Padre José Luís Rodrigues| Opinião | Diário de Notícias da
Madeira | 11 de maio de 2014
Se Nossa Senhora fosse
menos olhada como Mãe de Jesus e mais como a discípula ou a apostola de Jesus,
dar-se-ia uma revolução na Igreja Católica e quiçá no mundo cristão.
Explico-me. Maria de
Nazaré foi sempre considerada ao longo dos séculos como a Mãe Imaculada, a
mulher submissa à virgindade e endeusada no papel de Mãe, coisa que os textos
bíblicos facilmente desmentem e falam-nos de uma mulher interventora,
discípula, que antes de ser Mãe, ouve a Palavra de Deus e a coloca em prática
de forma sublime e exemplar. Eis o papel do discípulo/a, aquele ou aquela que
se coloca aos pés de Jesus para escutar a Sua Palavra e depois a leva aos
outros com entusiamo e alegria.
Maria trata-se de uma
mulher activa, que vai ao encontro dos outros e resiste de pé firme junto da
cruz. Antes de ser apenas a Mãe, é também a discípula que escuta, mas avança na
entrega total à causa de Jesus.
Se esta visão sobre Maria
de Nazaré fosse mais rezada, celebrada pelo mundo cristão, as mulheres teriam o
seu verdadeiro lugar nas igrejas e estariam em plena igualdade face aos homens.
Não haveria acepção de pessoas nem estaria o poder apenas reservado à
masculidade, mas a todos sem execepção. Os sacramentos seriam para todos,
especialmente, o Sacramento da Ordem que continua vedado às mulheres. Esta
seria uma reviravolta enorme no pensamento e na mentalidade dos cristãos.
O que se diz ou prega
sobre Maria de Nazaré reveste-se de uma desumanidade impressionante. A
iconografia mariana é disso um exemplo. As imagens que se contemplam de Maria
de Nazaré revelam uma mulher assexuada, nada próxima da condição do ser mulher.
Um rosto sempre tristonho, cabisbaixo e de mãos sempre voltadas para o céu como
se o inferno estivesse aí junto aos pés. Esta visão do ser mulher em nada tem
que ver com a condição feminina e não espelha a dignidade que esta condição
expressa de riqueza e diversidade. A feminilidade ainda continua a ser um
perigo para as igrejas profundamente masculinizadas que a tradição máscula
arquitectou baseada na imbecilidade de se dizer que é a vontade de Deus. A
divinização de tais argumentos é um sacrilégio e uma ofensa ao Deus da
universalidade bem patente no Evangelho da Cananeia e no diálogo extraordinário
de Jesus com a Samaritana junto ao poço de Jacob.
Maria de Nazaré, mesmo
sendo Mãe, é a Serva de Deus, que participa do plano libertador que Deus quer
levar adiante a favor da humanidade inteira. É Ela que se levanta como profeta
ou discípula ou apostola para dizer «NÃO» a tudo o que se opõe a esse plano
libertador de Deus. O Seu «SIM» não é uma manifestação submissa, mas
compromisso activo, militante nessa obra de Deus. Ela é a Maria do povo, um
povo concreto, a mulher do nosso chão, a companheira que faz caminho connosco
nas veredas deste mundo e que em cada esquina nos toca com o Seu abraço de
amor. O Evangelho prova-nos que esta mulher é a Maria pobre, que vem do meio do
povo, da aldeia, da cidade… Ora integrada no sangue que escorre nas
encruzilhadas dos caminhos ora desprezada por ser mulher e por manifestar a
diferença, exactamente, como acontece ainda hoje a qualquer mulher que assuma
activamente a sua condição feminina e que se preze porque quer ser diferente do
status machista que a sociedade convencionou.
No canto de Maria «O
Magnificat», acolhemos Maria como a mulher pobre vergada ao carinho dos pobres
desta vida, que procuram Deus e gritam por justiça. É desta mulher que se
aprende o que é a fé, a escuta, a reflexão e a capacidade de decidir, mesmo que
muitas vezes a compreensão das coisas não seja assim tão clara e tão óbvia como
Ela desejaria.
Melhor seria para termos
uma humanidade mais justa, fraterna e amiga dentro das igrejas cristãs, se
Maria de Nazaré fosse olhada como a discípula ou a apostola e menos como a Mãe,
que Jesus desvaloriza frequentemente em muitos momentos do Evangelho. E mais,
Maria não se valeu da sua condição de Mãe para contrariar o Filho e fez-se
discípula. E isso, nenhum eclesiástico pode contrariar.


Comentários
Enviar um comentário