(seminaristas com clergyman)
Na revista Ave Maria, do último mês de junho, o Pe. Luís Erlin, cmf, apresenta
um tema que nos desperta a atenção. Ele regista uma pesquisa feita nos Estados
Unidos sobre a aceitação do Papa Francisco naquele País. O resultado é, no
mínimo, surpreendente.
De acordo com a pesquisa, aquelas pessoas
que têm menos contacto com a Igreja católica, como ateus e pessoas de outras
religiões, sobretudo não cristãs, “veem o papa como um grande líder, alguém que
merece respeito, e acreditam na benevolência de suas intenções”.
Os católicos não praticantes percebem um
sinal de esperança e acreditam na possibilidade de mudanças mais profundas na
Igreja. Muitas pessoas, inclusive, dizem que voltaram a frequentar a igreja e
participar das celebrações. Os católicos ‘praticantes’ estão muito contentes
com o Papa.
A gente sabe que uma parte do clero o vê
com certa desconfiança. Isso é muito forte na Itália, sobretudo em Roma. Mas,
de modo geral, em todos os países – e também nos Estados Unidos, o clero
“demonstra esperança” e está muito feliz com o jeito e o testemunho de
Francisco.
E aí vem a surpresa. “O sector em que o
Papa Francisco mais incomoda, segundo a pesquisa, é justamente aquele em que
menos se esperava: os seminários”. A maioria dos seminaristas dos Estados Unidos
vê com desconfiança algumas atitudes e pronunciamentos do Papa. Isso se dá de
modo especial em relação ao clericalismo, ao carreirismo, à veemência com que o
Papa exorta “a não viverem o sacerdócio como um status social ou religioso”.
“Alguns seminaristas confessaram ter medo do futuro da Igreja”. Estão
preocupados com o futuro da função sacerdotal.
Embora a pesquisa tenha sido realizada em
um país específico, penso que o resultado não difere muito de outras regiões do
mundo. Inclusive do Brasil. Creio que entre nós a grande maioria não vê desse
modo. Mas há um número significativo de seminaristas dentro desse perfil. E não
é difícil explicar o porquê.
Quando estava na CNBB, atuando justamente
no então Setor de Vocações e Ministérios, nosso companheiro José Lisboa, a quem
muito prezo e admiro, demonstrava uma enorme preocupação com certos tipos de
‘propaganda’ vocacional. Deparávamos com inúmeros cartazes, folders, páginas na
internet de campanhas vocacionais. Uma grande parte desse material trazia fotos
de casas bonitas, ou até luxuosas, quartos confortáveis, áreas de desporto,
piscinas etc. Tudo para ‘atrair’ candidatos. O Lisboa sempre comentava: se
alguém entra para um seminário ou casa de formação por causa desses atrativos,
como esperar desse candidato o desejo de servir, a gratuidade, o ardor
missionário? Será que aceitará trabalhar numa periferia, entre excluídos ou num
país de missão? Terá a mística do serviço ao próximo, do lava-pés? Quase
impossível!
Outro elemento que pesa bastante são os padres
mediáticos. Pessoas que fazem sucesso na TV, no mercado da música, nas redes
sociais. A própria comunicação social coloca esses padres como modelo e
referência. Nunca aqueles que estão nas periferias, nas áreas de missão, nas
paróquias mais simples. Muitos jovens procuram o presbiterato motivados por
essa visibilidade, esse ‘sucesso’. Aí, entra fatalmente o carreirismo, o
estrelismo, o uso da religião para se promover. Não é a busca de um Deus a quem
quero servir, mas o servir-se de Deus e da fé unicamente para a realização
pessoal.
Há ainda a questão no neoconservadorismo.
Não são poucos os que sonham com a volta de uma Igreja triunfalista, piramidal,
clerical, marcada pela ostentação e pelo luxo. Tempos atrás, em nossos
encontros de presbíteros, tanto em âmbito local como nacional, era marcante a
presença das livrarias e editoras, com muito material de estudo e
aprofundamento. Atualmente os livros são ofuscados por uma avalanche de
paramentos coloridos, vestes caras e finas, objetos dourados, verdadeiras boutiques
do ‘sagrado’. É o domínio da estética e do luxo.
Embora a batina e o clergyman sejam vestes
próprias para os clérigos, muitos seminaristas, antes mesmo da Teologia, já
querem usá-los. E usam! Será mesmo o desejo de se identificar como um servidor
do povo de Deus? Sinal de despojamento? Ou vaidade e desejo de status?
Tudo isso contrasta muito com o jeito de
Jesus: pobre, simples, humilde, se misturando com pobres e pecadores. Usando a
roupa que o povo usava. Desprezando qualquer tipo de grandeza e de poder.
Fazendo da misericórdia e do serviço a sua IDENTIDADE. Esse é também o jeito de
Francisco: “o verdadeiro poder é o serviço”. Isso agrada e faz bem a muitos.
Mas também não deixa de incomodar a alguns…
Pe. José Antonio de Oliveira | zeantonioliveira@hotmail.com in www.arqmariana.com.br/medo-do-papa-francisco | 9 julho, 2014
Para ler mais:
Quem tem "medo" do Papa Francisco?,
artigo de P.e Luís Erlin, cmf, in revista Ave Maria, junho de 2014
Os impostores do Ministério da Ordem. Quem tem medo do Papa Franscisco,
artigo de José Lisboa Moreira de Oliveira, in Adital

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