Quais
são as características da Igreja segundo Francisco? Apresentamos um pequeno
decálogo.
Victor Codina, teólogo jesuíta, em Religión Digital, 20-07-2014. Tradução: André Langer.
1. De uma Igreja poderosa, distante, fria, endurecida,
medrosa, reacionária, da qual as pessoas se afastam e abandonam... a uma Igreja
pobre, simples, próxima, acolhedora, sincera, realista, que promove a cultura
do encontro e da ternura.
O novo Bispo de Roma, Francisco, reconhece-se pecador e pede orações; recorda que a Igreja necessita de uma conversão e uma contínua reforma evangélica, uma reforma à moda Francisco de Assis.
O novo Bispo de Roma, Francisco, reconhece-se pecador e pede orações; recorda que a Igreja necessita de uma conversão e uma contínua reforma evangélica, uma reforma à moda Francisco de Assis.
2. De uma Igreja moralista obsessivamente preocupada com o
aborto, com o controle de natalidade, com o casamento homossexual... a uma
Igreja que vai ao essencial, que se centra em Jesus Cristo contemplado e
adorado, recupera o Evangelho, anuncia a grande Boa Notícia da salvação em
Cristo, pois Jesus é o único que atrai; quer difundir o cheiro do Evangelho de
Jesus, pede aos jovens que não se envergonhem de ser cristãos, que coloquem
Jesus Cristo no centro das suas vidas, a fé em Jesus Cristo é coisa séria, não
uma fé descafeinada. Não pode ser um cristianismo de meras devoções, sem Jesus.
O Papa, assim como Pedro, não tem ouro nem prata, mas traz o mais valioso:
Jesus Cristo, Ele é a única riqueza. Mas um Jesus Cristo morto e ressuscitado;
não se deve ficar no sepulcro, não se deve ser cristão de quaresma sem
Páscoa... A alegria do Evangelho enche o coração de todos os que se encontram
com Jesus.
3. De uma Igreja centrada no pecado e que fez do sacramento
da confissão uma tortura e converteu o acesso aos sacramentos em uma alfândega
inquisitorial... a uma Igreja da misericórdia de Deus, da ternura, da
compaixão, com entranhas maternais, que reflete a misericórdia do Pai, uma
Igreja sobretudo hospital de campanha que cura feridas de emergência, que cuida
da criação, na qual os sacramentos são para todos, não só para os perfeitos. A
convocação de um Sínodo sobre a Família e o questionário que enviou e que trata
de temas pastorais urgentes como a situação dos divorciados recasados, a união
de homossexuais, as relações pré-matrimoniais, o controle de natalidade e o
magistério sobre a moral sexual... indica que há um desejo de ampliar o campo
da misericórdia e estendê-lo a todas as situações conflitivas.
4. De uma Igreja centrada nela mesma, autorrefencial,
preocupada com o proselitismo... a uma Igreja dos pobres preocupada sobretudo
com a dor e o sofrimento humano, a guerra, a fome, o desemprego juvenil, os
anciãos, onde os últimos sejam os primeiros, onde não se possa servir a Deus e
ao dinheiro; uma Igreja profética, livre em relação aos poderes deste mundo; na
Evangelii Gaudium afirma que o atual sistema econômico baseado na idolatria do
dinheiro é injusto, pois enriquece alguns poucos e converte uma grande maioria
em massas sobrantes, é um sistema excludente que mata; por isso, lança um “não”
a uma economia de exclusão, um “não” à nova idolatria do dinheiro, um “não” ao
dinheiro que governa em vez de servir, um “não” à desigualdade que gera
violência. Em Lampedusa, critica a atitude dos países ricos em relação aos
emigrantes africanos e asiáticos, muitos dos quais morrem na tentativa de
chegar às costas europeias: é uma vergonha, vivemos na bolha do consumo e com o
coração anestesiado diante do sofrimento alheio; no Brasil, diz aos jovens que
arrumem confusão e sejam revolucionários em busca de um mundo melhor e mais
justo; afirma que as confissões religiosas do mundo inteiro devem unir-se para
resolver o problema da fome e da falta de educação...
5. De uma Igreja fechada em si mesma, relíquia do passado,
com tendência a olhar para o próprio umbigo, com sabor de estufa, que espera
que os outros venham até ela... a uma Igreja que sai às ruas, “rueia a fé”, vai
às margens sociais e existenciais, às fronteiras, aos que estão longe, mesmo
sob o risco de sofrer acidentes; não teme uma Igreja minoritária e pequena,
contanto que seja semente e fermento, que abra caminhos novos, que vá sem medo
para servir, uma Igreja ao ar livre, que sai às sarjetas do mundo, uma Igreja
em estado de missão.
6. De uma Igreja que discrimina os que pensam diferente, os
diversos, os outros... a uma Igreja que respeita os que seguem sua própria
consciência, as outras religiões, os ateus, os homossexuais, dialoga com não
crentes, com judeus, nossos irmãos maiores, uma Igreja de portas abertas, atenta
aos novos sinais dos tempos.
7. De uma Igreja com tendência restauracionista e que tem
saudades do passado... a uma Igreja que considera que o Vaticano II é
irreversível, que é preciso implantar suas intuições sobre a colegialidade,
evitar o centralismo e o autoritarismo no governo, caminhar em meio às
diferenças. O próprio título de Bispo de Roma é uma confirmação da
colegialidade episcopal, da colegialidade com seus irmãos bispos. O Papa
reconhece que não tem resposta para todas as questões, que é preciso reformar o
papado, que é preciso dar responsabilidades aos leigos, dar maior protagonismo
à mulher, desclericalizar a Igreja, pois o clericalismo não é cristão.
8. De uma Igreja com pastores fechados em suas paróquias,
clérigos de despacho, que buscam fazer carreira, que estão no laboratório e às
vezes acabam sendo colecionadores de antiguidades, com bispos que sempre estão
nos aeroportos... a pastores que cheiram a ovelha, que caminham na frente,
atrás e no meio do povo; o carreirismo é a lepra do papado, a cúria é
vaticanocêntrica e facilmente transfere sua visão ao mundo.
9. De uma Igreja envelhecida, triste, com gente com cara de
cadáver ou com sorriso de aeromoça... a uma Igreja jovem e alegre, fermento na
sociedade, com a alegria e a liberdade do Espírito, com luz e transparência,
sem nada a ocultar, com flores na janela e cheiro de lar, onde os jovens sejam
protagonistas, pois são como a menina dos olhos da Igreja.
10. De uma Igreja ONG piedosa, clerical, machista,
monolítica, narcisista... a uma Igreja Casa e Povo de Deus, mesa mais que
estrado, que respeita a diversidade, onde os leigos, as mulheres, as famílias
jogam um papel relevante. É a Igreja de Aparecida, de discípulos e missionários
para que os nossos povos em Cristo tenham vida, uma casa eclesial onde reina a
alegria.

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