A fé não é um contrato nem um
escape na lei
Por P.e José Luís Rodrigues - Funchal
A fé não resulta de um contrato
entre duas partes que devem obedecer a um conjunto de regras previamente bem
delineada e assumidas sob uma assinatura bem legível e reconhecida por uma
entidade com legitimidade para tal. Também não é uma brecha ou escape que
algumas dessas regras permitem sob o crivo da subjectividade da interpretação
pessoal que cada um entenda realizar de acordo com a sua idiossincrasia.
Conta-se que o comediante W. C.
Fields, agnóstico de uma vida inteira, estava no hospital em razão da doença
que o iria levar à morte. Recebeu a visita de Groucho Marx que encontrou Fields
a ler a Bíblia. «Ora essa Fields», disse Groucho, «o que estás fazendo?» -
Ripostou Fields: «Procurando brechas».
Por este prisma fica claro que a
Bíblia muitas vezes é entendida como resultado de um «contrato» entre Deus e a
humanidade. Um conjunto de leis ou regras que se vividas à risca, darão acesso
imediato à salvação. Pelo meio podem existir algumas brechas que salvaguardem
quem eventualmente não tenha pautado a sua vida pela prática desse conjunto de
regras e que descobrindo esse raio de sol pode sair iluminado.
A Bíblia não é esse «contrato»
nem tem brechas que sejam mais amenas que permitam uma descoberta mais fácil de
viver a fé e de alcançar a salvação.
A Bíblia resulta da acção de Deus
na História do mundo e da humanidade. Ela é a Palavra de Deus, os milagres de
Deus e a acção de Deus para o bem da humanidade. É uma «proposta», um caminho,
uma possibilidade para alimentar o dom da fé que Deus semeia no coração humano.
Daí que reduzir a fé a uma coisificação contratual não garante vida melhor,
mais dinheiro, mais diversão, mais saúde, mais sucesso, mais ausência de
problemas e dificuldades… Nessas contingências desta vida, a fé, é sim uma
mais-valia que ajudará sempre a fazer desta vida uma realidade não só deste
mundo, mas transcendente, vinda de Deus e em caminho para o mesmo Deus.
A fé não se encontra dentro dessa
perspectiva contratual, mas situa-se no coração humano como chave que dá
sentido à existência humana e ajuda nas respostas para as perguntas de onde a
felicidade depende.
Assim, pelo caminho da fé, que
descubro não nesse acordo contratual nem muito menos numa brecha, faço da minha
vida um serviço moral de bondade e de felicidade. Não apenas uma moralidade do
ser bonzinho, coitadinho ou outra coisa qualquer acabada em «inho», mas faço do
meu viver intimidade com Deus que me leva a ser enérgico na defesa do bem, da
vida, da criação, da justiça… Este caminho da fé, dom descoberto é saber com
inteligência distinguir as coisas, olhando tudo à minha volta com «os olhos de
Cristo» como dizia Orígenes o Cristão (séc. II).
Por esta via Pascal proferirá o
melhor que se pode dizer pela fé no Deus da Misericórdia e da Bondade revelado
por Jesus Cristo: «A impossibilidade que sinto para provar que Deus existe, é a
melhor prova para mim da sua existência». Deixemos o caminho de Deus fazer-se
com o nosso caminhar periclitante nos altos e baixos desta vida com o olhar
fixo na realidade maior que o inabarcável Deus nos reserva no mais profundo
segredo da existência. Sem contratos nem escapes, mas na liberdade eficaz da
acção do Espírito libertador do Deus da salvação.

Comentários
Enviar um comentário