O que a fé não é (2) - não é uma fonte de conhecimento secreto




A fé não é uma fonte de conhecimento secreto

Por P.e José Luís Rodrigues - Funchal

Nos primeiros séculos do Cristianismo desenvolveu-se uma crença que se veio a chamar de «gnosticismo». O gnosticismo tem origem na palavra grega «gnoses», que significa «saber».

Os gnósticos acreditam que possuem um conhecimento mais elevado, são uma classe privilegiada em relação às outras, porque têm um conhecimento superior e mais profundo sobre Deus. A salvação dependia de uma iluminação ou conhecimento interior que libertasse do mal e da ignorância da vida neste mundo. Negam a humanidade de Jesus, recusam aceitar o Antigo e o Novo Testamentos. Negam a doutrina da Igreja e a tradição cristã.

O gnosticismo tem uma visão dualista da pessoa e da criação. A alma humana está aprisionada ao corpo e a criação não é vista como um bem, mas enformada pelas forças do mal. Os humanos desejam o bem e a verdade, mas estas realidades estão fora das realidades criadas. Neste sentido, Deus é uma entidade totalmente transcendente, que envia uma pequena luz e um ténue conhecimento secreto (gnoses) para alguns privilegiados que tenham a «sorte» de aceitar essa iluminação interior.

Tudo o que seja conhecimento esotérico, secreto, sobre as coisas de Deus, da vida e do mundo, para dizer de uma fé, que só está ao alcance de alguns, não se enquadra no pensar do Evangelho de Jesus de Nazaré nem encontra justificação na doutrina e tradição cristãs.

As pessoas que acreditam não têm informações «confidenciais e secretas» sobre nada. A fé abre ao mistério de Deus e faz com que o crente possa perscrutar nem que seja por pequenos sinais a vontade de Deus em relação à sua vida e à vida do mundo. Por isso, a criação não pode ser um mal desde logo, mas um bem que nos revela a acção de Deus. Em tantos sinais da vida e do mundo criados, podemos vislumbrar a presença de Deus e a Sua vontade. São Paulo confirma: «Com efeito, desde a criação do mundo, as suas perfeições invisíveis, eterno poder e divindade, são visíveis nas suas obras, para a inteligência…» (Rom 1, 18-21).

Temos tido ainda recentemente muita violência e insegurança em nome de «fezadas» propagadas por grupos e pessoas individualmente. A fé nunca destrói. Se conduz a algum mal, então estamos perante a ausência da fé ou então perante conteúdos totalmente distorcidos acerca do que é e deve ser o acolhimento da fé. 

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