Há 40 dias, no Natal, anuncio foi que Deus se fez homem. Hoje, O velho Simeão diz-nos porquê Deus se fez homem.



Simeão abençoou-os e disse a Maria, a mãe de Jesus:
"Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição."

Para preparar a homilia desta semana, li uma interpretação cheia de bom senso e que dá um sentido à festa de hoje, que é o texto de um padre francês, Léon Paillot, acessível aqui: 2 février - LA PRESENTATION DU SEIGNEUR AU TEMPLE, e que alimenta o leitor.

Devemos recordar constantemente que os evangelhos foram escritos depois da Páscoa, à luz da fé das primeiras comunidades cristãs, e que são releituras crentes dos acontecimentos reconstituídos à luz da Páscoa. O que significa que os relatos não têm a pretensão de nos contar o que realmente aconteceu; esses relatos querem nos dizer algo da fé cristã do final do século I até hoje, 2014.

É verdade que a tradição judaica queria que todo o primogénito do sexo masculino fosse apresentado ao Templo como rito de iniciação judaica; a Lei de Moisés exigia-o. 
No entanto, ao situar o acontecimento da apresentação de Jesus no Templo, no contexto da tradição judaica, Lucas nos diz alguma coisa sobre esse Jesus tornado Cristo e Senhor na Páscoa:

1. O Cristo Luz dos Povos

O que acontece no Templo de Jerusalém no momento em que o menino Jesus é apresentado? Há um ancião chamado Simeão; ele representa a Antiga Aliança, o Antigo Testamento, Israel. Além do mais, esse ancião é um homem justo e religioso, que esperava a consolação de Israel, isto é, o Messias de Deus, segundo os profetas do Exílio, e o Espírito Santo estava com ele (Lc 2,25). Para Lucas, temos aí tudo de que precisamos para passar da Antiga Aliança à Nova Aliança, do Antigo Testamento para o Novo Testamento, e é um ancião, um homem justo e religioso, habitado pelo Espírito Santo, que fará essa passagem.

Simeão já reconheceu que essa criança é o Senhor, o Messias, o Salvador, o Cristo da Páscoa. A Antiga Aliança terminou: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz” (Lc 2,29). A salvação já se manifestou, não a um povo em particular, mas a todos os povos; a salvação é universal: “Porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos” (Lc 2,30-31). É a luz anunciada pelo profeta Isaías que nós esperamos na noite do Natal: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, e uma luz brilhou para os que habitavam um país tenebroso” (Is 9,1). Hoje, Lucas fala da luz como uma luz universal: “Luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel” (Lc 2,32).

Mas, por que celebramos esta festa justamente hoje? Estamos a 40 dias do Natal; pelo calendário, estamos na metade do inverno (no hemisfério norte). Sabemos que se a marmota sair da sua toca e estiver nublado, restam ainda seis semanas de inverno... e é assim que acontece todos os anos. Antes de ser uma festa cristã, a festa de hoje, assim como a festa do Natal, era uma festa pagã. No império romano, celebrava-se a metade do inverno para significar que a luz começa a aumentar dia após dia a partir do solstício de inverno, o deus Fauno e a luz renascente. Durante essas festividades, as pessoas percorriam as ruas com velas. Em 472, o Papa Gelasio transformou-a em festa cristã, para lembrar que o Cristo que nasceu no Natal é a luz dos povos, e as velas que levamos nos lembram o nosso batismo cristão, que nos faz ser luz, à semelhança de Cristo.

O padre francês Léon Paillot escreve: “Nós anunciamos no Natal que Deus se fez homem. O velho Simeão nos diz por que Deus se fez homem”. Ele será sinal de divisão no mundo e mesmo na Igreja: “Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: ‘Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma’” (Lc 2,34-35). A divisão não diz respeito somente aos judeus e pagãos, mas também a todos aqueles e aquelas que recusam reconhecer o Cristo da Páscoa. E Maria, no evangelho de Lucas, não é a mulher, mãe de Jesus; é a Igreja, a filha de Sião, a nova Jerusalém, o povo da Nova Aliança, os cristãos que somos nós. Portanto, a divisão se faz no mundo e na Igreja. Ainda hoje estamos divididos entre cristãos e inclusive entre católicos.

2. O FEMINISMO LUCANO

Já no início do evangelho de Lucas, temos um vislumbre do feminismo lucano. O que vem fazer esta anciã, Ana, no evangelho de hoje, uma vez que já temos esse ancião, Simeão, para dar o sentido ao evangelho de Lucas? Esta mulher diz algo sobre Lucas: esta mulher é profetisa (Lc 2,36), o que não é algo comum na época do Antigo Testamento, nem mesmo no Novo Testamento. Esta mulher, viúva, após ter atingido a idade de 84 anos, não se afastou do Templo (Lc 2,37b), o que significa que ela representa o israelita perfeito. Além disso, Lucas diz que ela servia no Templo, dia e noite, com jejuns e orações (Lc 2,37c); é muito feminista, porque as mulheres não tinham o direito de servir no Tempo, ainda mais durante a noite. Para Lucas, a mulher ocupa as mesmas funções que o homem.

Para nós, hoje, que relemos esta passagem, será que este relato de Lucas pode nos surpreender? Como diz Léon Paillot: “Eu li, há cerca de 10 dias, uma reflexão do Papa Francisco que dizia: Deus não é um Deus de costumes; é um Deus das surpresas. E acrescentou: a Palavra de Deus é viva, ela vem e diz o que deve dizer, e não o que eu espero que ela diga ou o que eu espero que ela vá dizer. É uma palavra livre, que é surpresa e novidade”. Se Deus sempre renova, para nós que relemos este relato hoje, que novidade nos quer dizer? É cada um e uma de nós que deve descobri-lo...

Uma coisa é certa: como disse Paillot, o rito de apresentação de uma criança do sexo masculino no Templo, onde o sacerdote tem o papel primordial, no evangelho de hoje não é senão um pretexto para nos fazer compreender outra coisa: “Os pais que ofereciam seu filho voltavam-se para o passado: a obrigação de satisfazer um rito ancestral. Os anciãos abrem para o futuro. Não se trata mais de questão de ritos ou de sacerdotes: abrem-se novas perspectivas. Mas essas perspectivas só podem ser apreciadas corretamente na fé, porque a conclusão do relato é surpreendente: voltamos a Nazaré, e tudo prossegue na humildade de uma vida comum. Decididamente, os sinais feitos por este que é apresentado como a luz das nações são discretos e verdadeiramente pouco espetaculares. Surpreendente! Como acontece ainda hoje”.

Reflexão de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras da Festa da Apresentação do Senhor – Ciclo A do Ano Litúrgico (02 de fevereiro de 2014). A tradução é de André Langer.

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