Amor Conjugal!: «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»
«Gosto da interpretação do padre francês Leon Paillot, que diz que a palavra jugo está na origem da palavra conjugal, como uma união conjugal em que o homem e a mulher olham e vão juntos na mesma direção.»
Reflexão de Raymond Gravel, padre da diocese de Joliette, Canadá,
publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel.
Tradução é de André Langer.
No início das férias de verão [no Hemisfério
Norte], é bom ouvir as palavras do Jesus de Mateus: “Vinde a mim todos vós que
estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei
descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mt 11, 28-29).
Após um ano bem ocupado. Depois de limpar todos os tipos
de críticas em relação ao nosso compromisso em nome do Evangelho, faz bem
saber-se compreendido pelo Cristo ressuscitado que nos convida a tomar o seu
jugo, porque o seu jugo é fácil de carregar e seu fardo é leve.
O
jugo faz parte da junta de bois que puxam uma carga. Pessoalmente, gosto da
interpretação do padre francês Leon Paillot, que diz que a palavra jugo está na
origem da palavra conjugal, como uma união conjugal em que o homem e a mulher
olham e vão juntos na mesma direção. É mais fácil em dois do que sozinho.
É,
portanto, para uma relação conjugal que o Cristo do Evangelho nos convida;
propõe-nos um amor conjugal, com ele e entre nós. Para isso, precisamos
praticar a mansidão e a humildade de coração: “Tomai sobre vós o meu jugo e
aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis
descanso” (Mt 11,29).
1. Quem pode compreender?
O convite é dirigido a todos, sem exceção, mas
somente os pequeninos o compreendem e o acolhem verdadeiramente: “Ó Pai...
escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”
(Mt 11,25). Por quê? Os pequeninos não são as crianças, mas os pobres, os humildes,
os marginalizados e os abandonados. Eles são os primeiros que podem acolher uma
mensagem de libertação e esperança, simplesmente, porque eles têm necessidade
dela. Na vida, é preciso ter fome para compreender os famintos; é preciso ter
sede para apreciar a água que sacia. É preciso ter sofrido injustiça para
desejar justiça; e é preciso ter vivido a rejeição, a condenação e a exclusão
para acolher o outro, respeitá-lo em sua dignidade e caminhar com ele.
É mais difícil para os sábios e entendidos que
não têm necessidade de liberdade: eles sabem tudo e eles pensam que são
superiores aos outros. Eles não precisam dos outros. Além disso, eles impõem
aos outros suas doutrinas e verdades, fardos que eles mesmos não levantam nem
com a ponta do dedo. Eles estão trancados em seu conhecimento e na sua moral, e
não se preocupam com a misericórdia, o perdão e o amor. No tempo do evangelho,
os sábios e entendidos eram os escribas, os fariseus, os sacerdotes e os
doutores da Lei que controlavam Deus e exploravam os pobres. Infelizmente,
ainda encontramos muitos, em nossos dias, na nossa Igreja, que se parecem com
eles.
Mas atenção! O Cristo de Mateus não nos
convida à ignorância e à mediocridade. Um jovem Testemunha de Jeováque eu
convidei para fazer um curso de exegese bíblica na Universidade de Montreal,
respondeu-me: Não! Eu não preciso disso; a Bíblia é suficiente para mim, e me
citou este versículo de Mateus: “Ó Pai... escondeste estas coisas aos sábios e
entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25). Infelizmente, ele não
tinha compreendido o evangelho de Mateus! Uma interpretação semelhante
alimentou a crítica ao cristianismo no século passado. O filósofo alemão
Nietzsche escreveu: “A visão cristã do homem é uma moral de escravos que exalta
o que beneficia os mais fracos, os doentes e os fracassados. A consciência do
pecado danifica no homem tudo o que saudável, bonito e nobre. Ao proteger os
indivíduos enfermos ou desnaturados, o cristianismo contribui para manter a
espécie humana em seu nível mais baixo”.
É difícil de aceitar, mas é o culto da
ignorância e da mediocridade propagado por alguns crentes fundamentalistas que
atiça essas críticas. Penso que devemos distinguir determinadas realidades:
devemos diferenciar entre aqueles que ignoram uma coisa porque não tiveram a
oportunidade de aprender e aqueles que ignoram uma coisa porque se recusam a
aprender... assim como devemos distinguir a humildade da humilhação: a
humildade é uma virtude e a humilhação, uma abominação. A pobreza evangélica
não é sinônimo de mediocridade, de relativismo ou de desleixo. É exatamente o
contrário: a pobreza evangélica é a característica daqueles e daquelas que não
se acham os detentores da verdade, que estão abertos à alteridade e estão
ávidos para aprender e conhecer. Esses pobres têm o favor de Deus, porque são
muitas vezes oprimidos, rejeitados e explorados pelos ricos e os poderosos que
pensam que possuem o conhecimento e o poder.
2. Onde nós nos encaixamos?
O Cristo do Evangelho de Mateus volta-se para
aqueles e aquelas que são oprimidos pelo fardo do legalismo religioso: “Vinde a
mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e
eu vos darei descanso” (Mt 11,28). O jugo, no evangelho, é a lei oral e escrita
e o peso do jugo designa a observância estrita e rigorosa desta lei.
Basicamente, a regra, a lei foi inventada pelo homem para ajudá-lo a viver,
para se libertar. Por outro lado, se a lei é muito restritiva, opressiva e
serviliza, então ela não liberta mais; devemos nos afastar dela e aboli-la. A
lei deve estar a serviço da pessoa humana e não a pessoa humana a serviço da
lei.
É o que o Cristo do Evangelho veio nos
ensinar. No lugar do legalismo religioso do seu tempo, ele nos propõe uma
interpretação libertadora da lei, centrada no amor: “Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis
descanso” (Mt 11,29). No capítulo seguinte, Mt 12,1-8, Jesus mostra que a
pessoa humana é mais importante do que a lei e inclusive a lei do sábado: ele defende
seus discípulos que ousaram arrancar espigas de trigo no sábado, porque estavam
com fome; citando o profeta Oséias, ele acrescenta: “É misericórdia que eu
quero e não sacrifício” (Os 6,6).
Tornar-se discípulos de Cristo é encontrar
repouso, porque o único fardo, o único jugo que Cristo coloca sobre seus
discípulos, é o do Amor. Mas quando você realmente ama, tudo se torna fácil de
transportar. E aqui temos um belo exemplo: “Um certo jesuíta contou que em
Ruanda, durante a guerra civil, viu uma menina ao longe que escalava
dolorosamente uma montanha, carregando um pacote pesado e desajeitado. Quando
chegou perto dela, ele percebeu com emoção que ela transportava o corpo de um
menino gravemente ferido. O jesuíta disse à menina: é um fardo muito pesado que
você carrega! E a menina respondeu: Não, senhor, não é um fardo, é meu
irmãozinho”.
Concluindo, para os sábios e entendidos de
hoje, que têm facilidade para julgar e são rápidos para condenar, mas que são
incapazes de viver o Evangelho de hoje que nos convida a um Amor conjugal com
Cristo e entre nós, eu proponho esta reflexão do século V, Santo Astério de
Amasya, que disse: “Vós que sois tão duros e incapazes de docilidade, aprendei
a bondade com o vosso Criador e não sejais para os vossos companheiros de
jornada juízes amargos e árbitros, esperando que venha aquele que revelará a
dureza do coração e vos concederá, o mestre todo-poderoso, a cada um o seu
lugar no além. Não façais julgamentos severos para não serdes julgados do mesmo
modo e transpassados pelas palavras da vossa própria boca, como dentes
afiados...”.

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