A vingança era uma lei sagrada em todo o Antigo Oriente e o
perdão, humilhante.
Porém, para o cristão, a contrapartida da vingança é o
perdão sem limite, ao estilo de Deus.
Comentário do Pe. Antonio Rivero à liturgia do XXIV domingo
do Tempo Comum
Textos: Sir 27, 33; 28, 9; Rm 14, 7-9; Mt 18, 21-35
O número 7
Na mentalidade semita, a de Jesus, o 7 é um número vindo da
Lua e símbolo de perfeição. Como a Lua tem 4 fases-quarto crescente, minguante,
etc. - e cada fase tem 7 dias, resulta que o 7 define um ciclo completo, é um
número redondo, a ideia de um todo acabado. Diziam os rabinos de Israel que
2.000 anos antes da criação do mundo, Deus tinha criado 7 coisas: a Torá (lei),
a penitencia, o Éden, a gehena (inferno), o Trono da Glória, o santuário
celeste e o nome do Messias. 7 é um número que cheira algo divino: Deus fez o
mundo em 7 jornadas, dos dons do Espírito são 7, a família macabeia foi
perfeita porque teve 7 filhos-dizia são Gregório Nazianzeno, da Capadócia. Na
catedral de Aachen temos o trono de Carlos Magno, fundador do Sacro Império
Romano Germânico, com os seus 7 degraus em honra do trono de Salomão. Diante do
Knesset, parlamento de Jerusalém, está o candelabro de bronze, dos 7 braços,
símbolo do poder total de Deus e da plenitude da luz, que é Deus.
Jesus diz a Pedro que
deve - que devemos - perdoar 70 vezes 7; isto é, sempre.
Cristo sabe que o homem é vingativo por natureza. Não
entrava na cabeça de Pedro o perdão ilimitado de Jesus. Natural, pois na
sinagoga ouviu muitas vezes que um judeu se perdoa até três vezes, mas a um
estrangeiro jamais. E também ouvia que uma mulher se perdoa uma vez, cinco um
amigo. Sente-se então generoso e resolve perguntar a Jesus se se pode perdoar
ate 7 vezes. Para ter força para perdoar temos que contemplar muitas vezes a
Deus que sempre nos perdoa. E mais, temos que pedir-lhe um transplante de
coração e uma infusão do seu Espírito de amor na alma. Se não, é impossível.
Jesus passou toda a vida perdoando. E nos ofereceu o sacramento da
reconciliação onde encontramos o perdão de Deus, sempre, a todas as horas, sem
limites. Basta que estejamos arrependidos e com propósito de emendar-nos.
E nós?
Temos muitas ocasiões, na vida de família e de comunidade,
nas relações sociais e laborais, de imitar ou não esta atitude de Deus que sabe
perdoar. Os pais tem que perdoar os filhos a sua progressiva decolagem, a sua
resistência e as suas trapaças. Os filhos têm que perdoar os seus pais o
egoísmo, o seu autoritarismo, o seu paternalismo, a sua incompreensão. O marido
a mulher e o fato de que não saiba valorizar o seu trabalho, nem respeitar a
sua fatiga ou o irrite com pretensões descabeladas. Como a mulher o marido a
sua incompreensão das 60 horas laborais em casa- ele que tem somente 40- as
suas faltas de sensibilidade afetiva, a sua cegueira, diária e defraudadora de
sonhos, para o detalhe. Que os laicos perdoem os seus sacerdotes os extravios,
a sua ignorância para ajudar e compreender, a sua gravidade ao falar. Como o
sacerdote deve perdoar os fiéis as suas escapadas da igreja, as suas
inapetências religiosas, inclusive o seu fazer caso omisso à palavra de Deus. E
assim o patrão o obreiro e vice-versa, o governante os súditos, os alunos o
professor... E sempre vice-versa. Todos diariamente 70 vezes 7.
Para refletir
Realmente somos conscientes do que rezamos no Pai Nosso,
essa oração “perigosa”? Temos um coração magnânimo, fácil para perdoar? Se o
filho pródigo, ao voltar a casa, tivesse se encontrado conosco, em vez de se
encontrar com o seu pai, a historia teria terminado igual? Se não perdoamos
facilmente, não será que é porque nos aproximamos pouco ao sacramento da
reconciliação? O que se sabe perdoado, perdoa com mais facilidade. Quando
perdoamos, é como se déssemos uma esmola porque já não tem outro jeito ou tudo
ao contrário, queremos imitar o perdão de Deus?
Para rezar
Senhor, que saiba contemplar o vosso coração cheio de
misericórdia e Vos imite. Senhor, me faça uma transfusão de sangue ou um
transplante para que aprenda a perdoar meus irmãos. Senhor, limpa as veias do
meu coração, obturado por tanto rancor, ódio e ressentimento e possa perdoar o
meu irmão, como Vos. Quero ser autêntico cristão, que possa perdoar a quem me
ofendeu e pedir perdão a quem ofendi.

Comentários
Enviar um comentário