A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 32° Domingo do Tempo Comum (11 de novembro de 2012). A tradução é de Susana Rocca.
Eis o texto.
Referências bíblicas:
1ª leitura: 1Rs 17,10-16
2ª leitura: Hb 9,24-28
Evangelho: Mc 12,38-44
Se eu tivesse que dar um título ao evangelho de hoje, seria: A
generosidade do coração é a riqueza dos pobres. É exatamente essa a questão da
primeira leitura e do evangelho de hoje. O autor do primeiro livro dos Reis
ilustra muito bem essa generosidade do coração, através dessa pobre viúva de Sarepta
que oferece as suas últimas provisões a Elias, o profeta de
Deus, e São Marcos ilustra também através desta pobre viúva
que deposita algumas moedas no tesouro do Templo. O que esses textos nos
ensinam é que Deus está nos pequenos gestos de partilha, e que esses gestos
geralmente estão mais presentes nos pobres que nos ricos. É por isso que eles
são os preferidos de Deus.
Precisemos primeiramente o que é a riqueza e a pobreza:
a) Pobreza:
– uma pessoa
desprovida material ou psicologicamente;
– uma pessoa que não
possui nem o poder nem o ter;
– uma pessoa
marginalizada pela maioria;
– uma pessoa que é
explorada, condenada ou excluída.
b)
Riqueza:
– alguém que possua
importantes bens;
– alguém que exerça
o poder;
– alguém com
autoridade de decidir pelos outros;
– pode ser uma boa
pessoa.
Mas por que a
generosidade corresponde mais aos pobres do que aos ricos?
Mas por que uma viúva? Porque, no tempo do evangelista
Marcos, as viúvas e os órfãos estavam entre os mais pobres da
sociedade da época. Imaginem uma mulher com três crianças pequenas que perde
seu marido. Ele não terá nenhum direito e, pior ainda, ela poderá ser mesmo
expulsa da sua casa e jogada na rua. Ela se torna propriedade dos irmãos do
marido morto. Aplicava-se para eles o direito do levirato. Mas como esses
homens, em geral, estavam casados, eles podiam subtrair-se a esse dever. A
viúva, porém, ficava para sempre como propriedade dele e não podia casar de
novo sem o consentimento dos irmãos do defunto que eram a quem ela pertencia.
Não é por nada que os primeiros cristãos denunciavam com vigor essa situação,
mas foi preciso vários séculos antes que isso pudesse mudar.
A viúva, que colocou duas moedas no tesouro do Templo, não o
anunciou nos jornais; ela o fez simplesmente de coração. Trata-se da
generosidade do coração, a generosidade total. Uma generosidade que é humilde e
sincera. “Eu garanto a vocês: essa viúva pobre depositou mais do que todos
os outros que depositaram moedas no Tesouro” (Mc 12,43). E por quê? “Porque
todos depositaram do que estava sobrando para eles. Mas a viúva na sua pobreza
depositou tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver” (Mc 12,44).
Lembremos do que São Basílio de Cesareia dizia no
século IV: “A quem faço mal, diz o avaro, guardando os bens que me pertencem?
De onde os tiraste? Tu te pareces com o homem que indo no teatro, queria
impedir que os outros entrassem e pretendia desfrutar sozinho do espetáculo do
que todos têm direito. Assim são os ricos: eles se declaram os donos dos bens
comuns que monopolizaram, porque eles são os primeiros ocupantes. Se cada um
não guardasse mais do que precisa para as suas necessidades pessoais, e que o
supérfluo fosse deixado para os indigentes, a riqueza e a pobreza seriam
abolidas...”.
Será que na parábola do rico e do pobre Lázaro, que somente São
Lucas nos conta, não há uma mensagem clara a esse respeito? Quando o
rico que morre se depara com grandes sofrimentos porque na vida ele ignorou o
pobre Lázaro do lado dele, esse rico diz a Abraham:
“Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa de meu pai, porque eu tenho cinco
irmãos. Manda preveni-los, para que não acabem também eles vindo para este
lugar de tormento” (Lc 16,27-28); a resposta é límpida: “Eles têm Moisés e
os profetas: que os escutem!” (Lc 16,29). Mas o rico insiste: “Não, pai
Abraão! Se um dos mortos for até eles, eles vão se converter” (Lc 16,30).
A resposta é bem clara: “Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo
que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos” (Lc 16,31).
Em efeito, Cristo ressuscitou dentre os mortos, e há ainda hoje um
bilhão de seres humanos no planeta que passam fome. Que hipocrisia da parte dos
escribas e fariseus deste mundo que se escondem por trás das orações para
desculpar a sua inércia e a sua inatividade. Na primeira leitura de hoje temos
uma bela ilustração onde a dignidade humana não se mede segundo a pertença a um
povo ou a uma igreja, ou ainda ao status social de alguém. Deus se reconhece e
age através de uma mulher, uma pagã, viúva, por baixo do mercado, que tem como
missão alimentar seu profeta. É por essa mulher que Elias pode continuar a sua
missão. Em 2012, em quem Deus se reconhece,e através de quem ele age na nossa
sociedade e na nossa Igreja?
Para terminar, uma palavra sobre a segunda leitura de hoje: Não à
religião! Sim à fé! Quando eu releio esse trecho da carta aos Hebreus, eu tenho
a impressão, às vezes, que a religião passa freqüentemente, infelizmente, do
lado da fé. Nessa comparação do Cristo da Nova Aliança com o Sumo Sacerdote da
Antiga Aliança, o autor da carta aos Hebreus escreve explicitamente: “Ele
não teve que se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote que todos os anos
entra no santuário com sangue que não é seu” (Hb 9,25). Então, como pode
ser que na religião se fala em repetir o sacrifício de Cristo a cada semana e
ainda cada dia? Pode ser que a missa não seja um sacrifício, mas uma celebração
de Páscoa, uma festa da ressurreição? Ainda mais, se Cristo nos libertou do
pecado de uma vez para sempre, pela sua morte na cruz na Sexta-feira Santa,
como pode acontecer que nós duvidemos ainda desse perdão, confessando os nossos
pecados? A celebração do perdão não é a ocasião de nos confessarmos; nós já
estamos perdoados. Por outra parte, é a ocasião de confessar o Amor de Cristo
por nós e a esperança da salvação em plenitude que nós esperamos sempre: “Assim,
também Cristo se ofereceu uma vezpor todas, para tirar o pecado de muitos. Ele
aparecerá uma segunda vez, sem nenhuma relação com o pecado, para aqueles que o
esperam para a salvação” (Hb 9,28).
Convertamo-nos, então, ao evangelho! É urgente! É uma questão de
confiança e de esperança para todos os crentes, e é uma questão de justiça e de
dignidade para todos os humanos.

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