Relatório do Sínodo dos Bispos sobre a Família: «Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização»
1. O Sínodo dos Bispos,
reunido com o Papa, reflete sobre todas as famílias do mundo, com suas
alegrias, fadigas e esperanças. Ele sente, de modo particular, o dever de
agradecer a Deus a generosa fidelidade com que tantas famílias cristãs
correspondem à sua vocação e missão. E o fazem com alegria e fé, também quando
o caminho lhe oferece obstáculos, incompreensões e sofrimentos.
A essas famílias dirigimos o
apreço, o agradecimento e o encorajamento de toda a Igreja e deste Sínodo. Na
vigília de oração celebrada na Praça São Pedro, no sábado, 4 de outubro, sobre
a família, o Papa Francisco evocou de maneira simples e concreta a centralidade
da experiência da família na vida de todos. Disse o seguinte: “Já cai a noite
sobre a nossa assembleia. É hora em que se volta de boa vontade para casa, a
fim de reencontrar-se à mesma mesa, na segurança dos afetos, do bem realizado e
recebido, nos encontros que aquecem o coração e o fazem crescer, com o vinho
bom que antecipa nos dias do homem a festa que não termina. É também a hora
mais difícil para quem se reencontra com a própria solidão, no crepúsculo
amargo dos sonhos e dos projetos fracassados: quantas pessoas arrastam os dias
no beco sem saída da resignação, do abandono, ou mesmo do rancor; em quantas
casas falta o vinho da alegria, portanto, o sabor – a sabedoria mesma – da vida
[...] De uns e de outros, lembramos esta noite com a nossa oração, uma oração
por todos”.
2. Fonte de alegrias e de
provas, de afetos profundos e de relações, por vezes feridas, a família é de
fato “escola de humanidade” (Gaudium et
Spes, 52), da qual se sente fortemente necessidade. Não obstante sejam
tantos os sinais de crise da instituição familiar nos vários contextos da
“aldeia global”, o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os
jovens, e motiva a Igreja, especialista em humanidade e fiel à sua missão, a
anunciar constantemente e com profunda convicção o “Evangelho da família”, que
lhe foi confiado mediante a revelação do amor de Deus em Jesus Cristo e,
ininterruptamente, ensinado pelos Padres, pelos Mestres de espiritualidade e
pelo Magistério da Igreja.
Para a Igreja, a família
assume uma importância toda particular, e, no momento em que todos os fiéis são
convidados a sair de si mesmos, é preciso que a família se redescubra como
sujeito imprescindível para a evangelização. Lembramos o testemunho missionário
de tantas famílias.
3. Sobre a realidade da
família, decisiva e preciosa, o Bispo de Roma convidou o Sínodo dos Bispos a
refletir na Assembleia Geral Extraordinária de outubro de 2014, para aprofundar
depois tal reflexão na Assembleia Geral Ordinária, que acontecerá em outubro de
2015, além do ano inteiro que decorre entre os dois eventos sinodais. “O
próprio reunir-se todos em torno do Bispo de Roma já é um evento de graça, em
que a colegialidade episcopal se manifesta num sentido de discernimento
espiritual e episcopal.” Foi assim que o Papa Francisco descreveu a experiência
do Sínodo, indicando-lhe as finalidades na dúplice escuta dos sinais de Deus e
da história dos homens e na dúplice e única fidelidade que daí deriva.
4. À luz dessas palavras,
recolhemos os resultados de nossas reflexões e dos nossos diálogos, nas três
partes que seguem: a escuta, para contemplar a realidade da família hoje, na
complexidade de suas luzes e sombras; o olhar fixo em Cristo, a fim de
repensar, com renovado frescor e entusiasmo, tudo quanto a revelação,
transmitida pela fé da Igreja, nos diz sobre a beleza, sobre a finalidade e
dignidade da família; o confronto, à luz do Senhor Jesus, a fim de discernir os
caminhos pelos quais renovar a Igreja, e a sociedade, no seu empenho pela
família, fundada sobre o matrimónio entre homem e mulher.
I PARTE
A escuta: o contexto e os
desafios sobre a família
O contexto sociocultural
5. Fiéis ao ensinamento de
Cristo, contemplamos a realidade da família hoje, em toda a sua complexidade,
nas suas luzes e nas suas sombras. Pensamos nos pais, nos avós, nos irmãos e
irmãs, nos parentes próximos e distantes e nos laços entre duas famílias que
todo matrimónio une. A mudança antropológico-cultural influencia
todos os aspetos da vida e requer uma aproximação analítica e
diversificada. Ressaltam-se, antes de tudo, os aspetos positivos: maior
liberdade de expressão e melhor reconhecimento dos direitos da mulher e da
criança, ao menos em algumas regiões. Mas, por outro lado, é preciso considerar
também o crescente perigo representado pelo individualismo exasperado, que
desnatura os laços familiares e acaba por considerar cada membro da família como
se fosse uma ilha, e faz prevalecer em certos casos a ideia de um sujeito que
se constrói segundo os próprios desejos, assumidos como um absoluto. A isso,
acrescenta-se a crise da fé que atinge tantos católicos e, com frequência, está
na origem das crises do casamento e da família.
6. Uma das maiores pobrezas da
cultura atual é a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas, bem
como da fragilidade das relações. Existe uma sensação geral de impotência,
perante a realidade socioeconómica que frequentemente acaba por
destruir as famílias. Dessa forma, é pela crescente pobreza e precariedade
de trabalho que ela vive por vezes como um verdadeiro pesadelo, ou por razão de
um rigor por demais pesado que certamente desencoraja os jovens para o matrimónio.
Com frequência, as famílias se sentem abandonadas pelo desinteresse ou
pela pouca atenção da parte das instituições. As consequências negativas do
ponto de vista da organização social são evidentes: da crise demográfica às
dificuldades educacionais, da dificuldade em acolher a vida nascente até o
perceber a presença dos anciãos como um peso, até mesmo a difundir um mal-estar
afetivo que chega por vezes até a violência. É responsabilidade do Estado criar
condições, através de leis e de trabalho a fim de garantir o futuro dos jovens
e ajudá-los a realizar seu projeto de fundar uma família.
7. Há contextos culturais e
religiosos que propõem desafios particulares. Em algumas sociedades, ainda
vigora a prática da poligamia e, em alguns contextos tradicionais, a prática do
“matrimónio por etapa”. Em outros contextos, permanece a prática dos matrimónios combinados.
Nos países em que a Igreja católica é minoritária, são numerosos os
matrimónios mistos e de disparidade de culto, com todas as dificuldades que
isto comporta em relação à configuração jurídica, ao batismo e à educação dos
filhos e ao recíproco respeito do ponto de vista da diversidade da fé. Nesses
matrimónios, pode existir o perigo do relativismo ou da indiferença, mas pode
haver também a possibilidade de favorecer o espírito ecuménico ou o
diálogo inter-religioso, numa harmoniosa convivência de comunidade que
vive no mesmo lugar. Em muitos contextos, e não somente no Ocidente, vai-se
difundindo amplamente a práxis da convivência que precede o matrimónio,
ou, ainda, de convivência não orientada para assumir a forma de um vínculo
institucional. A isso se acrescente frequentemente uma legislação civil que
compromete o matrimónio e a família. Por causa da secularização,
em muitas partes do mundo, a referência a Deus é fortemente diminuta e a fé não
é mais partilhada socialmente.
8. Muitas são as crianças que
nascem fora do casamento, especialmente em alguns países, e muitas crescem com
um só dos pais, ou num contexto familiar alargado ou reconstituído. O número de
divórcios é crescente e, não raro, é o caso de escolhas determinadas unicamente
por fatores de ordem económica. As crianças são frequentemente objeto
de contendas entre os pais, e os filhos são as verdadeiras vítimas das
dilacerações familiares. Os pais frequentemente estão ausentes, não só por
questões económicas, em situações em que se percebe a necessidade de
assumirem claramente a responsabilidade pelos filhos e pela família. A
dignidade da mulher precisa ser defendida e promovida. De fato, hoje, em muitos
contextos a mulher é objeto de discriminação e, ainda, o dom da maternidade é
com frequência penalizado, e não apresentado como valor. Não são nem mesmo
esquecidos os crescentes fenómenos de violência dos quais a mulher é
a vítima, e por vezes até mesmo no seio da família, e a grave e difundida
mutilação genital da mulher em algumas culturas. O desfrute sexual da infância
constitui uma realidade das mais escandalosas e perversas da sociedade atual.
Também as sociedades atingidas pela violência por causa da guerra, do
terrorismo ou da presença da criminalidade organizada, assistem a situações
familiares deterioradas, sobretudo nas grandes metrópoles; e nas suas
periferias cresce o assim chamado fenómeno das crianças prostituídas.
A migração também representa outro sinal dos tempos a ser enfrentada com
toda a carga de consequências na vida familiar.
A relevância da vida afetiva
9. Diante desse quadro social
delineado, encontram-se em muitas partes do mundo, nos particulares, uma
necessidade maior de cuidar da própria pessoa, de conhecer-se interiormente, de
viver melhor em sintonia com as próprias emoções e os próprios sentimentos, de
buscar relações afetivas de qualidade; essa justa aspiração pode levar ao
desejo de empenhar-se na construção de relações de doação e reciprocidades
criativas, responsáveis e solidárias, tais como as familiares. O perigo do
individualismo e o risco de viver de forma egoísta são grandes. O desafio para
a Igreja é de ajudar os casais no amadurecimento da dimensão emocional e o
desenvolvimento afetivo, mediante a promoção do diálogo, da virtude e da confiança
no amor misericordioso de Deus. O pleno desenvolvimento exigido
pelo matrimónio cristão pode ser um forte antídoto contra a
tentação do individualismo egoísta.
10. No mundo de hoje, não
faltam tendências culturais que parecem impor uma afetividade sem limites, de
que se querem explorar todas as consequências, também aquelas mais complexas.
De fato, a questão da fragilidade afetiva é de grande atualidade: uma
afetividade narcisista, instável e mutável, que nem sempre ajuda os sujeitos a
atingirem maior maturidade. É preocupante certa divulgação da pornografia e da
comercialização do corpo, favorecida também pelo uso distorcido da internet e
que denuncia a situação daquelas pessoas que são obrigadas a praticar a
prostituição. Nesse contexto, os casais são por vezes inseguros, hesitantes, e
têm de se esforçar para encontrar as maneiras de crescer. Muitos são aqueles
que tendem a permanecer nos estados primários da vida emocional e sexual. A
crise dos casais desestabiliza a família e pode levar até à separação, e os
divórcios produzem sérias consequências sobre os adultos, os filhos e a
sociedade, enfraquecendo o indivíduo e os laços sociais. Também a queda
demográfica, causada por uma mentalidade contrária à natalidade e promovida por
uma política mundial de saúde reprodutiva, não somente determina uma situação
em que a sucessão das gerações não é mais assegurada, mas arrisca conduzir ao
longo do tempo um empobrecimento econômico e a uma perda de esperança no
futuro. O desenvolvimento das biotecnologias têm tido também um forte impacto
na natalidade.
O desafio às pastorais
11. Nesse contexto, a Igreja
sente necessidade de dizer uma palavra de verdade e de esperança. É preciso
partir da convicção de que o homem vem de Deus e, por isso, uma reflexão capaz
de propor as grandes perguntas, sobre o significado de ser homem, possa
encontrar terreno fértil nas expectativas mais profundas da humanidade. Os
grandes valores do matrimónio e da família cristã correspondem à
busca que perpassa a existência humana ainda mesmo num tempo assinalado pelo
individualismo e pelo hedonismo. É preciso acolher a pessoa na sua existência
concreta, saber sustentar a busca, encorajar o desejo de Deus e a vontade de
sentir-se plenamente parte da Igreja, também em quem experimentou o fracasso ou
se encontra em situações de segregação. A mensagem cristã traz sempre em si a
realidade e a dinâmica da misericórdia e da verdade, que convergem para Cristo.
II PARTE
O olhar em Cristo: o Evangelho
da família
O olhar em Jesus e a pedagogia
divina na história da salvação
12. Com a finalidade de
“verificar o nosso passo no terreno dos desafios contemporâneos, a condição
decisiva é a de manter fixo o olhar em Jesus Cristo, manter-se na contemplação
e na adoração da sua face [...]. De fato, toda vez que voltamos à fonte da
experiência cristã, abrem-se de imediato novos caminhos e possibilidades
impensadas” (Papa Francisco, Discurso de 4 de outubro de 2014). Jesus olhou com
amor e ternura as mulheres e os homens que encontrou, acompanhando os seus
passos com verdade, paciência e misericórdia, ao anunciar-lhes as exigências do
Reino de Deus.
13. Dado que a ordem da
criação é determinada a orientar-se para Cristo, ocorre distinguir, sem
separar, os diferentes graus mediante os quais Deus comunica à humanidade a
graça da aliança. Em razão da pedagogia divina, cuja ordem da criação envolve o
da redenção através de etapas sucessivas, é preciso compreender a novidade do
sacramento nupcial cristão, em continuidade com o matrimónio natural
das origens. É assim que se entende o modo de agir salvífico de Deus, seja
na criação, seja na vida cristã. Na criação: pois tudo foi feito por meio de
Cristo e em vista dele (cf. Cl 1,16), os cristãos “alegram-se por descobrir e
prontos para respeitar aqueles germes do Verbo que se encontram aí escondidos;
devem seguir atentamente a transformação profunda que se verifica no meio dos
povos” (Ad Gentes,11). Na vida cristã: ao passo que no batismo o crente é
inserido na Igreja mediante a Igreja doméstica, que é a sua família, ele
empreende aquele “processo dinâmico que avança gradualmente com a progressiva
integração dos dons de Deus” (Familiaris
Consortio, 11), mediante a conversão contínua ao amor, que salva do pecado
e dá plenitude à vida.
14. O mesmo Jesus,
referindo-se ao desígnio primeiro do casal humano, reafirma a união
indissolúvel entre o homem e a mulher, embora dizendo que “pela dureza de
vossos corações, Moisés permitiu-vos repudiar vossas mulheres, mas no princípio
não foi assim” (Mt 19,8). A indissolubilidade
do matrimónio (“Portanto, aquilo que Deus uniu o homem não
separe” (Mt 19,6), não deve ser interpretada, antes de tudo como um “jugo”
imposto aos homens mas, sim, como um “dom” feito às pessoas unidas
em matrimónio. Desse modo, Jesus mostra como a condescendência divina
acompanha sempre o caminho humano, cura e transforma com a sua graça o coração
endurecido, orientando para o princípio, através do caminho da cruz. Dos
Evangelhos emerge claramente o exemplo de Jesus, que é modelo para a Igreja. De
fato, Jesus assumiu uma família, deu início aos sinais na festa nupcial de
Caná, anunciou a mensagem referente ao significado do matrimónio como
plenitude da revelação, que recupera o projeto original de Deus (cf. Mt
19,3). Mas, ao mesmo tempo, pôs em prática a doutrina ensinada, manifestando
assim o verdadeiro significado da misericórdia. Isso aparece claramente nos
encontros com a samaritana ( cf. Jo 4,1-30) e com a adúltera (cf. Jo 8,1-11),
em que Jesus, numa atitude de amor para com a pessoa pecadora, leva ao
arrependimento e à conversão (“vai e não peques mais”), condição para o perdão.
A família no desígnio
salvífico de Deus
15. As palavras de vida eterna
que Jesus deixou aos seus discípulos compreendiam o ensinamento sobre
o matrimónio e a família. Tal ensinamento de Jesus nos permite
distinguir em três etapas fundamentais o projeto de Deus sobre o matrimónio e
a família. No início, há a família de origem, quando Deus criador
instituiu o primeiro matrimónio entre Adão e Eva, como sólido
fundamento da família. Deus não somente criou o ser humano macho e fêmea
(cf. Gn 1,27), mas os abençoou a fim de que fossem fecundos e se multiplicassem
(cf. Gn 1,28). Por isso, “o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua
mulher, e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24). Essa união foi prejudicada
pelo pecado e tornou-se a forma histórica do matrimónio do Povo de
Deus, pelo que Moisés concedeu a possibilidade de dar um atestado de
divórcio (cf. Dt 24,1ss). Tal forma era vigente no tempo de Jesus. Com seu
advento e a reconciliação do mundo decaído, graças à redenção por Ele operada,
terminou a era inaugurada com Moisés.
16. Jesus, que reconciliou
consigo todas as coisas, deu ao matrimónio sua forma original (cf. Mc 10,1-12).
A família e o matrimónio foram redimidos por Cristo (cf. Ef 5,21-32), foram
restaurados à imagem da Santíssima Trindade, mistério do qual surge todo amor
verdadeiro. A aliança esponsal, inaugurada na criação e revelada na história da
salvação, recebe a plena revelação do seu significado em Cristo e na sua
Igreja. Por Cristo, através da Igreja, o matrimónio e a família recebem a graça
necessária para testemunhar o amor de Deus e viver a vida de comunhão. O
Evangelho da família atravessa a história do mundo desde a criação do homem à
imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-27) até o cumprimento do mistério da
Aliança em Cristo, e no fim dos séculos, com as núpcias do Cordeiro (cf. Ap
19,9; João Paulo II, Catechesi sull´amore
umano).
A família nos documentos da
Igreja
17. “No decurso dos séculos, a
Igreja não deixou faltar seu constante ensinamento sobre o matrimónio e a
família. Uma das mais altas expressões desse Magistério foi proposta pelo
Concílio Ecumênico Vaticano II, na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que dedica um capítulo inteiro sobre a promoção da
dignidade matrimonial e a família (cf. Gaudium
et Spes, 47-52). Este definiu o matrimónio como comunidade de vida e de
amor (cf. Gaudium et Spes, 48), pondo
o amor no centro da família, e mostrou, ao mesmo tempo, a verdade desse amor
perante as diversas formas de reducionismo presente na cultura contemporânea. O
“verdadeiro amor entre homem e mulher” (Gaudium
et Spes, 49) implica mútua doação de si, inclui e integra a dimensão sexual
e a afetividade, correspondendo ao desígnio divino (cf. Gaudium et Spes, 48-49). Além disso, Gaudium et Spes, 48, sublinha
o enraizamento dos esposos em Cristo: Cristo Senhor “Vem ao encontro dos
esposos cristãos no sacramento do matrimónio” e com eles permanece. Na
encarnação, ele assume o amor humano, purifica-o e leva-o à plenitude, e doa
aos esposos, mediante o seu Espírito, a capacidade de vivê-lo, impregnando toda
a sua vida de fé, de esperança e de caridade. Dessa forma, os esposos são como
que consagrados e, mediante uma graça própria, edificam o Corpo de Cristo e
constituem uma Igreja doméstica (cf. Lumen
Gentium, 11), de modo que a Igreja, embora conservando plenamente o seu
mistério, defende a família cristã, que o manifesta de modo genuíno” (Instrumentum Laboris, 4).
18. “Nos passos do Concílio
Vaticano II, o Magistério pontifício aprofundou a doutrina sobre o matrimónio e
sobre a família. De modo particular, Paulo VI, com a Encíclica sobre a
encíclica Humanae Vitae, evidenciou a
íntima ligação entre amor conjugal e geração da vida. São João Paulo II dedicou
à família uma atenção particular através das suas catequeses sobre o amor
humano, a Carta às Famílias (Gratissimam Sane)
e, sobretudo, com a Exortação Apostólica Familiaris
Consortio. Nesses documentos, o Pontífice definiu a família como ‘caminho
da Igreja’; deu uma visão de conjunto sobre a vocação ao amor do homem e da
mulher; propôs as linhas fundamentais para a pastoral da família e para a
presença da família na sociedade. De modo particular, ao tratar da caridade
conjugal (cf. Familiaris Consortio,
13), descreveu o modo em que os cônjuges, no seu mútuo amor, recebem o dom do
Espírito de Cristo e vivem o seu chamado à santidade” (Instrumentum Laboris, 5).
19. “Bento XVI, na Encíclica Deus Caritas Est, voltou ao tema da
verdade do amor entre homem e mulher, que acende-se totalmente, só à luz do
amor de Cristo crucificado (cf. Deus Caritas Est, 2). Ele salienta, que: ‘O matrimónio
baseado num amor exclusivo e definitivo torna-se o ícone do relacionamento
entre Deus e seu povo e vice-versa: maneira de Deus amar torna-se a medida do
amor humano’ (Deus Caritas Est, 11).
Além disso, na Encíclica Caritas In
Veritate, destaca a importância do amor como princípio da vida em sociedade
(cf. Caritas In Veritate, 44), um
lugar onde você aprende a experiência do bem comum” (Instrumentum Laboris, 6) .
20. “O Papa Francisco, na
Encíclica Lumen Fidei, sobre a
ligação entre a família e a fé, escreve: “O encontro com Cristo, o deixar-se
guiar pelo seu amor, alarga o horizonte da existência, doa-lhe uma esperança
sólida que não desilude. A fé não é um refúgio para as pessoas sem coragem, mas
a dilatação da vida. Ela faz descobrir um grande chamado, a vocação para o
amor, e assegura que esse amor é confiável, que vale a pena entregar-se a ele,
porque o seu fundamento se encontra na fidelidade a Deus, que é mais forte do
que toda a nossa fragilidade” (Lumen
Fidei, 53)”. (Instrumentum Laboris,7).
A indissolubilidade do matrimónio
e a alegria de viver junto
21. O dom recíproco, que
constitui o matrimónio sacramental, está radicado na graça do batismo, que
estabelece a aliança fundamental de toda pessoa com Cristo na Igreja. No recíproco
acolhimento e com a graça de Cristo, os nubentes prometem-se dom total,
fidelidade e abertura para a vida, eles reconhecem como elementos constitutivos
do matrimónio os dons que Deus lhes oferece, tomando a sério o seu recíproco
empenho, em seu nome e perante a Igreja. Ora, na fé, é possível assumir os bens
do matrimónio como empenhos melhor sustentáveis, mediante a ajuda da graça do
sacramento. Deus consagra o amor dos esposos e o confirma com a
indissolubilidade, oferecendo-lhes ajuda para viver a fidelidade, a integração
recíproca e a abertura à vida. Portanto, o olhar da Igreja volta-se para os
esposos como ao coração da família inteira, que volta, também ela, o olhar para
Jesus.
22. Nessa mesma perspetiva,
fazendo nosso o ensinamento do Apóstolo, segundo o qual toda a criação foi
pensada em Cristo e em vista dele (cf. Cl 1,16), o Concílio Vaticano II quis
exprimir seu apreço ao matrimónio natural e aos elementos válidos presentes em
outras religiões (cf Nostra Aetate,
2) e nas culturas, não obstante os limites e as insuficiências (cf Ad
Gentes,11), poderia ser aplicada, por alguns aspetos, também à realidade
matrimonial e familiar de tantas culturas e de pessoas não cristãs. Portanto,
há elementos válidos também em algumas formas fora do matrimónio cristão −, e
entretanto, fundados em relações estáveis e verdadeiras entre um homem e uma
mulher −, e que, em todo caso, consideramos sejam a ele orientados. Com o olhar
voltado para a sabedoria humana dos povos e das culturas, a Igreja reconhece
também essa família como a célula básica e fecunda da convivência humana.
Verdade e beleza da família e
misericórdia para com as famílias feridas e fragilizadas
23. Com íntima e profunda
consolação, a Igreja contempla as famílias que permanecem fiéis aos ensinamentos
do Evangelho, agradecendo-as e encorajando-as pelo testemunho que oferecem. De
fato, graças a elas, a beleza do matrimónio indissolúvel e fiel permanece
acreditável e fiel para sempre. Na família, “que se poderia chamar de Igreja
doméstica” (Lumen Gentium, 11),
amadurece a primeira experiência eclesial de comunhão entre as pessoas, na qual
se reflete, pela graça, o mistério da Santa Trindade. “É aqui que se aprende o
esforço e a alegria do trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso, sempre
renovado e, sobretudo, o culto divino através da oração e da oferta da própria
vida” (Catecismo da Igreja Católica, 1657). A Santa Família de Nazaré é o
modelo admirável, em cuja escola nos “compreendemos porque devemos ter uma
disciplina espiritual, se quisermos seguir a doutrina do Evangelho e tornar-nos
discípulos de Cristo” (Paulo VI, Discurso sobre Nazaré, 5 de janeiro 1964). O
Evangelho da família alimenta também aquelas sementes que ainda esperam para
amadurecer e deve cuidar daquelas árvores que se tornaram áridas e necessitam
de cuidados.
24. A Igreja, como mestra
segura e mãe solícita, embora reconheça que para os batizados não haja outro
vínculo nupcial senão o do batismo, e que toda ruptura deste é contra a vontade
de Deus, tem consciência da fragilidade de muitos de seus filhos que sentem
dificuldade no caminho da fé. “Portanto, sem diminuir o valor do ideal
evangélico, precisa acompanhar com misericórdia e paciência as possíveis etapas
de crescimento das pessoas que se vão construindo dia por dia. [...] Um pequeno
passo, em meio aos grandes limites humanos, pode ser mais agradável a Deus do
que uma vida externamente correta que transcorre seus dias sem enfrentar
maiores dificuldades. A todos deve chegar o consolo e o estímulo do amor
salvífico de Deus, que age misteriosamente em cada pessoa, não obstante seus
defeitos e suas quedas” (Evangelii
Gaudium, 44).
25. Sobre uma aproximação
pastoral das pessoas que contraíram matrimónio civil, e que são divorciados e
casados pela segunda vez, ou que simplesmente convivem, compete à Igreja
revelar-lhes a pedagogia divina da graça na sua vida e ajudá-las a chegar à
plenitude no plano de Deus para elas. Seguindo o olhar de Cristo, cuja luz
brilha em todo homem (cf. Jo,1,9; Gaudium
et Spes, 22), a Igreja volta-se amorosamente para aqueles que participam de
sua vida de modo incompleto, e reconhece que a graça de Deus age também em suas
vidas, dando-lhes coragem para fazer o bem, para cuidar com amor um do outro e
estar a serviço da comunidade na qual vivem e trabalham.
26. A Igreja olha com
apreensão a desconfiança de tantos jovens para com o compromisso conjugal,
sofre com a precipitação com que tantos fiéis decidem pôr fim ao vínculo
conjugal, assumindo outros. Tais fiéis, que fazem parte da Igreja, precisam de
uma atenção pastoral misericordiosa e encorajadora, que distinga adequadamente
as situações. Os jovens batizados são encorajados a não hesitarem diante da
riqueza que o sacramento do matrimónio oferece aos seus projetos de amor,
fortes pela sustentação que lhes dá a graça de Cristo e pela possibilidade de
participarem plenamente da vida da Igreja.
27. Nesse sentido, uma nova
dimensão da atual pastoral familiar consiste em dar atenção à realidade dos matrimónios
civis entre homem e mulher, aos matrimónios tradicionais e, feitas as devidas
diferenças, também às convivências. Quando a união atinge uma estabilidade
notável através de um vínculo público, tem uma conotação de afeto profundo, de
responsabilidade em relação à prole, à capacidade de superar as provações pode
ser vista então como uma ocasião de acompanhar um desenvolvimento para o
sacramento do matrimónio. Mas com frequência, ao invés, a convivência se
estabelece não em vista de um futuro matrimónio, sem intenção alguma de
estabelecer uma relação institucional.
28. Conforme o olhar
misericordioso de Jesus, a Igreja deve acompanhar com atenção e solicitude os
seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e desviado, dando-lhes
novamente confiança e esperança, como a luz do farol de um porto ou de uma chama
posta no meio das pessoas, a fim de iluminar aqueles que se desviaram da rota
ou se encontram em meio à tempestade. Conscientes de que a misericórdia maior é
dizer a verdade com amor, vamos para além da compaixão. O amor misericordioso,
assim como atrai e une, também transforma e eleva. Convida à conversão. Do
mesmo modo, entendemos a atitude do Senhor, que não condena a adúltera, mas lhe
pede que não peque mais (cf. Jo 8,1-11).
III PARTE
O confronto: perspetivas
pastorais
Anunciar o Evangelho da
família hoje nos diferentes contextos
29. O diálogo do Sínodo
considerou atentamente algumas instâncias pastorais mais urgentes a serem
confiadas à concretização em cada Igreja local, na comunhão cum Petro et sub Petro. O anúncio do
Evangelho da família constitui uma urgência para a Nova Evangelização. A Igreja
é chamada a atuá-lo com ternura de mãe e clareza de mestra (cf. Ef 4,15), na
fidelidade à kenosis misericordiosa
de Cristo. A verdade se encarna na fragilidade humana não para condená-la, mas
para salvá-la (cf. Jo 3,1-17).
30. Evangelizar é
responsabilidade de todo o povo de Deus, cada qual segundo o próprio ministério
e carisma. Sem o testemunho alegre dos cônjuges e das famílias, igrejas
domésticas, o anúncio, ainda que correto, arrisca a ser incompreendido ou a
afogar-se no mar de palavras que caracteriza a nossa sociedade (cf. Novo Milennio Ineunte, 50). Os Padres
sinodais sublinharam várias vezes que as famílias católicas, em força da graça
do sacramento nupcial, são chamadas a ser, elas mesmas, sujeitos ativos da
Pastoral Familiar.
31. Será decisivo ressaltar o
primado da graça, e, portanto, a possibilidade de que o Espírito Santo a
conceda no sacramento. Trata-se de fazer a experiência de que o Evangelho da
família é alegria que “enche o coração e a vida inteira”, porque em Cristo
“somos libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior e do isolamento” (Evangelii Gaudium,1). À luz da parábola
do semeador (cf. Mt 13,3), é nossa tarefa cooperar na semeadura: o restante é
obra de Deus. Não é preciso nem mesmo esquecer que a Igreja que prega sobre a
família é sinal de contradição.
32. É por isso que se requer
de toda a Igreja uma conversão missionária: é preciso não se manter num anúncio
meramente teórico e desligado dos problemas reais das pessoas. Jamais se
esqueça de que a crise de fé é que trouxe a crise do matrimónio e da família;
e, como consequência, interrompeu-se com frequência a transmissão da mesma fé
dos pais para os filhos. Perante uma fé forte, a imposição de algumas perspetivas
culturais que enfraquecem a família e o matrimónio não encontra espaço.
33. A conversão deve
estender-se também à linguagem, para que seja de fato significativa. O anúncio
deve fazer experimentar que o Evangelho da família é resposta às atitudes mais
profundas da pessoa humana: à sua dignidade e à plena realização na
reciprocidade, na comunhão e na fecundidade. Não se trata apenas de apresentar
uma norma, mas de propor valores, respondendo à necessidade de que isso
aconteça também nos países mais secularizados.
34. A Palavra de Deus é fonte
de vida e espiritualidade para a família. Toda a pastoral familiar deverá se
deixar modelar interiormente e formar membros da Igreja doméstica, mediante a
leitura orante e eclesial da Sagrada Escritura. A Palavra de Deus não é somente
uma boa notícia para a vida particular da pessoa, mas também um critério de
julgamento e uma luz para discernir nos vários desafios que enfrentam os
cônjuges e as famílias enfrentam.
35. Ao mesmo tempo, muitos
Padres sinodais insistiram num aspeto mais positivo das riquezas das várias
experiências religiosas, sem calar sobre suas dificuldades. Nessas diversas
realidades religiosas e na grande diversidade cultural que caracteriza as
nações, é oportuno apreciar primeiro as possibilidades positivas e, à luz destas,
avaliar seus limites e carências.
36. O matrimónio cristão é uma
vocação que se recebe com uma adequada preparação num itinerário de fé, com
discernimento maduro, e não deve ser considerado apenas como uma tradição
cultural ou uma exigência social ou jurídica. Portanto, é preciso realizar
percursos que acompanhem a pessoa e o casal, de modo que à comunicação dos
conteúdos da fé se acrescente a experiência de vida de toda a comunidade
eclesial.
37. Foi repetidamente lembrada
a necessidade de uma renovação radical da práxis pastoral à luz do Evangelho da
família, que supere a ótica individualista que ainda a caracteriza. Por isso se
tem insistido sobre a renovação da formação dos presbíteros, dos diáconos, dos
catequistas e de outros agentes de pastoral, mediante um maior envolvimento das
próprias famílias.
38. Ao mesmo tempo,
encareceu-se a necessidade de uma evangelização que denuncie com franqueza os
condicionamentos culturais, sociais, políticos e econômicos, como o excessivo
espaço dado à lógica do mercado, o qual impede uma verdadeira vida familiar,= e
que determina discriminação, pobreza, exclusões e violência. Por isso,
desenvolvam-se um diálogo e uma cooperação com as estruturas sociais e
encorajem-se e sustentem-se os leigos que se empenham, como cristãos, em âmbito
cultural e sociopolítico.
Guiar os nubentes no caminho
de preparação ao matrimónio
39. A complexa realidade
social e os desafios que a família de hoje deve enfrentar requerem um empenho
maior de toda a comunidade cristã, em preparação dos nubentes ao matrimónio. É
preciso lembrar a importância das virtudes. Entre elas, a castidade, como
condição preciosa para o genuíno crescimento do amor interpessoal.
Relativamente a essa necessidade, os Padres sinodais concordam em sublinhar a
exigência de um maior envolvimento de toda a comunidade, privilegiando o
testemunho das próprias famílias, além de uma radical preparação ao matrimónio
no caminho de iniciação cristã, sublinhando o nexo do matrimónio com o batismo
e os outros sacramentos. Evidenciou-se ao mesmo tempo a necessidade de
programas específicos para a preparação próxima ao matrimónio, que sejam uma
verdadeira experiência de participação na vida eclesial e que aprofundem os vários
aspetos da vida familiar.
Acompanhar os primeiros anos
da vida matrimonial
40. Os primeiros anos de matrimónio
constituem um período vital e delicado, durante os quais os casais crescem na
consciência dos desafios e do significado do matrimónio. Daqui emerge a
exigência de um acompanhamento pastoral que continue após a celebração do
sacramento (cf. Familiaris Consortio,
parte III). Resulta, de grande importância para essa pastoral, a presença de
casais de esposos com experiência. A paróquia é considerada como o lugar onde
os casais experientes possam ser colocados à disposição dos mais jovens, com o
eventual concurso de associações, movimentos eclesiais e novas comunidades. É
preciso encorajar os esposos para uma atitude fundamental de acolhimento do
grande dom dos filhos. Destaca-se a importância da espiritualidade familiar, da
oração e da participação na Eucaristia dominical, encorajando os casais a
reunirem-se com regularidade para promover o crescimento da vida espiritual e a
solidariedade nas exigências concretas da vida. Liturgia, práticas devocionais
e Eucaristia, celebradas pelas famílias, sobretudo no aniversário de casamento,
são mencionadas como vitais para favorecer a evangelização através da família.
Cuidados pastorais para com
aqueles que vivem o matrimónio civil ou em convivência
41. Enquanto continua a
anunciar e promover o matrimónio cristão, o Sínodo encoraja também o
discernimento pastoral das situações de tantos que não vivem mais essa
realidade. É importante entrar em diálogo pastoral com tais pessoas, a fim de
evidenciar os elementos de sua vida que possam conduzir a uma maior abertura
para o Evangelho do matrimónio, na sua plenitude. Os pastores devem favorecer a
evangelização e o crescimento humano e espiritual. Uma nova sensibilidade da
pastoral moderna consiste em colher os elementos positivos presentes nos matrimónios
civis e, respeitadas as devidas diferenças, nas convivências. Acontece que na
proposta eclesial, embora afirmando com clareza a mensagem cristã, indicamos também
elementos construtivos nessas situações que não correspondem ainda ou que não
mais correspondem.
42. Notou-se também, em muitos
países, um “crescente número de casais que convivem ad experimentum, sem qualquer matrimónio, nem canônico, nem civil” (Instrumentum Laboris, 81). Em alguns
países, isso acontece sobretudo no matrimónio tradicional, acertado entre a
família e, frequentemente, celebrado em várias etapas. Em outros países, ao
contrário, cresce continuamente o número daqueles que, após terem vivido juntos
por longo tempo, pedem a celebração do matrimónio na igreja. A simples
convivência é, frequentemente, aceita por causa da mentalidade geral contrária
às instituições e aos empenhos definitivos, mas também pela espera de uma
segurança existencial (trabalho e salário fixo). Em outros países, ao invés, as
uniões são de fato muito numerosas, não somente pela rejeição dos valores da
família e do matrimónio, mas sobretudo pelo fato de que o se desposar é
percebido como um luxo, por causa das condições sociais, de modo que a miséria
material impele a viver uniões de fato.
43. Todas essas situações são
enfrentadas de modo construtivo, procurando transformá-las em oportunidade de
caminho para a plenitude do matrimónio e da família, à luz do Evangelho.
Trata-se de acolhê-las e acompanhá-las com paciência e delicadeza. A esse
respeito é importante o testemunho atraente de autênticas famílias cristãs,
como sujeitos da evangelização da família.
Curar as famílias feridas
(separados, divorciados não casados novamente, famílias monoparentais)
44. Quando os esposos vivem
problemas nas suas relações, devem contar com a ajuda e o acompanhamento da
Igreja. A pastoral da caridade e da misericórdia tende a recuperar as pessoas e
as relações. A experiência mostra que, com uma adequada ajuda e com a ação de
reconciliação da graça, um grande percentual de crises matrimoniais se supera
de maneira satisfatória. Saber perdoar e sentir-se perdoado é uma experiência
fundamental na vida familiar. O perdão entre os esposos permite experimentar um
amor que dura para sempre e que não passa jamais (cf. 1Cor 13,8). Às vezes é
difícil, mas quem recebeu o perdão de Deus tem a força para dar o autêntico
perdão que regenera a pessoa.
45. No Sínodo ressoou uma
clara necessidade de decisões pastorais corajosas. Reconfirmando com força a
fidelidade ao Evangelho da família e reconhecendo que a separação e o divórcio
são sempre uma ferida que causa profundo sofrimento para os cônjuges e filhos,
os Padres sinodais sentiram a urgência de novos caminhos pastorais, a partir da
realidade real da fragilidade familiar, sabendo que essa, com frequência, é
“mais percebida” como sofrimento do que escolhida com plena liberdade. Trata-se
de situações diferentes, seja por fatores pessoais, culturais ou
socioeconômicos. É preciso um olhar diferenciado, como são João Paulo II
sugeria (cf. Familiaris Consortio,
84).
46. Cada família seja,
primeiro de tudo, ouvida com respeito e amor, fazendo-se companheiro de
caminhada, como Cristo com os discípulos na estrada de Emaús. Valham de modo
particular, em tal situação, as palavras do Papa Francisco: “A Igreja deverá
iniciar os seus membros – sacerdotes, religiosos e leigos – nesta ‘arte de
acompanhamento’, a fim de que todos aprendam sempre a tirar as sandálias
perante a terra santa do outro (cf. Ex 3,5). Devemos dar ao nosso caminho o
ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e pleno de compaixão, mas
que, ao mesmo tempo, seja sadio, livre e encorajador, para amadurecer na vida
cristã” (Evangelii Gaudium, 169).
47. É indispensável um
discernimento particular para acompanhar pastoralmente os separados, os
divorciados, os abandonados. Acolha-se e valorize-se, sobretudo, o sofrimento
daqueles que são constrangidos pelos maus-tratos do cônjuge, a romper a
convivência. O perdão pela injustiça sofrida não é fácil, mas é um caminho que
a graça torna possível. Surge daqui a necessidade de uma pastoral da
reconciliação, através também de centros de acolhida especializada, a ser
implantada nas dioceses. Ao mesmo tempo, tenha-se em conta que é sempre
necessário considerar, de modo leal e construtivo, as consequências para os
filhos, da separação ou do divórcio, as quais são sempre vítimas inocentes da
situação. Eles não podem ser um “objeto” de contendas e devem ser considerados
na forma melhor, a fim de que possam superar o trauma da cisão familiar e
crescer, o mais possível, de maneira serena. Em todo caso, a Igreja deve sempre
ter em conta a injustiça que, frequentemente, causa a situação do divórcio.
Especial atenção seja dada ao acompanhamento das famílias monoparentais, de
modo particular sejam ajudadas as mulheres que devem levar sozinhas a
responsabilidade da casa e da educação dos filhos.
48. Um grande número de Padres
sublinharam a necessidade de tornar mais acessível e ágil e, possivelmente
gratuito, os procedimentos para reconhecimento dos casos de nulidade. Entre as
propostas, foram indicadas: a superação da necessidade da apresentação da dupla
sentença concorde; a possibilidade de determinar, por via administrativa, sob
responsabilidade do bispo diocesano; um processo sumário a ser enviado nos
casos de nulidade notória. Todavia, alguns Padres se dizem contrários a essa
proposta, porque não garantiriam um juízo confiável. Contesta-se que, em todos
esses casos, trata-se de um acerto entre a verdade da validade do vínculo. De
acordo com outras propostas devem, então, ser dada a oportunidade de dar
importância ao papel da fé dos nubentes, em ordem à validade do sacramento do matrimónio,
entre os batizados, mantendo que todos os casamentos são sacramento válido.
49. Acerca das causas
matrimoniais, a atenuação do procedimento exigido por muitos, além da
preparação de agentes suficientes, clérigos e leigos com dedicação particular,
exige que se tenha em conta a responsabilidade do bispo diocesano, o qual
poderia, na sua diocese, encarregar consulentes devidamente preparados que
possam gratuitamente conciliar as partes sobre a validade do seu matrimónio.
Tal função pode ser realizada por um oficial ou pessoas qualificadas (cf. Dignitas Connubii, art. 113,1).
50. As pessoas divorciadas,
mas não casadas em segundas núpcias, que frequentemente são testemunhas da
fidelidade matrimonial, podem ser encorajadas a encontrar na Eucaristia o
alimento que as sustenta no seu estado. A comunidade local e os pastores devem
acompanhar tais pessoas com solicitude, sobretudo quando há filhos ou é grave a
situação dessas pessoas, por causa da pobreza.
51. Também a situação dos
divorciados, casados pela segunda vez, exige um atento discernimento e um
acompanhamento de grande respeito, evitando-se toda linguagem e atitude que os
façam se sentirem discriminados e se promova a sua participação na vida da
comunidade. Ter cuidado com eles não é, para a comunidade cristã, um
enfraquecimento da sua fé e do seu testemunho sobre a indissolubilidade do matrimónio;
antes, esse cuidado exprime exatamente a sua caridade.
52. Refletiu-se sobre a
possibilidade de que os divorciados e casados em segundas núpcias tenham acesso
aos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Diversos Padres sinodais insistiram
em favor da disciplina atual, em virtude da relação entre a participação da
Eucaristia e a comunhão com a Igreja e o seu ensinamento sobre o matrimónio
indissolúvel. Outros se expressaram por um acolhimento não generalizado à mesa
eucarística, em algumas situações particulares em condições bem precisas,
sobretudo quando se trata de casos irreversíveis e ligados a obrigações morais
para com os filhos, que viriam a sofrer injustamente. O eventual acesso aos
sacramentos deveria ser precedido por um caminho penitencial, sob a
responsabilidade do bispo diocesano. Aprofundou-se ainda a questão, tendo bem
presente a distinção entre situações objetivas de pecado e circunstâncias
atenuantes, dado que “a imputabilidade e a responsabilidade de uma ação podem ser
diminuídas ou anuladas” [...] “por diversos fatores psíquicos ou mesmo sociais”
(Catecismo da Igreja Católica, 1735).
53. Alguns Padres afirmaram
que as pessoas divorciadas e novamente casadas, ou que convivem, podem recorrer
com fruto à comunhão espiritual. Outros Padres perguntaram por que então não
podem ter acesso à comunhão sacramental. Foi, portanto, solicitado um
aprofundamento da temática para fazer emergir a peculiaridade das duas formas e
a respetiva conexão com a teologia do matrimónio.
54. As problemáticas relativas
aos matrimónios mistos voltaram frequentemente nas intervenções dos Padres
sinodais. A diversidade da disciplina matrimonial da Igreja ortodoxa coloca, em
alguns contextos, problemas sobre os quais é preciso refletir em âmbito ecumênico.
Analogamente, para os matrimónios inter-religiosos será importante o contributo
do diálogo com as religiões.
A atenção pastoral para com as
pessoas de orientação homossexual
55. Algumas famílias vivem a
experiência de ter no seu interior pessoas com orientação homossexual. A esse
respeito, interrogamo-nos sobre qual atenção pastoral seja oportuna perante tal
situação, em referência a quanto ensina a Igreja: “Não existe fundamento algum
para assimilar ou estabelecer analogias, nem mesmo remotas, entre as uniões
homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimónio e a família”. Apesar
disso, os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos
com respeito e delicadeza. “A respeito deles, evitar-se-á toda atitude de
discriminação injusta” (Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações sobre
os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, 4).
56. É de todo inaceitável que
os Pastores da Igreja sofram pressões nesta matéria e que os organismos internacionais
condicionem as ajudas financeiras aos países pobres para a introdução de leis
que instituam o “matrimónio” entre pessoas do mesmo sexo.
A transmissão da vida e o
desafio da não natalidade
57. Não é difícil constatar
que se difunde uma mentalidade que reduz a geração da vida a uma variável da
projeção individual ou de casal. Os fatores de ordem econômica determinam um
peso por vezes determinante, contribuindo para uma forte queda na natalidade, o
que debilita o tecido social e compromete a relação sobre as gerações e torna
mais incerto o olhar sobre o futuro. A abertura para a vida é exigência
intrínseca do amor conjugal. Nessa luz, a Igreja apoia as famílias que acolhem,
educam e circundam com seu afeto os filhos com diferentes dons.
58. Também aqui ocorre a
necessidade da escuta às pessoas e dar a razão da beleza e da verdade de uma
abertura incondicional à vida, como aquilo de que o amor humano necessita para
ser vivido em plenitude. É sobre essa base que se pode apoiar um ensinamento
adequado sobre os métodos naturais para a procriação responsável. Esta ajuda a
viver de maneira harmoniosa e responsável a comunhão entre os cônjuges, em
todas as suas dimensões, juntamente com a responsabilidade de gerar. E
redescobre-se a mensagem da encíclica Humanae
Vitae, de Paulo VI, que sublinha a necessidade de respeitar a dignidade da
pessoa na avaliação moral dos métodos de regulação da natalidade. A adoção de
crianças órfãs e abandonadas, acolhidas como filhos próprios, é uma forma
específica de apostolado familiar (cf. Apostolicam
Actuositatem, III,11), mais vezes reclamada e encorajada pelo magistério
(cf. Familiaris Consortio, III,II).
A escolha da adoção e da
entrega exprime uma fecundidade particular da experiência conjugal, não somente
quando esta é marcada pela esterilidade. Tal escolha é sinal eloquente do amor
familiar, ocasião para testemunhar a própria fé e restituir a dignidade filial
a quem dela foi privado.
59. É preciso ajudar a viver a
afetividade também no vínculo conjugal, como um caminho de amadurecimento, no
acolhimento sempre mais profundo do outro e na doação sempre mais plena.
Deve-se insistir, nesse sentido, sobre a necessidade de oferecer caminhos de
formação que alimentem a vida conjugal e a importância de um laicado que
ofereça um acompanhamento feito de testemunhas vivas. É de grande ajuda o
exemplo de um amor fiel e profundo, feito de ternura, de respeito, capaz de
crescer ao longo do tempo e que, no seu completo abrir-se à geração da vida,
faz a experiência de um mistério que nos transcende.
O desafio da educação e o
papel da família na evangelização
60. Um dos desafios
fundamentais em que se encontra a família hoje é seguramente a da educação,
tornada mais exigente e complexa pela atual realidade cultural e pela grande
influência da comunicação social. Tem-se na devida conta as exigências e
atitudes de famílias capazes de ser, na vida cotidiana, lugar de crescimento, de
transmissão concreta e essencial das virtudes que dão forma à existência. Isso
indica que os pais podem escolher livremente o tipo de educação a dar aos
filhos, de acordo com suas convicções.
61. A Igreja tem um papel
precioso de sustento às famílias, a partir da iniciação cristã, através da
comunidade acolhedora. A esta se pede hoje, mais ainda do que ontem, tanto nas
situações complexas como naquelas ordinárias, de apoiar os pais no seu empenho
de educar, acompanhando as crianças, adolescentes e jovens, no seu crescimento,
através de caminhos personalizados capazes de introduzir ao sentido pleno da
vida e de suscitar escolhas e responsabilidades, vividas à luz do Evangelho.
Maria, pela sua ternura, misericórdia, sensibilidade materna pode nutrir a fome
de humanidade e vida, por quem for invocada das famílias e do povo cristão. A
pastoral e uma devoção mariana são um ponto de pertença oportuno para anunciar o
Evangelho da família.
Conclusão
62. As reflexões propostas,
fruto do trabalho sinodal, realizado em grande liberdade e num estilo de escuta
recíproca, querem colocar questões e indicar perspetivas que deverão ser
amadurecidas e precisadas pelas reflexões das igrejas locais durante o ano que
nos separa da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos prevista para o
mês de outubro de 2015, dedicada à vocação e à missão da família na igreja e no
mundo contemporâneo. Não se trata de decisões tomadas, nem de perspetivas
fáceis. Entretanto o caminho colegial dos bispos e o compromisso de todo o povo
de Deus sob a ação do Espírito Santo, olhando para o modelo da santa família,
poderão guiar-nos a encontrar vias de verdade e de misericórdia para todos. São
os auspícios que desde o início de nossos trabalhos o Papa Francisco nos
manifestou convidando-nos à coragem da fé e à acolhida humilde e honesta da
verdade na caridade.
Índice
INTRODUÇÃO
I PARTE
A escuta: o contexto e os
desafios sobre a família
O contexto sociocultural
A relevância da vida afetiva
O desafio às pastorais
II PARTE
O olhar em Cristo: o Evangelho
da família
O olhar em Jesus e a pedagogia
divina na história da salvação
A família no desígnio
salvífico de Deus
A família nos documentos da
Igreja
A indissolubilidade do matrimónio
e a alegria de viver junto
Verdade e beleza da família e
misericórdia para com as famílias feridas e fragilizadas
III PARTE
O confronto: perspetivas
pastorais
Anunciar o Evangelho da
família hoje nos diferentes contextos
Guiar os nubentes no caminho
de preparação ao matrimónio
Acompanhar os primeiros anos
da vida matrimonial
Cuidados pastorais para com
aqueles que vivem o matrimónio civil ou em convivência
Curar as famílias feridas
(separados, divorciados não casados novamente, família monoparentais)
A atenção pastoral para com as
pessoas de orientação homossexual
A transmissão da vida e o
desafio da não natalidade
O desafio da educação e o
papel da família na evangelização
CONCLUSÃO
O relatório pode ser lido no
original italiano aqui. A presente
tradução foi feita por Família Cristã, 13-11-2014. O discurso do Papa
Francisco, no final do Sínodo, em italiano, pode ser lido aqui.

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