Uma das imagens mais
lindas, carregadas de sentido humano e cristão é a da gravidez.
A Igreja no tempo do
Advento se assemelha a esta linda imagem humana, pois está grávida da graça e
da presença salvadora de seu Senhor. Aquele que um dia voltará, e certa como a
aurora é a sua vinda (cf. Os 6,3), vem a nós de novo.
"A Igreja deseja
ainda ardentemente fazer-nos compreender que o Cristo, assim como veio uma só
vez a este mundo, revestido da nossa carne, também está disposto a vir de novo,
a qualquer momento, para habitar espiritualmente em nossos corações com a
profusão de suas graças, se não opusermos resistência" (cf. Cartas
Pastorais de São Carlos Borromeu, bispo - Acta Eclesiae Mediolanensis, t. 2,
Lugduni, 1683, 916-917). O "estado de gravidez" da Igreja em tempo de
Advento traz consigo consequências para a vida dos cristãos, que queremos
chamar de "Virtudes do Advento", como proposta para as pessoas e as
comunidades.
O ponto de partida é a
necessidade profunda do Redentor. Não somos capazes de nos redimir por nós
mesmos e de oferecer um sentido profundo à existência. Há uma iniciativa
gratuita de Deus, que vem ao encontro da humanidade. Nossa boa vontade humana é
insuficiente! Carecemos de Deus, de sua presença e de seu amor salvador! Uma
humanidade sem Cristo é decadente, escorrega para o vazio absoluto. Deus
preparou seu povo, através de gerações de homens e mulheres, dentre os quais se
destacam os que, considerados pequeno resto dos pobres de Israel, permaneceram
fiéis às promessas antigas. Também hoje, diante das promessas de Deus, que é
fiel, multiplicam-se os que não duvidam de sua palavra.
A esperança é a virtude
própria dessa gente, e queremos fazer parte dela! Quem a vive toma consciência
da necessidade do Cristo que vem, abre-se para viver com fidelidade a ele e
aponta a bússola de sua vida para a eternidade, onde Deus será tudo em todos. Não
espera apenas o dia de amanhã, ou quem sabe uma visita que se anuncia e nem
mesmo os eventuais benefícios que a vida oferece, mas espera Deus e espera tudo
de Deus.
Viver a virtude da
esperança leva o cristão à oração diante da promessa de Deus. E oração cristã é
feita com humildade, sinceridade, abertura à vontade de Deus e obediência. Rezar
e rezar melhor é próprio do Tempo de Advento. A melhor oração de Advento é a
participação na Santa Missa, acompanhando a liturgia de um tempo rico do
mistério de Deus. Depois, a oração em família, a Novena de Natal e a oração com
a Bíblia, na leitura orante da Palavra de Deus.
Quem espera em Deus e
tudo espera dele vive desde já o objeto de sua esperança, sendo fiel e
responsável diante dos apelos do próprio Senhor. Como as gerações que
precederam a vinda do Salvador viveram como se estivessem vendo o invisível, os
cristãos de nosso tempo não podem deixar para amanhã o bem a ser feito. Sua
fidelidade a Deus se manifesta na vivência da caridade, a experiência da
partilha dos bens espirituais e materiais. É o sentido dos muitos gestos de
"Natal sem fome" ou, entre nós, "Belém, a casa do pão",
assim como a grande "Coleta para a Evangelização", que se realiza em
todo o Brasil neste fim de semana. É tempo de contagiar a todos, para que a
generosidade seja experimentada e permaneça no ano que vai começar. É um grande
laboratório de caridade, com o qual vale a pena se comprometer.
É quem começou tudo foi o
próprio Deus. O Natal é a suprema epifania daquele que a Escritura chama de
filantropia de Deus, seu amor pelos homens: "Manifestou-se a bondade de
Deus e seu amor pelos homens" (Tt 3, 4). Só depois de ter contemplado a
"boa vontade" de Deus para conosco podemos ocupar-nos também da
"boa vontade" dos homens, de nossa resposta ao mistério do Natal. Imitar
o mistério que celebramos significa abandonar todo pensamento de fazer justiça
sozinhos, toda lembrança de ofensas recebidas, suprimir do coração todo
ressentimento com respeito a todos. Não admitir voluntariamente nenhum
pensamento hostil contra ninguém; nem contra os próximos nem contra os
distantes, nem contra os fracos ou contra os fortes, nem contra os pequenos nem
os grandes da terra, nem contra criatura alguma que existe no mundo. E isso
para honrar o Natal do Senhor, porque Deus não guardou rancor, não olhou a ofensa
recebida, não esperou que outro desse o primeiro passo até Ele. Se isso não é
possível sempre, durante todo o ano, pelo menos o façamos no tempo do Advento e
do Natal. Assim o Natal que se aproxima será realmente a festa da bondade, da
filantropia de Deus (Cf. Padre Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da
Casa Pontifícia, 24 de dezembro de 2007).
Para assim viver o
Advento e o Natal que se aproxima, ressoa no Advento o convite de São João
Batista à conversão, mudança de mentalidade, que pode traduzir-se numa corajosa
revisão de vida, para arrumar a casa do coração e a busca do Sacramento da
Penitência.
Enfim, a Igreja em tempo
de Advento convida os cristãos ao otimismo da fé, que se traduz na virtude da alegria, fruto da
presença do Espírito Santo em nossos corações.
Vem de Deus a graça que
precisamos. Por isso pedimos confiantes: "Ó Deus e bondade, que vedes o
vosso povo esperando fervoroso o natal do Senhor, dai chegarmos às alegrias da
salvação e celebrá-las com intenso júbilo na solene liturgia. Amém".
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