Por: P.e MANUEL JOÃO P. CORREIA, Missionário Comboniano
In Bíblia e Vocação | revista Além-Mar | Fevereiro de 2014
«Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da maravilha que é o
conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor: por causa dele, tudo perdi e
considero esterco, a fim de ganhar a Cristo» (Filipenses 3,8).
Propusemo-nos para este ano um percurso à descoberta dos sentidos.
Desejaria, porém, que esta nossa reflexão vocacional mensal fosse não só uma
partilha de ideias, mas também uma contemplação de vidas, um contacto com
testemunhas de vidas cheias, transbordando de sentido e de beleza! Os ideais
podem ser apreciados e admirados, mas entusiasmam e apaixonam só quando os
vemos vivos e incarnados numa pessoa de carne e osso! Como o de Paulo,
partilhado com os cristãos de Filipos.
Toda a vocação cristã é uma chamada a viver a vida em toda a sua
exuberância. A existência do cristão não é uma vida «apoucada», rebaixada, mas
elevada à sua máxima potencialidade. Uma existência que respira energia por
todos os poros da pele, que saboreia de verdade o gosto de viver. Uma vida
profundamente rica de sentido, porque se alimenta de toda a capacidade
sensorial de que Deus nos dotou, com os cinco sentidos físicos e espirituais.
Orígenes diz que «há dois homens em cada um de nós: como há um homem exterior
assim há também um interior». A cada sentido físico corresponde um «sentido
espiritual» da alma, do «homem interior».
Queria apresentar-vos hoje o testemunho de uma «vida transbordante de
sentido»! Trata-se de Ana Lena (Annalena) Tonelli, uma leiga voluntária,
missionária católica italiana, a «Madre Teresa» do povo somali. Recentemente
decorreu o décimo aniversário do seu martírio. Ana Lena foi uma mulher
extraordinária que viveu em silêncio, durante 33 anos, uma vida de radicalismo
evangélico num ambiente completamente muçulmano, totalmente dedicada aos
pobres. Foi assassinada no dia 5 de Outubro de 2003, precisamente no dia em que
foi canonizado S. Daniel Comboni.
Ana Lena nunca gostou de falar de si mesma, mas em 2001 aceitou o convite
insistente para participar em Roma num encontro sobre o voluntariado. Nessa
ocasião, deu um extraordinário e emocionante testemunho, de que oferecemos
alguns extractos.
Viver para os outros
Sou Ana Lena Tonelli. Nasci na Itália, a 2 de Abril de 1943. Saí da Itália
em Janeiro de 1969. Desde então, tenho vivido ao serviço do povo da Somália.
Foram trinta anos de partilha. Optei por viver para os outros: os pobres, os
que sofrem, os abandonados, os não amados… logo desde criança. Assim tenho
vivido e assim espero continuar a viver até ao fim da minha vida.
Só queria seguir Jesus Cristo. Nada mais me interessava com tanta força:
Ele e os pobres n’Ele. Foi por Ele que escolhi a pobreza radical… embora jamais
possa ser tão pobre como um verdadeiro pobre… como os pobres de que está cheio
cada dia da minha vida.
Eu vivo servindo, sem nome, sem a segurança de uma ordem religiosa, sem
pertencer a nenhuma organização, sem salário, sem contribuições voluntárias
para a minha velhice. Não sou casada porque assim o escolhi com alegria, desde
a juventude. Queria ser toda para Deus. Era uma exigência da minha maneira de
ser, a de não ter família própria. E foi o que aconteceu, por graça de Deus.
Proclamar o Evangelho com a vida
Parti da Itália após seis anos de serviço aos pobres numa favela da minha
própria cidade. Convenci-me de que não poderia entregar-me por completo se
ficasse na minha terra… as fronteiras da minha actividade pareciam-me demasiado
apertadas… Compreendi bem depressa que se pode servir e amar em qualquer lugar,
mas, entretanto, já me encontrava na África e sentia que fora Deus a levar-me
para lá – e foi lá que fiquei, com alegria e com gratidão. Partira na decisão
de «proclamar o Evangelho com a vida», a exemplo de Charles de Foucauld, que
tinha incendiado a minha vida.
Passados trinta e três anos, continuo a proclamar o Evangelho apenas com a
minha forma de vida e anseio por continuar a proclamá-lo assim até ao fim. É
esta a minha motivação de base, juntamente com a paixão invencível pela pessoa
ferida e menosprezada inocentemente, além da sua raça, da sua cultura e da sua
fé. Procuro viver com respeito extremo por aqueles que Deus me deu. Até onde
foi possível, assumi o seu estilo de vida. Vivo muito sobriamente em termos de
habitação, alimentação, meios de transporte e vestuário. Renunciei
espontaneamente aos costumes ocidentais. Tenho procurado dialogar com todos.
Tenho oferecido carinho, amor, fidelidade e paixão. Que o Senhor me perdoe se
estou a usar palavras demasiado grandes.
Vivo à espera de Deus
Praticamente, vivi sempre entre o povo da Somália; a princípio com os do
Nordeste do Quénia; depois com os da Somália propriamente dita. Vivo num mundo
que é rigorosamente muçulmano. Não há lá cristão algum com quem eu possa
conviver. Duas vezes por ano, pelo Natal e pela Páscoa, o bispo de Jibuti vem
celebrar a Eucaristia para mim e comigo.
Vivo sozinha porque as minhas colegas desta caminhada, que tal como os
pobres fizeram da minha vida um paraíso na terra durante os meus dezassete anos
de deserto, se dispersaram na altura em que fui obrigada a sair do Quénia.
Aconteceu em 1984. O Governo do Quénia tentou perpetrar um genocídio contra uma
tribo de nómadas do deserto. Era para eliminar cinquenta mil pessoas.
Conseguiram matar mil. Mas eu consegui impedir que a chacina avançasse e se
concretizasse. Por esta razão, fui deportada um ano mais tarde. Na altura
daquela chacina, fui presa e apresentada a tribunal marcial… As autoridades
disseram-me que me tinham feito duas emboscadas, a que miraculosamente
escapara, mas que não teria essa sorte à terceira vez…
Posso afirmar que, durante a minha já longa existência, eu verifiquei
várias vezes que não há mal que não venha ao de cima, nem há verdade que não
venha a ser descoberta. O que importa é continuar a lutar como se a verdade já
tenha vencido, os abusos não nos tenham tocado e o mal não tenha triunfado. Um
belo dia, o bem haverá de brilhar. Peçamos a Deus a força de saber esperar,
porque poderá tratar-se de uma longa espera… que poderá durar até depois da
nossa morte. Eu vivo à espera de Deus e compreendo que me pesa menos que a
outros à espera pelas coisas humanas. Vivo intimamente integrada no seio dos
pobres, dos doentes, daqueles que ninguém ama.
O meu primeiro amor
Mas o meu primeiro amor foram os tuberculosos, as pessoas mais abandonadas,
mais rejeitadas, mais recusadas naquele canto do mundo. O que mais rasgava o
meu coração era o seu abandono, o seu sofrimento, que desconhecia qualquer tipo
de conforto. Eu nada sabia de medicina. Comecei a levar-lhes a água das chuvas
que ia recolhendo do telhado da bela casinha que o Governo me atribuíra na
qualidade de docente da escola secundária. Levava os contentores cheios,
esvaziava os deles da água salgadíssima dos poços de Wajir, e voltava a
enchê-los com água doce. Eles faziam-me sinais de ordens, parecendo perturbados
com a falta de jeito daquela jovenzinha branca de cuja presença pareciam querer
ver-se livres o mais rapidamente possível.
Tudo me andava ao contrário naquela altura. Eu era jovem e, portanto, não
era digna nem de ser ouvida nem de ser respeitada. Era branca e, portanto,
desprezada por aquela raça que se considerava superior a todas as outras. Era
cristã e, portanto, rejeitada e temida. Todos estavam então convencidos de que
eu viera fazer proselitismo. E para cúmulo dos meus males, não era casada,
coisa absurda naquele mundo em que o celibato não existe e não é um valor para
ninguém.
Comecei logo a estudá-los, a observá-los, pois que estava todos os dias com
eles, prestava-lhes serviço de joelhos, estava ao lado deles quando pioravam e
não havia quem se importasse com eles, os olhasse nos olhos, ou lhes desse
coragem… Passados alguns anos, todo o doente consciente do fim da sua vida só
me queria a seu lado para morrer com o sentimento de que era amado.
Durante cinco anos, eles tinham-nos atirado à cara que jamais iríamos para
o céu por não dizermos a fórmula de fé muçulmana «Não há Deus senão Deus e
Maomé é o Seu profeta». Mas depois deu-se um episódio grave que pôs em risco a
nossa vida e então o povo começou a dizer que certamente também nós entraríamos
no paraíso. E depois começámos a ser apontadas como exemplo a seguir. O
primeiro foi um velho chefe que gostava muito de nós… «Nós, muçulmanos,
possuímos a fé, e vós possuís o amor», disse ele um dia. E foi como que a
altura do grande descongelamento. As pessoas começaram a dizer cada vez mais
que deveriam fazer como nós, que deveriam aprender a cuidar dos outros, em
especial os mais doentes, os mais abandonados…
Só o amor tem sentido
A minha vida tem passado por tantos e tantos perigos; arrisquei-me a morrer
tantas e tantas vezes. Vivi anos no meio da guerra. Vivi na carne dos meus,
daqueles que eu amava, e portanto na minha própria carne, a malvadez do ser
humano, a sua perversidade, a sua crueldade, a sua iniquidade. E cheguei a uma
convicção inquebrantável, a de que só o amor conta. Só o amor tem sentido; só o
amor liberta o homem de tudo aquilo que o escraviza. Só o amor nos faz
respirar, crescer, florir; só o amor faz com que não tenhamos medo de nada, que
nós apresentemos a face ainda não ferida ao escárnio e às bofetadas dos que nos
batem porque não sabem o que fazem; que nós arriscamos a vida pelos nossos
amigos, que em tudo temos fé, tudo suportamos e tudo esperamos….
É então que a nossa vida se torna digna de ser vivida. É ainda então que a
nossa vida se transforma em beleza, graça, bênção. É também então que a nossa
vida se torna uma felicidade até mesmo no sofrimento, porque nós vivemos na
nossa carne a beleza do viver e do morrer.
Sinto vivamente que todos nós somos chamados ao amor… E eu gosto de pensar
assim: só há uma tristeza neste mundo, a de não amar.






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