O ser
humano é, por natureza, um ser de muitas carências. E precisa de grande empenho
para atendê-las e assim poder viver, não miseravelmente, mas com qualidade.
Atrás de cada necessidade, esconde-se um desejo e um temor: desejo de poder satisfazê-la da forma mais satisfatória possível e o temor de não o conseguir e sofrer.
Quem não tem, deseja ter; quem tem, teme perder. Assim é a dialética da existência.
Atrás de cada necessidade, esconde-se um desejo e um temor: desejo de poder satisfazê-la da forma mais satisfatória possível e o temor de não o conseguir e sofrer.
Quem não tem, deseja ter; quem tem, teme perder. Assim é a dialética da existência.
Mestres
das mais diferentes tradições da humanidade e das ciências do humano convergem
mais ou menos nestas cinco necessidades fundamentais:
1. Temos necessidades
biológicas: numa palavra, precisamos de comer, beber, morar, vestir e ter
segurança. Grande parte do tempo é empenhado em atender a tais necessidades.
A primeira petição do Pai-Nosso, é pelo pão quotidiano porque a fome não pode esperar.
A primeira petição do Pai-Nosso, é pelo pão quotidiano porque a fome não pode esperar.
Mas não
pedimos a Deus que cada dia faça milagres e assim nos dispense de produzir o
pão. Pedimos que os climas e a fertilidade dos solos sejam favoráveis e que
haja a cooperação na produção e distribuição dos alimentos. Só então
exorcizamos o medo e atendemos o nosso desejo básico.
2. Temos necessidade de segurança: podemos adoecer e sucumbir a riscos que
nos tiram a vida. Podem provir da natureza, das tempestades, dos raios, das
secas prolongadas, dos deslizamentos de terra, de todo tipo de acidentes. Podem
provir, principalmente, do próprio ser humano que não só tem dentro de si o
instinto de vida mas também o instinto de morte; pode perder a autocontenção e
eliminar o outro. Tudo isso nos produz medo.
O facto é
que nunca controlamos todos os fatores. Sempre podemos ser vítimas ou inocentes
ou culpadas. E é então que gritamos por Deus, não para que nos tire da beira do
abismo, mas que nos dê coragem para evitá-lo e sobreviver.
3. Temos necessidade de pertença: somos seres societários.
Pertencemos a uma família, a uma etnia, a um determinado lugar, a um país, ao
planeta Terra.
O que torna penoso o sofrimento é a solidão, o não poder contar com um ombro amigo e uma mão acolhedora. Como somos frutos do cuidado das nossas mães que nos seguraram nos braços, queremos morrer segurando a mão de alguém próximo ou de quem nos ama.
O que torna penoso o sofrimento é a solidão, o não poder contar com um ombro amigo e uma mão acolhedora. Como somos frutos do cuidado das nossas mães que nos seguraram nos braços, queremos morrer segurando a mão de alguém próximo ou de quem nos ama.
Clamamos pela mãe, ou por Deus. E sabemos que Ele nos
atende porque é sensível à voz dos seus filhos e filhas e sente o pulsar do nosso coração amedrontado.
Ser reduzido à solidão é ser condenado ao inferno existencial e à ausência de qualquer comunhão. Por isso, importa garantir o sentimento de pertença, caso contrário nos sentimos abandonados e vagantes no mundo.
Ser reduzido à solidão é ser condenado ao inferno existencial e à ausência de qualquer comunhão. Por isso, importa garantir o sentimento de pertença, caso contrário nos sentimos abandonados e vagantes no mundo.
4. Temos necessidade de autoestima. Não basta existirmos. Precisamos
que nossa existência seja acolhida, que alguém por palavras e atos nos diga:
«Bem-vindo ao nosso meio, és importante para nós.»
A rejeição nos faz ter, ainda vivos, a experiência de morte. Precisamos, pois, de ser reconhecidos como pessoas, nas nossas diferenças e singularidades. Caso contrário, somos como uma planta sem nutrientes que vai mirrando até morrer.
Sabemos que somos importantes quando alguém nos chama pelo nome, ri e nos abraça.
A rejeição nos faz ter, ainda vivos, a experiência de morte. Precisamos, pois, de ser reconhecidos como pessoas, nas nossas diferenças e singularidades. Caso contrário, somos como uma planta sem nutrientes que vai mirrando até morrer.
Sabemos que somos importantes quando alguém nos chama pelo nome, ri e nos abraça.
5. Temos necessidade de autorealização. Esse é o grande anseio e desafio do
ser humano: de poder realizar-se a si mesmo e de tornar-se humano. Que é o
humano do ser humano? É descobrirmo-nos seres de abertura, ao outro, ao mundo
e ao Todo. Somos seres de desejo ilimitado. Por mais que busquemos o objeto que
sacie nosso desejo, não o encontramos entre os seres à nossa volta. Desejamos o
Ser essencial. Como, então, conseguiremos
a nossa autorealização se somos um projeto infinito?
É nesse
afã que ganha sentido falar de Deus como o Ser essencial. Só Ele preenche as características do Infinito,
adequadas ao nosso projeto infinito. Autorealizar-se, portanto, implica
envolver-se com Deus. Envolver-se com Deus é despertar a espiritualidade em nós,
essa capacidade de sentir um poder/entusiasmo poderoso e amoroso que alenta toda a
realidade.
Ao entrarmos em comunhão com o Ser essencial pela empenho amoroso em tudo o que fazemos, e pela oração e pela meditação, deixaremos de nos sentir inacabados e frustrados, para nos sentirmos seres inteiros.
Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor, em Adital

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