O professor Andrew Oitke publicou um livro polémico, «Mental Obesity», para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna.
«Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência
dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada. Está
na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e
conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»
Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de
preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de
hidratos de carbono. As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados,
pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo,
mas não conhecem nada. Os cozinheiros desta magna "fast food"
intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e
filósofos, os romancistas e realizadores de cinema. Os telejornais e
telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts
da imaginação.»
O problema central está na família e na escola. «Qualquer
pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces
e chocolate. Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a
dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e
telenovelas. Com uma «alimentação intelectual» tão carregada de adrenalina,
romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois
uma vida saudável e equilibrada.»
Um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra,
intitulado "Os Abutres", afirma: «O jornalista alimenta-se hoje quase
exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos
mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para
apenas seduzir, agredir e manipular.»
O texto descreve como os repórteres se desinteressam da
realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante e
sensacionalista. «Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos
jornais.» Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.
«O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de
banalidades. Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi
Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para
que é que ela serve. Todos acham que Saddam é mau e Mandela é bom, mas nem
desconfiam porquê. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o
que é um cateto».
As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.
«Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as
grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é
contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura
banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia.
Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, e com isso a
falta de senso social, o egoísmo e a agressividade. Não se trata de uma
decadência, uma «idade das trevas» ou o fim da civilização, como tantos
apregoam. É só uma questão de obesidade. O homem moderno está adiposo no raciocínio,
gostos e sentimentos.
O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento,
progressos. Precisa sobretudo de dieta mental.
Por João César das Neves, economista

Comentários
Enviar um comentário