«As pessoas felizes conspiram para que as alegrias dos outros aconteçam»

As pessoas felizes são aquelas capazes de dedicar-se a alegrias que não lhes pertencem. De conspirar discretamente para que elas aconteçam. De favorecê-las de muitas maneiras.

Acho que me encontrei uma única vez com Miguel Esteves Cardoso. Foi, inclusive, um desses encontros de acaso: eu i-a almoçar com um amigo e encontrei-o num restaurante, pronto para fazer o mesmo com um amigo seu, que era meu também. Rapidamente, as mesas para dois transformaram-se numa única mesa maior. E assim ficámos, fazendo aquilo que à mesa de faz: alimentando-nos da comida, mas igualmente (ou sobretudo) da presença, esperada e inesperada, uns dos outros. 

Conversa vai, conversa vem, o Esteves Cardoso disse uma coisa que não mais deixou de acompanhar-me: não há nada mais miserável em nós do que não sabermos alegrar-nos com a alegria dos outros. 

Compreender a dor dos outros e sair-lhes ao encontro é uma regra indiscutível. Mesmo quando pouco podemos fazer para alterar as circunstâncias dolorosas que vivem, a presença é uma confirmação preciosa e necessária daquilo que nenhum sofrimento poderá abalar a certeza de que, aconteça o que acontecer, não estão sós. E todos experimentamos como isso se torna determinante em certas horas. 

Porem, acompanhar os outros na sua alegria não é tarefa de menor préstimo. Não é certamente por acaso que, em algumas parábolas de Jesus, o pedido a que a alegria seja acompanhada se confunda com as possibilidades de a própria alegria tomar-se o que ela é: júbilo, canto, riso, estremecimento feliz que se expande. “AIegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha perdida" (Lc. 15.6); “Alegrai-vos comigo, porque encontrei a moeda perdida" (Lc. 15.9). E, na mesma linha o pai do filho pródigo explicando ao filho mais velho, perplexo com o perdão concedido àquele seu irmão desencaminhado: "Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e encontrou-se" (Lc 15,32). Uma alegria que não se possa partilhar parece uma alegria que a meio caminho se rompe, que não chega sequer a consumar-se.

E preciso, contudo, que aprendamos a disponibilidade para nos alegrarmos com o bem que acontece aos outros, e a fazê-lo gratuitamente, sem pensar no que possamos receber em troca. Implica vencermos o tique contínuo de nos compararmos (e, quase sempre, em plano de superioridade); contrariarmos pulsões mesquinhas, mesmo se travestidas de grandes sentimentos ou razoes; suspendermos juízos cínicos sobre méritos e deméritos; distanciarmo-nos dessa forma destrutiva de admiração que a inveja é. Bernanos escreveu que "saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade". As pessoas felizes são aquelas capazes de dedicar-se a alegrias que não lhes pertencem. De conspirar discretamente para que elas aconteçam De favorecê-las de muitas maneiras. E, por fim, de apagar-se para dar-lhes todo o lugar.

Talvez, para isso, tenhamos de reinventar a gramática humana que utilizamos e, com ela, reinventar itinerários, atitudes e até formas verbais. Como aquela surpreendente, que aparece ligada à alegria num poema de Fernando Pessoa: "Passou a nuvem: o sol volta/ A alegria girassolou."

P.e José Tolentino Mendonça, ©Revista 16/NOV/13, p. 6

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