toda a nossa vida e, em particular, o compromisso desta assembleia
sinodal, se desenrole presença d’Ele e à luz do seu mistério. A evangelização,
em todo tempo e lugar, teve sempre como ponto central e último Jesus, o Cristo,
o Filho de Deus (cf. Mc 1,1); e o Crucificado é por excelência o sinal
distintivo de quem anuncia o Evangelho: sinal de amor e de paz, chamada à
conversão e à reconciliação. Sejamos nós, Venerados Irmãos, os primeiros a ter
o olhar do coração dirigido a Ele, deixando-nos purificar pela sua graça.
Queria agora refletir, brevemente, sobre a «nova
evangelização», relacionando-a com a evangelização ordinária e com a missão ad
gentes. A Igreja existe para evangelizar. Fiéis ao mandamento do Senhor Jesus
Cristo, seus discípulos partiram pelo mundo inteiro para anunciar a Boa Nova,
fundando, por toda a parte, comunidades cristãs. Com o passar do tempo, essas
comunidades tornaram-se Igrejas bem organizadas, com numerosos fiéis. Em
determinados períodos da história, a Divina Providência suscitou um renovado
dinamismo na ação evangelizadora na Igreja. Basta pensar na evangelização dos
povos anglo-saxões e eslavos, ou na transmissão do Evangelho no continente
americano, e, em seguida, nos distintos períodos missionários junto dos povos
da África, Ásia e Oceania. Sobre este pano de fundo dinâmico, apraz-me também
dirigir o olhar para as duas figuras luminosas que acabo de proclamar Doutores
da Igreja: São João de Ávila e Santa Hildegarda de Bingen. Também nos nossos
tempos, o Espírito Santo suscitou na Igreja um novo impulso para proclamar a
Boa Nova, um dinamismo espiritual e pastoral que encontrou a sua expressão mais
universal e o seu impulso mais autorizado no Concílio Ecuménico Vaticano II.
Este renovado dinamismo de evangelização produz uma influência benéfica sobre
os dois "ramos" concretos que desenvolvem a partir dela, ou seja, por
um lado, a missio ad gentes, isto é, a proclamação do Evangelho para aqueles
que ainda não conhecem a Jesus Cristo e a Sua mensagem de salvação; e, por
outro lado, a nova evangelização, destinada principalmente às pessoas que,
embora batizadas, se distanciaram da Igreja e vivem sem levar em conta prática
cristã. A Assembleia sinodal que se abre hoje é dedicada a essa nova
evangelização, para ajudar essas pessoas a terem um novo encontro com o Senhor,
o único que dá sentido profundo e paz para a existência; para favorecer a
redescoberta da fé, a fonte de graça que traz alegria e esperança na vida
pessoal, familiar e social. Obviamente, esta orientação particular não deve
diminuir nem o impulso missionário, em sentido próprio, nem as atividades
ordinárias de evangelização nas nossas comunidades cristãs. Na verdade, os três
aspectos da única realidade de evangelização e completam e se fecundam mutuamente.
Neste sentido, o tema do matrimónio, que nos ofereceu o
Evangelho e a primeira leitura, merece uma atenção especial. A mensagem da
Palavra de Deus pode ser resumida na expressão contida no livro do Génesis e
retomada pelo próprio Jesus: «Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se
unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne» (Gn 2,24, Mc 10,7-8). O que
significa hoje para nós essa palavra? Parece-me que nos convida a nos tornarmos
mais conscientes de uma realidade já conhecida, mas talvez não totalmente
apreciada, ou seja, que o matrimónio se constitui, em si mesmo, um Evangelho,
uma Boa Nova para o mundo de hoje, em particular para o mundo descristianizado.
A união do homem e da mulher, o ser «uma só carne» na caridade, no amor fecundo
e indissolúvel, é um sinal que fala de Deus com força, com uma eloquência que
hoje se torna ainda maior porque, infelizmente, por diversas razões, o
matrimónio, justamente nas regiões de antiga tradição cristã, está passando por
uma profunda crise. Não é uma coincidência. O matrimónio está ligado à fé, não
num sentido genérico. O matrimónio se fundamenta, enquanto união do amor fiel e
indissolúvel, na graça que vem do Deus Uno e Trino, que em Cristo nos amou com
um amor fiel até a Cruz. Hoje, somos capazes de compreender toda a verdade
desta afirmação, em contraste com a dolorosa realidade de muitos matrimónios
que, infelizmente, acabam mal. Há uma clara correspondência entre a crise da fé
e a crise do matrimónio. E, como a Igreja afirma e testemunha há muito tempo, o
matrimónio é chamado a ser não apenas objeto, mas o sujeito da nova
evangelização. Isso já se vê em muitas experiências ligadas a comunidades e
movimentos, mas também se observa, cada vez mais, no tecido das dioceses e
paróquias, como demonstrou o recente Encontro Mundial das Famílias.
A chamada universal à santidade é uma das ideias chave do
renovado impulso que o Concílio Vaticano II deu à evangelização que, como tal,
aplica-se a todos os cristãos (cf. Lumen gentium, 39-42). Os santos são os
verdadeiros protagonistas da evangelização em todas as suas expressões. Eles
são, em particular, também os pioneiros e os impulsionadores da nova
evangelização: pela sua intercessão e exemplo de vida, atentos à criatividade
que vem do Espírito Santo, eles mostram às pessoas, indiferentes ou mesmo
hostis, a beleza do Evangelho e da comunhão em Cristo; e convidam os fiéis, por
assim dizer, tíbios, a viverem a alegria da fé, da esperança e da caridade; a
redescobrirem o «gosto» da Palavra de Deus e dos Sacramentos, especialmente do
Pão da Vida, a Eucaristia. Santos e santas florescem entre os missionários
generosos que anunciam a Boa Nova aos não-cristãos, tradicionalmente nos países
de missão e atualmente em todos os lugares onde vivem pessoas não cristãs. A
santidade não conhece barreiras culturais, sociais, políticas ou religiosas. A
sua linguagem - a do amor e da verdade - é entendida por todos os homens de boa
vontade e aproxima-os de Jesus Cristo, fonte inesgotável de vida nova.
Neste ponto, detenhamo-nos por um momento para admirar os
dois santos que hoje foram agregados ao grupo seleto dos Doutores da Igreja.
São João de Ávila viveu no século XVI. Profundo conhecedor das Sagradas
Escrituras, era dotado de um ardente espírito missionário. Soube adentrar, com uma
profundidade particular, nos mistérios da Redenção operada por Cristo para a
humanidade. Homem de Deus, unia a oração constante à atividade apostólica.
Dedicou-se à pregação e ao aumento da prática dos sacramentos, concentrando
seus esforços para melhorar a formação dos futuros candidatos ao sacerdócio,
dos religiosos, religiosas e dos leigos, em vista de uma fecunda reforma da
Igreja. Santa Hildegarda de
Bingen, importante figura feminina do século XII, ofereceu a sua valiosa
contribuição para o crescimento da Igreja do seu tempo, valorizando os dons
recebidos de Deus e mostrando-se uma mulher de grande inteligência,
sensibilidade profunda e de reconhecida autoridade espiritual. O Senhor dotou-a
com um espírito profético e de fervorosa capacidade de discernir os sinais dos
tempos. Hildegard nutria um grande amor pela a criação, cultivou a medicina, a
poesia e a música. Acima de tudo, sempre manteve um amor grande e fiel a Cristo
e à Igreja.
O olhar sobre o ideal da vida cristã, expressado na chamada
à santidade, nos encoraja a ver com humildade a fragilidade de muitos cristãos,
antes, o seu pecado, pessoal e comunitário, que se apresenta como um grande
obstáculo para a evangelização; e nos encoraja a reconhecer a força de Deus
que, na fé, vem ao encontro da fraqueza humana. Portanto, não se pode falar da
nova evangelização sem uma disposição sincera de conversão. Deixar-se
reconciliar com Deus e com o próximo (cf. 2 Cor 5,20) é a via mestra da nova
evangelização. Só purificados, os cristãos podem encontrar o legítimo orgulho
da sua dignidade de filhos de Deus, criados à Sua imagem e redimidos pelo
sangue precioso de Jesus Cristo, e podem experimentar a sua alegria, para
compartilhá-la com todos, com os de perto e os de longe. Queridos irmãos e
irmãs, confiamos a Deus o trabalho da Assembleia sinodal com o sentimento vivo
da comunhão dos santos invocando, em particular, a intercessão dos grandes
evangelizadores, dentre os quais queremos incluir com grande afeto, o Beato
João Paulo II, cujo longo pontificado foi também um exemplo da nova
evangelização. Colocamo-nos sob a proteção da Virgem Maria, Estrela da nova
evangelização. Com ela, invocamos uma especial efusão do Espírito Santo, que
ilumine do alto a Assembleia sinodal e a torne fecunda para o caminho da Igreja."

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