Paulo VI, Giovanni Battista Montini, foi um grande papa, um
verdadeiro mártir, sem derramamento de sangue. Nasceu em Concesio (Brescia, Itália) no 27 de setembro de
1897. Seu pai, George, era um proeminente advogado e um católico fervoroso. Foi
diretor do jornal católico ‘Il Cittadino di Brescia’ e deputado três vezes no
Partido Popular Italiano fundado pelo Pe. Luigi Sturzo. Giovanni Battista assim
escreveu sobre ele: "Devo ao meu pai os exemplos de coragem, a urgência de
não entregar-me passivamente ao mal, o juramento de nunca preferir a vida em
vez das razões da vida. O seu ensinamento pode ser resumido em uma palavra: ser
uma testemunha”.
Até sua mãe Judite Alghisi foi uma mulher maravilhosa. Em
sua morte, ele escreveu: "Tão sábia, quanto piedosa, tão solícita, quanto
afetuosa. Como estava preocupada com o bem de todos nós e de cada um. Que
sutileza de sentimento, de palavras, de trato! Quiseste que a casula da minha
primeira missa fosse tirada do seu vestido de casamento! E apagaste de repente,
enquanto, das páginas do Bossuet fazias a tua meditação diária!”.
No Testamento escreveu assim sobre seus pais: "Me sinto
na obrigação de agradecer e de abençoar aqueles que foram instrumentos para mim
da Tua vida, ó Senhor, me destes com generosidade: aqueles que me introduziram
na vida (Oh! Sejam abençoados os meus digníssimos pais!)”. Ambos os pais
morreram em 1943, há poucos meses de diferença um do outro.
Podemos supor que toda a vida de Paulo VI foi o resultado da
formação, afeto e exemplo recebidos na família.
Estudou no colégio dos jesuítas e frequentou o Oratório de
Santa Maria della Pace. Em 1916 entrou como externo, por causa da precária
saúde, no seminário de Brescia. Em 1919, fez parte da Federação de
Universitários Católicos Italianos (FUCI). Em 1920, foi ordenado sacerdote. No
recordatório da primeira Missa escreveu: "Concede, ó meu Deus, que todas
as mentes estejam unidas na Verdade e todos os corações na caridade”. Foi o
programa da sua vida. Em 1923 foi enviado à Nunciatura Apostólica de Varsóvia
(Polónia). Depois de um ano, retornou a Roma. Apesar dos compromissos,
conseguiu três graduações: Filosofia, Direito Canônico e Direito Civil. Em 1925
foi nomeado Assistente eclesiástico nacional da FUCI, cargo que ocupou até
1933. Do seu ensinamento e orientação saiu a melhor classe política italiana.
Em 1937, foi nomeado Substituto da Secretaria de Estado, a
serviço do Card. Eugenio Pacelli, que se tornou Papa em 1939 sob o nome de Pio
XII. Em 1954, foi nomeado Arcebispo de Milão (Itália); Em 1958, o Papa João
XXIII o nomeou Cardeal. Para a ocasião, o Papa lhe escreveu estas palavras:
"Cumpriremos juntos o sacramentum voluntatis Christi de São Paulo (Ef, 1,
9-10). Ele exige a adoração da cruz, mas nos reserva, ao lado dela, uma fonte
de consolações inefáveis também para esta vida, enquanto nos durar a vida e o
mandato pastoral. Cara e venerada Excelência, não posso dizer mais. Mas o que
falta a um discurso mais prolongado, Ela o coloca no coração”. Dois papas, dois
santos.
Com a morte do Papa João XXIII (3 de Junho 1963) ele foi
eleito Papa em seguida, no dia 21 de junho.
Sua primeira preocupação foi a de continuar o Concílio.
Durante este tempo realizou a histórica viagem à Terra Santa (4-6 de janeiro de
1964). Mais tarde, fez outras fora da Itália: Índia, Nova Iorque (Nações
Unidas), Fátima, Turquia, onde trocou o abraço comovente com o Patriarca
Atenágoras, Bogotá, Genebra (Suíça), Uganda, Oceania.
O período pós-conciliar foi muito difícil para a Igreja
Católica. Paulo VI usou todas as suas energias de prudência e discernimento
para conduzir a Igreja evitando cismas e fortalecendo a verdade revelada. Suas
encíclicas são emblemáticas: Ecclesiam Suam (1964), Mense Maio (1965),
Mysterium Fidei (1965), Christi Mater (1966), Populorum Progressio (1967),
Caelibatus Sacerdotalis (1967), Humanae Vitae (1968). Quanto as exortações
apostólicas, as mais importantes são: Evangelii Nuntiandi (1975), Marialis
Cultus (1974).
O documento mais discutido foi certamente Humanae Vitae. Ao
filósofo e amigo Jean Guitton motivou sua decisão: "Nós carregamos o peso
da humanidade presente e futura. É necessário compreender que, se o homem
aceita dissociar no amor o prazer da procriação, se, portanto, pode pegar o
prazer como se pega uma xícara de café, se a mulher, arrumando um aparelho ou
tomando um ‘remédio’ se torna para o homem um objeto, um instrumento, fora da
espontaneidade, das ternuras e das delicadezas do amor, então, não se
compreende porquê esta maneira de proceder (permitida no matrimônio) seja
proibida fora. Se a Igreja de Cristo, que nós representamos nesta terra,
deixasse de subordinar o prazer ao amor e o amor à procriação, favoreceria uma
saturação erótica da humanidade, que teria como lei somente o prazer” (Jean
Guitton, Paulo VI secreto).
O magistério de Paulo VI é de grandíssima atualidade ainda
hoje. Falou e escreveu sobre vários problemas que afligiam a humanidade
naqueles anos. Magistério dirigido ao mundo, especialmente aos homens de
cultura, aos políticos, às Nações Unidas. Expressou-se sobre problemas sociais
(Populorum Progressio), sobre a paternidade responsável (Humanae Vitae), sobre
a vida interna da Igreja (Sacerdotali Caelibatus), sobre questões relacionadas
com a teologia e a moral.
Entre as muitas intervenções gostaria de citar apenas três.
Um sobre a Igreja (Audiência Geral, 16 de novembro de 1966):
"É necessário que a Igreja seja construída; ela é sempre um edifício
incompleto... Não se pode demolir a Igreja de ontem para construir uma nova
hoje; não é possível esquecer e condenar o que a Igreja até agora ensinou com
autoridade para colocar no lugar da doutrina segura, teorias e concepções
novas, pessoais e arbitrárias; não é possível imitar as opiniões contemporâneas
mutáveis e profanas do nosso tempo, o critério de pensar e de ação da comunidade
eclesiástica... Não é possível resolver as questões difíceis ou enfraquecer as
leis exigentes com adaptações historicistas para interpretações
subjetivas".
A segunda confissão: "O pecado é a nossa primeira e
mais grave desgraça, porque trunca a nossa relação com a vida verdadeira, que é
Deus, assim, a libertação do pecado é a primeira e indispensável fortuna nossa”
(Sexta-feira Santa, 20 de abril 1973). Mas, infelizmente: "Hoje é maior um
costume de secularização, às vezes mais que pagão, que cauteriza a consciência
moral, depois de ter apagado a consciência religiosa; o pecado, esta imensa
misteriosa repercussão em Deus da ação humana desordenada, não tem mais
consistência, não tem mais peso... Os momentos de uma confissão sincera estão
entre os mais doces, os mais reconfortantes, os mais decisivos da vida”
(Audiência geralmente, 1 de Março 1975).
O último sobre Nossa Senhora, Maria, caminho que nos conduz
a Cristo: “Se perguntarmos qual é o caminho central e direto nesse mundo que
nos leva à Cristo, a resposta é rápida e belíssima: este caminho é Maria...
temos que aproximar-nos de Maria, a cristífera, a portadora de Cristo no mundo”
(Audiência Geral, 21 de dezembro de 1966). Foi Paulo VI que no discurso de
encerramento da terceira sessão do Concílio, diante dos Bispos do mundo disse:
“Portanto, para a glória da Bem-Aventurada Virgem Maria, declaramos Maria
Santíssima Mãe da Igreja" (21 de novembro de 1964).
Paulo VI deixou-nos um "Pensamento sobre a morte."
É o canto do cisne. Apenas algumas expressões: "O cenário do mundo é um
projeto, ainda hoje incompreensível na sua maior parte, de um Deus Criador que
se chama o Pai nosso que está nos céus. Obrigado, ó Deus, obrigado e glória a
vós, ó Pai! Neste último olhar eu percebo que esta cena fascinante e
misteriosa, é um reflexo da primeira e única Luz ... um convite para a visão do
invisível Sol... o maior acontecimento para mim foi o encontro com Cristo, a
Vida... a morte é um progresso na comunhão dos Santos”.
Um acréscimo ao seu testamento espiritual, escreveu no dia
14 de Julho de 1973: “Desejo que os meus funerais sejam muito simples e não
desejo nem tumba especial e nenhum monumento. Algum sufrágio". E assim
aconteceu. A Igreja respeitou a sua vontade. Mas, agora, por justiça o proclama
beato.
Dia 6 de agosto é o aniversário da morte do Papa Paulo VI.
Será beatificado no próximo dia 19 de outubro.
(Trad. T.S.)
Vitaliano Mattioli, CRATO, 04 de Julho de 2014 (Zenit.org)

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