Elogio do jejum


Por: FERNANDO FÉLIX 


O Sr. Gaspar abriu o jornal e começou a ler, como era seu hábito. No meio das notícias, viu em letras bem grandes um quadro com a frase: «Se queres passar uma Páscoa alegre e feliz, faz bem a alguém.»
O Sr. Gaspar leu várias vezes estas palavras, sorriu, deu uma palmadinha na perna e disse encantado: «Ora aqui está uma boa ideia!» E com ar resoluto foi até à cozinha, pegou num grande lombo de porco assado e embalou-o muito bem. Depois, dirigiu-se à sua secretária e escreveu num bonito cartão: «Se queres passar uma Páscoa alegre e feliz, faz bem a alguém.» Em seguida, saiu com o pacote e foi até uma casa humilde, que tinha um sapato pendurado na porta. Disse para si: «Aqui mora o velho sapateiro António! Vou fazer-lhe uma surpresa.» Sem barulho, encostou o pacote à porta, bateu com força e… afastou-se rapidamente!
«Que lindo presente! Tão apetitoso!» pensou o sapateiro, deliciado, quando encontrou o lombo do porco. «Será para mim?» Depois leu o cartão e ficou durante algum tempo a meditar naquelas palavras… «Já sei o que vou fazer: ofereço os chinelos que acabei ontem à viúva do meu amigo Mendes.» Guardou o lombo de porco no armário, meteu os chinelos num saquinho, prendeu o cartão e dirigiu-se à casinha da viúva. Pôs o saco no último degrau da escada, chamou, e… foi-se embora.
A idosa senhora abriu a porta, olhou em volta e arregalou os olhos quando viu o saco e leu o cartão. «Quem terá tido esta ideia tão simpática? Também quero fazer uma surpresa a alguém», decidiu imediatamente. Assim, foi para a cozinha fazer um bolo de chocolate pensando nos três meninos, seus vizinhos, a quem tinha morrido a mãe. Quando chegou a casa destes, entrou sem bater e pôs o bolo em cima da mesa. Depois entregou-lhes o cartão: «Se queres passa uma Páscoa alegre e feliz, faz bem a alguém.»
«Que lindo bolo! É mesmo para nós? Muito obrigado!», gritaram os miúdos quando ela ia a sair. O mais velho sugeriu então aos outros: «Antes de o saborearmos, vamos cortar uma parte e levá-la à Quinta de Cima, ao João paralítico. Ele está quase sempre sozinho…» «Vamos!», responderam, entusiasmados, os outros dois. Alegres, subiram a rua, para levar o pedaço de bolo ao João, que passava os dias sentado na cadeira de rodas. Quando lhe disseram a razão por que ali tinham ido, ele achou a ideias muito interessante. Agradeceu muito aquele pedaço de bolo tão bom e comunicou-lhes: «Também eu vou ter uma Páscoa alegre e feliz. Guardo umas migalhas e vou pô-las no peitoril da minha janela, para os passarinhos que aí costumam aparecer.» E assim fez. Passado algum tempo, as avezinhas encontraram o bolo e, depois de comer, nos seus alegres chilreios, pareciam dizer: «Se queres passar uma Páscoa alegre e feliz, faz bem a alguém.»

Redescobrir o jejum
É já sabedoria universal que a felicidade autêntica não provém dos bens que possuímos. Somos felizes quando vencemos o egoísmo e nos abrimos ao amor, o qual, tantas vezes, exige renúncias. O jejum, como a história acima ilustra tão bem, alimenta a felicidade.
Renunciar ao comer ou a um bem pessoal, por pensarmos naqueles que não os têm, torna-nos mais humildes e simples, mais conscientes das fragilidades dos outros e das suas necessidades; torna-nos mais compassivos e compreensivos; mais generosos, alegres e amigos. No fundo, torna-nos mais parecidos com Deus, que é isto tudo em atenção a nós.
Na tradição das religiões, «jejum» é não comer nada. Comer menos é «moderação» e deixar de comer algo é «abstinência».
A Igreja Católica anima os seus fiéis a fazerem jejum, ou, pelo menos, moderação (limitando a alimentação diária a uma refeição) durante a Quaresma – os quarenta dias que antecedem a Páscoa, em memória dos quarenta dias que Jesus jejuou no deserto, antes de iniciar a sua missão salvadora –, e em particular na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa. Também manda fazer abstinência de carne, ou de algo que seja uma verdadeira privação, como bebidas, tabaco, um espectáculo, um bem pessoal…, nas sextas-feiras da Quaresma e, até, todas as sextas-feiras do ano.
Ao fazê-lo, sabe que vai contra a corrente da sociedade consumista, que muito dificilmente aceita os sacrifícios.

Normas
O preceito da abstinência obriga os fiéis a partir dos 14 anos; o preceito do jejum obriga os fiéis com idades compreendidas entre os 18 e os 59 anos. Estão dispensados os doentes, além dos menores de 14 anos e os que tenham mais de 60, as mulheres grávidas e os doentes.

Dicas
A melhor maneira de fracassar o jejum é pretender fazê-lo logo no primeiro dia. O organismo está habituado a um ritmo de alimentação. Diminuindo os alimentos aos poucos, semana a semana, na última já é possível fazer jejum.
O jejum na Quaresma tem a intenção de nos aproximar de Deus. Para isso ajudará que se consagrem à oração os tempos das comidas.
Em terceiro lugar, o jejum está unido à caridade (esmola). O dinheiro que deixámos de gastar com as renúncias pode ser endereçado àqueles em quem pensámos quando jejuámos. As paróquias costumam organizar campanhas às quais se destinam as renúncias quaresmais.

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