A fé não é uma aspirina
espiritual.
Muitas vezes as pessoas que crêem
e também as que não crêem entendem a fé como uma espécie de aspirina ou que
deve ser um analgésico, que se toma quando as dores físicas, emocionais,
mentais e espirituais se fazem sentir. Aí a fé seria uma pastilha que se
tomaria para aliviar a dor. Por isso, muitas vezes as pessoas perdem-se na
procura de milagres, correndo atrás de todas as religiões ou confissões
religiosas, os seus directos responsáveis, todos os santos, bruxas,
curandeiros, horóscopos e outras realidades deste teor para que por magia
espectacular todos os males que esta vida implica desapareçam num ápice. Nada
mais errado encarar a fé desta forma. Proceder desta forma é deixar-se levar
pela frustração e pelo desencanto da fé que não tardará nada a chegar.
A fé vai ajudar-nos a acolher o
mistério da vida, o que ela tem de extraordinário, belo, bom. Mas, também o que
tem de dor, de sofrimento e de todo o género de limitação. Nós cristãos,
descobrimos um exemplo, Jesus Cristo, que podia muito bem livrar-se do
sofrimento e da morte, porque é Deus, mas não o fez, enfrenta-o com coragem,
porque acredita na vontade e no amor de Deus Pai e Mãe, que o abraça na
vertigem da dor e da morte, para o ressuscitar ao terceiro dia. Não quer isto
dizer que o crente deve ser um masoquista, um submisso, não, pelo contrário, o
crente é um inconformado perante o sofrimento e a morte. Não se deixa abater
por essa limitação e abre o seu coração à grandeza de Deus e confia que de
qualquer forma participará um dia dessa glória.
«O que as pessoas não percebem é
quanto a religião custa.
Elas pensam que a fé é um grande cobertor eléctrico,
quando, claro, ela é cruz.
É muito mais difícil acreditar do que não
acreditar»
(Flanerry O’Connor).
A fé não é uma «novocaína
espiritual», mas um caminho, uma opção de vida que faz entrar na profundidade
de um mistério que enforma a vida toda. Obviamente, que a fé não nos dá
garantias. Pode até dar-nos mais dificuldades e mais embaraços para a vida. Mas
a mulher que concebe uma criança e a dá à luz também não tem garantias nenhumas
do que pode vir a ser daquela criança, no entanto, avança, mergulhada no
sofrimento e em toda a trabalheira que dá criar uma pessoa.Sem qualquer
garantia aposta no futuro que a vida lhe oferece. Neste contexto percebemos que
sem cruz não há ressurreição. O crente, nunca desiste resiste. Acreditar é
isso…
Fonte: Banquete da Palavra

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