Inacio Larrañaga
In O matrimónio feliz, ed. Paulinas
Que fazer, em suma, para
deixar o egoísmo fora de combate? Uma norma geral de senso comum, uma boa
educação social, uma orientação psicológica podem tornar-se ajudas preciosas
para manter de pé o compromisso conjugal. Mas não basta. Precisamos de estender
uma ponte entre duas margens, entre dois corações. Procuramos uma nova força
que, vindo de fora, se instale nos dois corações, constituindo-se em elemento
unificador que enlace margens separadas e, eventualmente, divididas pela
inimizade.
É difícil manter uma
relação matrimonial sem que surjam divisões ao longo dos dias! É fácil ser
feliz e viver unidos nos primeiros tempos, tempos de novidade e alegria, quando
se espera o primeiro filho.
Mas os anos vão passando;
a monotonia, qual lenta noite, vai preenchendo todos os recantos e, em vez da
alegria, tornam-se presentes os nervos e o cansaço. No meio de tantos
obstáculos, torna-se um empreendimento quase sobre-humano manter erguido o
archote da alegria conjugal.
O amor é uma corrente que
brota de um único manancial: o coração de Deus Pai. Essa corrente, atravessando
o território de Jesus, derrama-se na alma da humanidade e, de forma mais
privilegiada, no coração dos esposos. E assim poderíamos dizer que qualquer
manifestação de amor é uma participação da natureza divina, porque Deus, por
essência, «é» Amor.
Lutámos contra todas as
tempestades. Caminhámos por sendas que se entrecruzam, em pleno deserto.
Abrimos as mãos para que se encham do pó das estrelas. Mas muitos dos nossos
sonhos levantaram voo nas asas da morte. Estamos a chegar à meta distante.
Se não dermos o passo do
amor emotivo para o amor oblativo, o matrimónio fracassará; que ao amável toda
a gente ama, e com o simpático todos simpatizam, mas que, para perdoar uma
ofensa, tenho de morrer ao instinto de vingança.
No entanto, ninguém morre
por gosto, ninguém perdoa por gosto. Morrer, para qualquer coisa viva, não é
fonte de emoção, mas de dor. É como «dar a vida», mas ninguém dá a vida por
gosto, porque o instinto primário do homem é procurar o agradável e fugir do
desagradável.
As pessoas de caráter
muito rancoroso, quando se vingam, experimentam uma espécie de prazer. A
maioria das pessoas, ao responder a um grito com outro grito, sente uma misteriosa
satisfação. É essa a reação espontânea, a reação natural. Fazer o contrário,
como ficar calado ao ouvir um grito, ter paciência frente a uma grosseria, não
constitui uma reação espontânea.
Para pagar o mal com o
bem, é imprescindível começar por fazer uma verdadeira revolução nas leis
ancestrais do coração. Quem fará tal revolução? Alguém que venha de fora e se
instale nos dois corações. E esse Alguém tem um nome próprio: Jesus Cristo.
Só Jesus Cristo pode
instalar-se na intimidade do coração e causar uma satisfação tão imensa que
compense o preço de termos de morrer para amar.
Só fortemente agarrados a
um Jesus Cristo vivo e vibrante, com todas as energias adesivas e unitivas, só
assim é possível cerrar os dentes, engolir em seco, calar e responder ao grito
com o silêncio e à explosão com a serenidade.
Só Jesus pode causar
satisfação e alegria quando o cônjuge se decide a controlar os nervos, a
reprimir os impulsos de violência, a refrear os instintos e a evitar as
represálias.
Só Jesus pode inverter as
leis do coração, colocando o perdão ali onde o instinto gritava vingança,
derramando mansidão onde o coração exigia violência, colocando doçura no lugar
de onde emanava amargura, derramando amor ali onde reinava o egoísmo.
É esta a revolução operada
nas velhas leis do coração humano. O segredo fundamental de uma longa e feliz
convivência conjugal consiste em fazer imperar as convicções da fé sobre as
reações espontâneas, pela intimidade com Jesus.
Só Jesus pode descer até
às profundidades onde habitam os filhos do egoísmo, primeiro para controlá-los,
em seguida para transformá-los em energias de acolhimento.
Só Jesus pode redimir os
impulsos selvagens dos abismos dos instintos, desde que o Senhor esteja
pessoalmente vivo na minha consciência.
Todos sabemos quais são
os impulsos espontâneos do coração:
Soltar aqui um grito,
lançar ali uma ironia,
deitar sempre as culpas
ao outro,
nunca fazer uma
autocrítica,
fechar-se num silêncio
ressentido,
cobrar hoje por uma
ofensa antiga.
Ter uma reação exagerada
frente a uma
insignificância,
recusar agora o olhar,
depois a palavra,
manter-me reticente para
que ele perceba
que eu já sei,
dar rédea solta à
desconfiança…
Estes (e outros) são os
impulsos espontâneos que apresentam sempre duas características típicas:
surpresa e violência. As pessoas impulsivas tendem a ser compulsivas; são
aquelas pessoas que, no momento menos esperado, cometem ou proferem um
despropósito do qual se vêm a arrepender ao fim de poucos minutos.
Quando os impulsos
selvagens tentarem levantar a cabeça de forma inesperada, detenha-se! Esposo,
esposa, desperte! Cuidado! Não é esse o estilo de Jesus, não é esse o preceito,
o exemplo de Jesus; interrogue-se de imediato: Que faria Jesus no meu
lugar? Como reagiria? Que
sentiria? Que diria? Como atuaria?
Quando o esposo ou a
esposa se lembrarem
como Jesus pagou o mal
com o bem,
soube guardar silêncio
perante os juízes,
com que delicadeza tratou
o traidor,
com que amor olhou para
Pedro,
como perdoou setenta
vezes sete,
como foi compassivo com
toda a debilidade...
Quando o esposo ou a
esposa contemplarem este Jesus com os olhos da alma, reagirão com bondade,
mansidão e paciência perante qualquer situação inesperada e turbulenta da vida.
Quando, num descuido
momentâneo, um dos cônjuges for assaltado por um impulso feroz e, numa
exaltação incontrolável, cometer uma barbaridade, calma! Primeiro, não se deve
assustar. Segundo, não se deve envergonhar. Terceiro, deve reconhecer
humildemente o seu deslize. Quarto, deve pedir desculpa e propor-se viver
alerta sobre si mesmo, para que os seus atos futuros sejam movidos pelos
sentimentos de Jesus.
É o próprio Jesus, com a
colaboração dos esposos, que levará os cônjuges pela mão, até à tão sonhada
maturidade. Sim, o próprio Jesus fará culminar a aventura matrimonial numa
ditosa ventura.
Um sonho de épocas
remotas fez-se carne, como se tivéssemos seguido no encalço dos desejos. Dizem
que o vento não pode ser detido nem enjaulado, mas aqui apanhámos um sonho com
as duas mãos. O cofre está cheio de tesouros e nós estamos contentes.
Os esposos conseguiram
sentar-se à sombra da alameda sem perguntas nos lábios e coroados de grinaldas.
Semearam muito e colheram muito mais. Os seus olhos ficaram deslumbrados e o
seu coração dilatou-se de ternura. Já não há distâncias; agora os silêncios
estão cheios de música.
Para terminar, vamos
coroar estas páginas singelas com um soneto de Francisco Luis Bernárdez.
Considero este soneto uma síntese magistral de todas as luzes que acendemos, em
particular sobre as elevações do amor oblativo:
«Se, para recuperar o
recuperado,
tive de perder primeiro o
perdido,
se, para conseguir o
conseguido,
tive de suportar o
suportado.
Se, para estar agora
enamorado,
foi mister primeiro estar
ferido,
tenho por bem sofrido o
sofrido,
tenho por bem chorado o
chorado.
Porque, no fim de tudo
ficou provado
que não se goza bem o
gozado
senão depois de o ter
padecido.
Porque, no fim de tudo
ficou entendido,
que o que a árvore tem de
florido,
vive do que ela tem de
sepultado.»
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