A fé não é um guarda-chuva
Por P.e José Luís Rodrigues - Funchal
Nas tragédias onde está Deus?
Quando acontecem as tragédias e
se nos afectam com maior proximidade, salta-nos logo as perguntas do costume:
onde está Deus? Porque permite Deus, se é todo-poderoso, as desgraças que tanto
sofrimento provoca?
Por isso, reparei que por estes
dias estas questões estão bem presentes na nossa cabeça, agora que fomos outra
vez atingidos por tanta chuva, que provocou medo, vários desalojados,
sofrimento e um transtorno impressionante a todos os níveis. Basta que se
converse com algumas pessoas para nos apercebermos destas inquietações. As
redes sociais também têm feito eco desta perplexidade.
Perante estas perguntas habituais
nos momentos de tragédia lembro-me sempre do episódio que se passou com Elie
Wiesel no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Diz assim o relato:
«Voltávamos do trabalho uma tarde e vimos três forcas erguidas na praça do apelo. Ao nosso redor, os S.S., com metralhadoras apontadas, a cerimónia tradicional. Três condenados algemados. Um deles, uma criança, anjo dos olhos tristes [...]. Os três condenados subiram as cadeiras, juntos. Nos três pescoços foram colocados, ao mesmo tempo, os nós corrediços. – Viva a liberdade! – Gritaram os dois adultos. O pequeno estava calado.
«Voltávamos do trabalho uma tarde e vimos três forcas erguidas na praça do apelo. Ao nosso redor, os S.S., com metralhadoras apontadas, a cerimónia tradicional. Três condenados algemados. Um deles, uma criança, anjo dos olhos tristes [...]. Os três condenados subiram as cadeiras, juntos. Nos três pescoços foram colocados, ao mesmo tempo, os nós corrediços. – Viva a liberdade! – Gritaram os dois adultos. O pequeno estava calado.
– Onde está o Bom Deus? Onde
está? – Perguntou alguém atrás de mim.
A um aceno do chefe do campo, as
cadeiras foram retiradas [...]. Depois começou o desfile. Os dois adultos
morreram logo. A língua pêndula, engrossada, arroxeada. Mas a terceira corda
não estava imóvel, embora levemente, a criança ainda vivia... Mais de meia hora
ficou assim, lutando entre a vida e a morte, agonizando sob os nossos olhos.
Ainda estava vivo quando passei na sua frente. A língua ainda estava vermelha,
ainda havia luz nos seus olhos. Atrás de mim ouvi o mesmo homem perguntar:
– Onde está Deus, então?
E eu sentia em mim uma voz que
lhe respondia:
– Onde está? Ei-lo: está
pendurado ali, naquela forca...»
(Elie Wiesel, A Noite).
(Elie Wiesel, A Noite).
Face a esta reflexão do pensador
judeu, somos levados a concluir que Deus está em cada uma das vítimas, na
família desalojada, na idosa que verte lágrimas de dor porque perdeu tudo o que
tinha, fruto de uma vida dura para construir a pequena riqueza que a abrigava e
a fazia feliz naquele lugar que a água em abundância cerceou sem piedade. Deus
está naquele herói que foi atingido por uma pedra e o «crime» que cometia era
ajudar a limpar os caminhos, as casas que a intempérie abafou. Deus está na
criança que pede pão e roupa. Está em todos os lugares onde o sofrimento, a
solidão, a violência, a desordem, a miséria e tudo o que faz este mundo parecer
um inferno, pondo em causa a vida com dignidade.
Deus está…
Deus está…
... em todos os corações
que se compadecem com a desgraça dos outros, por eles erguem a sua oração, saem
de si mesmos e vão ao encontro com a sua amizade, a partilha, a ajuda.
... no amor que se dá sem condições.
... nas autoridades que assumem com verdade as suas responsabilidades e tudo fazem para minorarem a desgraça de quem perdeu o chão.
... em todo aquele que não fica indiferente à desgraça alheia. Deus está…
... no amor que se dá sem condições.
... nas autoridades que assumem com verdade as suas responsabilidades e tudo fazem para minorarem a desgraça de quem perdeu o chão.
... em todo aquele que não fica indiferente à desgraça alheia. Deus está…
... no pequeno sinal, no
sorriso, no abraço fraterno, no pão que mata a fome, na água que na hora H é
vida que sacia a sede, no singelo pano que abriga do frio, na companhia que
quebra a solidão, no aperto de mão que ajuda a levantar do chão e naquela mão
que afaga os cabelos de todo o corpo que se contorce com por causa da dor…
O filósofo Pascal resume o que devemos crer: «Se consideramos só a perfeição de Deus, caímos no desespero, e se consideramos só o homem, caímos no orgulho. Enquanto que, somente considerando Cristo, ao mesmo tempo Deus e Homem, podemos enfrentar lealmente toda a nossa fraqueza e a nossa miséria, no horizonte de um amor misericordioso e pleno de esperança» (Pascal, Pensamentos).
O filósofo Pascal resume o que devemos crer: «Se consideramos só a perfeição de Deus, caímos no desespero, e se consideramos só o homem, caímos no orgulho. Enquanto que, somente considerando Cristo, ao mesmo tempo Deus e Homem, podemos enfrentar lealmente toda a nossa fraqueza e a nossa miséria, no horizonte de um amor misericordioso e pleno de esperança» (Pascal, Pensamentos).
E o seguinte pensamento pode ainda ajudar-nos: «O facto de Deus deixar as vítimas morrerem é um escândalo
irrecuperável, e a fé em Deus tem que passar através deste escândalo. Nesta
situação, a única coisa que o crente pode fazer é aceitar que Deus está na
cruz, impotente como as vítimas, e interpretar essa impotência como o máximo de
solidariedade com elas. O anúncio missionário, entre a misericórdia e a cruz,
revela que o nosso Deus é vulnerável, sofredor e compassivo porque morre com os
crucificados da história» - disse o Pe. Giorgio Paleari – Mundo e Missão
(abril/2001).

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