Opinião de Vasco Pulido Valente | jornal Público | 2/2/2014
Alguém se esqueceu de prevenir Francisco que a
popularidade, como o populismo, não costumam durar.
Depois da Time, a Rolling Stone pôs na capa o
Papa Francisco. Esta espécie de adoração de Bergoglio em que a esquerda caiu é
universal. Até por aqui António Costa e Mário Soares não perdem uma
oportunidade de o oferecer como exemplo à direita “liberal”.
A insistência do Papa na horrível pobreza do
mundo e na condenação da desordem e da injustiça, que a banca e os mercados
criam, tem um ar de família e podiam entrar com facilidade numa conversa do
Partido Socialista. Ainda por cima, Francisco parece mais tolerante com os
costumes sexuais do tempo. Sobre homossexuais, disse: “Quem sou eu para os
julgar?”. E fala da plena participação na vida da Igreja (incluindo a comunhão)
dos divorciados, dos re-casados, mesmo de outras mais vagas “vivências”
matrimoniais do seu rebanho.
Isto, que não traz nada de novo ao
catolicismo, foi aclamado como uma espécie de revelação. O Papa não passa os
limites da “doutrina social” da Igreja ou do Catecismo decretado por Ratzinger.
O que ele trouxe de novo está mais no espectáculo do que na substância. Não
quis viver no palácio pontifical, cozinha de quando em quando o seu jantar, dá
boleias no papamobile, lava pés com entusiasmo e quase que roça a santidade na
sua paixão por um clube de futebol, o San Lorenzo de Almagro. Mas no seu fervor
a esquerda vai esquecendoque ele, no meio deste ruído mediático, não tocou (e
provavelmente não tocará) nas grandes questões que afligem os católicos: desde
o casamento homossexual à ordenação das mulheres e à democratização interna da
Igreja (embora ele se designe modestamente a si próprio como “o bispo de
Roma”).
A desilusão virá para a esquerda e para dez
milhões de seguidores que o acompanham hoje no “Twitter”. Alguém se esqueceu de
prevenir Francisco que a popularidade, como o populismo, não costumam durar. O
repertório de um Papa é forçosamente curto e a incessante repetição de uma
conversa petrificada por 2 000 anos de tradição acaba sempre por desinteressar
os mais fiéis dos fiéis. Sobretudo se não assentar em acções pertinentes. Os
primeiros franciscanos desistiram da pobreza de S. Francisco e não tardou que
se tornassem uma ordem esplendorosa e riquíssima, que fazia inveja a toda a
Cristandade. Não sei a que levará este novo estilo de Jorge Bergoglio. Mas sei
que a extraordinária apoteose de 2013 não se repetirá. E suponho que o Papa dos
“pobrezinhos” também sabe.

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