No contexto da Semana Nacional da Educação Cristã - de 27 de setembro a 5 de outubro -, subordinada ao tema "Educar na Alegria da Fé", evocamos o discurso que Bento XVI dirigiu na Basílica de São João de Latrão, em Roma, no dia 5 de junho de 2006, aos participantes da assembleia eclesial da diocese de Roma, que tinha por tema «A alegria da fé e a educação das novas gerações».
I. Descobrir a
beleza e a alegria da fé
Descobrir a beleza e a alegria da fé é um caminho que cada
nova geração deve percorrer pessoalmente, porque na fé é posto em jogo tudo o
que sentimos mais como nosso e que nos é mais íntimo, o nosso coração, a nossa
inteligência, a nossa liberdade, numa relação profundamente pessoal com o
Senhor que age dentro de nós.
1. Uma alegria
partilhada em Igreja
Mas a fé é, de igual modo radicalmente, acto e atitude
comunitária, é o "nós cremos" da Igreja. A alegria da fé é portanto uma
alegria que deve ser partilhada: como afirma o Apóstolo João "o
que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão
connosco... Escrevemo-vos estas coisas para que a vossa alegria seja completa"
(1 Jo 1, 3-4). Por isso, educar as novas gerações na fé é uma tarefa grande e
fundamental que envolve toda a comunidade cristã.
2. Tarefa
difícil
Queridos irmãos e irmãs, vós dais-vos pessoalmente conta de
como esta tarefa se tornou hoje em vários aspectos bastante difícil, mas
precisamente por isso é ainda mais importante e urgente do que nunca. Com
efeito, é possível detectar duas linhas de fundo da actual cultura
secularizada, entre si claramente interdependentes, que estimulam em direcção
contrária ao anúncio cristão e não podem deixar de ter uma incidência sobre
aqueles que estão maturando as próprias orientações e opções de vida.
a) Uma delas é aquele agnosticismo que é originado pela
redução da inteligência humana a simples razão calculadora e funcional e que
tende a sufocar o sentido religioso inscrito no fundo da nossa natureza.
b) A outra é aquele processo de relativização e de
desenraizamento que corrói os vínculos mais sagrados e os afectos mais
dignos do homem, com o resultado de fragilizar as pessoas e tornar precários e
instáveis os nossos relacionamentos recíprocos.
Precisamente nesta situação todos nós temos necessidade, e
sobretudo as nossas crianças, adolescentes e jovens têm necessidade, de viver a
fé como alegria, de saborear aquela serenidade profunda que nasce do encontro
com o Senhor.
II. A Fonte da
alegria: somos amados por Deus
Na Encíclica Deus
caritas est escrevi: "Nós cremos no amor de Deus deste modo pode o
cristão exprimir a opção fundamental da sua vida. No início do ser cristão não
há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento,
com uma Pessoa, que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, a orientação
decisiva" (n. 1).
A fonte da alegria cristã é esta certeza de sermos amados
por Deus, amados pessoalmente pelo nosso Criador, por Aquele que tem nas suas
mãos o universo inteiro e que ama cada um de nós e toda a grande família humana
com um amor apaixonado e fiel, um amor maior que as nossas infidelidades e
pecados, um amor que perdoa.
Este amor "é tão
grande que chega a virar Deus contra Si mesmo", como se vê de maneira
definitiva no mistério da Cruz: "Deus ama tanto o homem que, tendo-Se
feito Ele próprio homem, segue-o até à morte e, deste modo, reconcilia justiça
e amor" (Deus caritas est, 10).
III. Fazer a experiência da Igreja, como companhia de amigos
Queridos irmãos e irmãs, esta certeza e esta alegria de ser
amados por Deus deve tornar-se de qualquer forma palpável e concreta para cada
um de nós, e sobretudo para as jovens gerações que estão a entrar no mundo da
fé. Por outras palavras: Jesus disse que era o "caminho" que conduz
ao Pai, além de ser a "verdade" e a "vida" (cf. Jo 14,
5-7). Portanto, a pergunta é: como podem as nossas crianças e os nossos
jovens encontrar n'Ele, na prática e na existência, este caminho de salvação e
de alegria? ´
É precisamente esta a grande missão para a qual a Igreja
existe, como família de Deus e companhia de amigos na qual somos inseridos com
o Baptismo já desde pequeninos e na qual deve crescer a nossa fé e a alegria e
a certeza de sermos amados pelo Senhor.
Por conseguinte, é indispensável e é a tarefa confiada às
famílias cristãs, aos sacerdotes, aos catequistas, aos educadores, aos próprios
jovens em relação aos seus contemporâneos, às nossas paróquias, associações e
movimentos, finalmente a toda a comunidade diocesana que as novas gerações possam
fazer a experiência da Igreja como de uma companhia de amigos na qual
podem deveras confiar, próxima em todos os momentos e circunstâncias da vida,
quer elas sejam alegres e gratificantes quer difíceis e obscuras, uma companhia
que nunca nos abandonará nem sequer na hora da morte, porque tem em si a
promessa da eternidade.
A vós, queridas crianças e jovens, gostaria de pedir que
confieis por vossa vez na Igreja, que a ameis e que tenhais confiança nela,
porque nela está presente o Senhor e porque ela mais não procura do que o vosso
verdadeiro bem. Aquele que sabe que é amado sente-se por sua vez solicitado a
amar. Precisamente assim o Senhor, que nos amou primeiro, nos pede para pôr por
nossa vez no centro da nossa vida o amor por Ele e pelos homens que Ele amou.
IV. Educar
para o amor
1. O
cristianismo não cria obstáculos à alegria do amor
Especialmente os adolescentes e os jovens, que sentem vivo
o chamamento do amor dentro de si, têm necessidade de ser libertados do
preconceito difundido de que o cristianismo, com os seus mandamentos e as suas
proibições, coloca demasiados obstáculos à alegria do amor,
sobretudo que impede apreciar plenamente aquela felicidade que o homem e a
mulher encontram no seu amor recíproco.
Ao contrário, a fé e
a ética cristãs não querem sufocar o amor, mas torná-lo sadio, forte e
verdadeiramente livre: é precisamente este o sentido dos dez Mandamentos,
que não são uma série de "nãos", mas um grande "sim" ao
amor e à vida.
De facto, o amor humano tem necessidade de ser purificado,
de amadurecer e também de se superar a si mesmo, para poder tornar-se
plenamente humano, para ser princípio de uma alegria verdadeira e duradoura,
para responder portanto àquele pedido de eternidade que traz dentro de si e ao
qual não pode renunciar, se se trair a si mesmo. É este o motivo substancial
pelo qual o amor entre o homem e a mulher se só realiza plenamente no
matrimónio.
2. Não deixar de lado a grande questão do amor
Em toda a obra educativa, na formação do homem e do
cristão, não devemos portanto, por receio ou por embaraço, deixar de lado a grande
questão do amor: se o fizéssemos apresentaríamos um cristianismo desencarnado,
que não pode interessar seriamente o jovem que se abre à vida. Mas também
devemos introduzir a dimensão integral do amor cristão, onde amor a Deus e amor ao
homem estão indissoluvelmente unidos e onde o amor ao próximo é um compromisso
concreto como nunca.
3. Experiência
do amor, que se torna serviço ao próximo
O cristão não se contenta com palavras, e nem sequer com
ideologias enganadoras, mas vai ao encontro das necessidades do irmão pondo-se
verdadeiramente em jogo, sem se contentar com qualquer boa acção ocasional.
Propor às crianças e aos jovens experiências
práticas de serviço ao próximo mais necessitado faz portanto parte de uma
educação na fé plena e autêntica.
V. A questão
da Verdade: a razão e a fé
Juntamente com a necessidade de amar, o desejo da verdade
pertence à própria natureza do homem. Por isso, na educação das novas gerações,
a questão
da verdade certamente não pode ser evitada: ao contrário, deve ocupar
um espaço fundamental. Centrando a pergunta na verdade alargamos de facto o
horizonte da nossa racionalidade, começamos a libertar a razão daqueles limites
demasiado estreitos dentro dos quais ela é confinada quando se considera
racional apenas o que pode ser objecto de experimentação e de cálculo. E
precisamente aqui dá-se o encontro da razão com a fé: de facto, na fé acolhemos
o dom que Deus faz de si mesmo revelando-se a nós, criaturas feitas à sua
imagem; acolhamos e aceitemos aquela Verdade que a nossa mente não pode
compreender totalmente e não pode possuir, mas que precisamente por isto dilata
o horizonte do nosso conhecimento e permite que alcancemos o Mistério no qual
estamos imersos e reencontramos em Deus o sentido definitivo da nossa
existência.
1. Crer é confiar
Queridos amigos, sabemos bem que não é fácil concordar com
esta superação dos limites da nossa razão. Por isso a fé, que é um acto humano
muito pessoal, permanece uma escolha da nossa liberdade, que também pode ser
recusada. Mas aqui ressalta uma segunda dimensão da fé, a de se confiar a uma
pessoa: não a uma pessoa qualquer, mas a Jesus Cristo, e ao Pai que O enviou.
Crer significa estabelecer um vínculo muito pessoal com o
nosso Criador e Redentor, em virtude do Espírito Santo que age nos nossos
corações, e fazer deste vínculo o fundamento de toda a vida. De facto, Jesus
Cristo "é a Verdade feita Pessoa, que atrai o mundo para si... Qualquer
outra verdade é um fragmento da Verdade que Ele é e remete para Ele".
Assim Ele enche o nosso coração, dilata-o e enche-o de alegria, estimula a
nossa inteligência para horizontes inexplorados, oferece à nossa liberdade o
seu ponto de referência decisivo, aliviando-a das angústias do egoísmo e
tornando-a capaz de amor autêntico.
2. A fé não teme o conhecimento humano
Portanto, na educação das novas gerações não devemos ter
receio algum de confrontar a verdade da
fé com as autênticas conquistas do conhecimento humano.
Os progressos da ciência são hoje muito rápidos e com
frequência apresentam-se em contraposição com as afirmações da fé, provocando
confusão e tornando mais difícil o acolhimento da verdade cristã. Mas Jesus
Cristo é e permanece o Senhor de toda a criação e de toda a história:
"porque n'Ele foram criadas todas as coisas... e todas têm n'Ele a sua
subsistência" (Cl 1, 16.17).
3. Diálogo fé
e razão
Por isso o diálogo
entre fé e razão, se for feito com sinceridade e rigor, oferece a
possibilidade de compreender, de modo mais eficiente e convincente, o bom senso
da fé em Deus não num Deus qualquer, mas naquele Deus que se revelou em Jesus Cristo e também
de mostrar que no próprio Jesus Cristo se encontra o cumprimento de qualquer
aspiração humana autêntica. Queridos jovens de Roma, prossegui portanto com
confiança e com coragem pelo caminho da busca da verdade. E vós, queridos
sacerdotes e educadores, não hesiteis em promover uma verdadeira e própria
"pastoral da inteligência", e mais amplamente da pessoa, que tenha
seriamente em consideração as interrogações dos jovens quer as existenciais,
quer as que surgem do confronto com as formas de racionalidade hoje difundidas
para os ajudar a encontrar respostas cristãs válidas e inerentes, e finalmente
fazer própria aquela resposta decisiva que é Cristo Senhor.
Falamos da fé como encontro com Aquele que é Verdade e
Amor. Também vimos que se trata de um encontro ao mesmo tempo comunitário e
pessoal, que deve ter lugar em todas as dimensões da nossa vida, através do
exercício da inteligência, das escolhas da liberdade, do serviço do amor.
VI. Oração e Eucaristia, lugar do encontro e da celebração da fé
Mas existe um espaço privilegiado no qual este
encontro se realiza de modo mais directo, se fortalece e se aprofunda, e
torna-se assim verdadeiramente capaz de penetrar e caracterizar toda a
existência: este espaço é a oração.
(…) Peço a toda a amada Igreja de Roma, sobretudo às almas
consagradas, especialmente dos Mosteiros de clausura, que sejais assíduos na
oração, espiritualmente unidos a Maria nossa Mãe, que adoreis Cristo vivo na
Eucaristia, que vos apaixoneis cada vez mais por Ele, que é o nosso irmão e amigo
verdadeiro, o esposo da Igreja, o Deus fiel e misericordioso que nos amou
primeiro. Assim vós, jovens, estareis prontos e disponíveis para receber a sua
chamada, se Ele vos quiser totalmente para si, no sacerdócio ou na vida
consagrada.
Na medida em que nos alimentamos de Cristo e estamos
apaixonados por Ele, sentimos também dentro de nós o estímulo de conduzir
outros para Ele: de facto, não devemos ter só para nós a alegria da fé, devemos
transmiti-la.
Esta necessidade torna-se ainda mais forte e urgente na
presença daquele estranho esquecimento
de Deus que hoje existe em amplas partes do mundo, e em certa medida também
aqui em Roma. Deste
esquecimento surgem muitos murmúrios efémeros, muitas contendas inúteis, mas
também uma grande insatisfação e um sentido de vazio.
Por isso, queridos irmãos e irmãs, no nosso humilde serviço
de testemunhas e missionários do Deus vivo devemos ser portadores daquela
esperança que nasce da certeza da fé: assim ajudaremos os nossos irmãos e
concidadãos a reencontrar o sentido e a alegria da própria vida. Sei que
trabalhais com empenho nos queridos ambientes da pastoral: alegro-me com isto e
convosco dou graças ao Senhor.

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