A fé não é uma ideologia
Por P.e José Luís Rodrigues - Funchal
Antes de mais eis a definição do
que é uma ideologia: «Conjunto de doutrinas ou crenças que formam a base de um
sistema político, económico ou de qualquer outra natureza» (tirado de um
dicionário).
A fé não é o que qualquer
doutrina, dogma, ideia, norma… pretenda circunscrever, porque se assim for,
todos aqueles que vivem de acordo com tais parâmetros e os impõem aos outros,
não aceitarão mais nada que esteja fora desse âmbito de pensamento. A variedade
de pontos de vista, de perspectivas, de atitudes, de opções e de pensamentos
que a fé sempre implica e daí a sua riqueza, não serão aceites por aqueles que
defendem a fé dentro dessa redoma pessoal ou do grupo.
Quando a fé se torna ideologia a
vida fica mais pequena, não há espaço para uma visão pluralista da existência e
do mundo. Por isso, o mais pequeno sinal diferente da fé ideologia que se
concebe torna-se diferente, errado ou falso. Está justificada a razão do
combate a realizar. Quando assim se procede é ver a insegurança, o sofrimento e
a morte que se semeia no mundo. Ai meu Deus quantos conflitos absurdos em nome
da fé já foram e serão realizados. Eis uma cegueira que ainda persiste em
tantas mentes humanas na actualidade.
Tudo isso resulta quando a fé se
torna uma ideologia ou doutrina em nome do poder instalado porque não se
permite a variedade teológica e, eventualmente, quando o pensamento que não
esteja dentro dos princípios que se delineou para definir o que é a fé, assim
sendo, facilmente o tal poder encontra razões para impor o silêncio, o
saneamento de pessoas e a proibição do acesso de alguns à comunhão fraterna.
Daí ainda se ouvir falar,
vergonhosamente, nos nossos tempos de teólogos que foram banidos, silenciados
ou excomungados porque ousaram sair das interpretações oficiais e oficiosas
sobre o que «alguns» desejam que seja a fé. O pensamento livre, é um perigo,
alguns assustam-se com isso e melhor será imporem o que entendem ser o
pensamento de Deus e a acção do Espírito Santo. Esta fé não serve.
Esta fezada que resulta de uma
ideologia não constrói a vida nem muito menos está ao serviço do Evangelho de
Jesus Cristo, que sempre nos convoca para a diferença e para o respeito da
pluralidade.
A fé não se resume a um dogma, ou
a uma única definição do catecismo, ela leva para uma experiência viva quanto
ao rico tesouro da mensagem da salvação, que no nosso caso (cristão) está na
práxis do nosso Mestre Jesus Cristo. Assim, como Pedro nos alerta para estarmos
sempre prontos, a não vacilar diante de tantas doutrinas e interpretações de um
mundo frio, calculista, vivendo sob o império do poder que domina os fracos,
dz-nos: «Estai sempre prontos a responder para a vossa defesa a todo aquele que
vos pedir a razão da vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito»
(1Pe. 3,15).
Eis a nossa fé que não que deve ser vivida na liberdade e no respeito
pelos os outros. Uma fé que nos anima para a militância na luta constante pela
justiça, porque se descobre uma relação pessoal com um transcendente que liberta
e que repugna tudo o que sejam meios e formas de opressão da dignidade humana.
Por esta fé empenhada, consciente e esclarecida é que vamos, isso nos basta!

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