Ao longo dos anos, a pesquisa tem demonstrado que a família
é uma das áreas mais esquecidas, em termos de ajuda, no tratamento das doenças aditivas.
Todos, sem exceção, são atingidos, quer física, quer
emocionalmente por todos os problemas do adito.
Os membros da família deixam-se envolver no problema da adição,
da mesma forma que uma família com outros tipos de problemas se envolve. Como
é, por exemplo, para uma família cujo membro sofra de um AVC, doença mental,
problema cardíaco ou problemas físicos que impeçam a pessoa de funcionar
adequadamente?
Quando se fala em adição, refere-se:
Dependência Química: drogas vendidas na rua, ou prescritas
por médicos, álcool, colas.
Dependência Comportamental: anorexia-bulimia, transtorno
obsessivo-compulsivo, jogo, fobias, raiva, compras, internet e sexo.
Dependência Emocional: codependência, depressão, processo de
luto e automutilação.
Na doença da adição, cada adito tem um forte impacto na
vida de várias pessoas, sendo que todas elas influenciam o adito, assim como
todo o seu processo.
Na maior parte dos casos, quando a família pede ajuda para
lidar com os problemas da adição, esta está já fora de controlo. A família
sente-se bloqueada, e incapaz de deter toda a desgovernabilidade que é
evidente, sentindo-se, também, culpada e responsável pelo comportamento do
adito.
Uma das principais razões que permite a progressão das adições
é o facto de os familiares negarem o que é evidente.
A negação é um de vários comportamentos da família durante o
processo da adição. Estes comportamentos ou fases podem ser avaliados em termos
individuais, mas por certo que existem muitas semelhanças no contexto mais
geral:
1. Negação/justificação – perante um primeiro indício que se
está perante uma situação problemática, a família não aceita o problema
encontrando justificações banais: “foi só para experimentar”, “vamos esquecer”,
“não é nada de importante, foi apenas uma vez”, “não é possível, pois ele nunca
usou drogas”, “foi festa de anos, passagem de ano”.
2. Também perante situações evidentes, a família pode
começar a culpar os outros pelos consumos e comportamentos do adito, começando
a protege-lo de forma obsessiva. Também se inicia conflitos entre os
familiares, já que se culpam uns aos outros: a mãe culpa o pai porque é
demasiado severo com ele ou porque nunca está em casa; o pai culpa a mãe porque
lhe faz as vontades todas, dá-lhe dinheiro ou porque nunca lhe disse nada
antes; também podem culpar os amigos ou os irmãos.
3. Quando o problema é mais que evidente, sendo impossível esconder,
negar ou culpar os outros, impera a regra ou lei do silêncio. Evita-se falar
sobre o assunto devido ao medo e às preocupações das consequências ou reações
do adito que o possam levar a voltar a consumir ou beber; não há diálogo,
sendo mais confortável não se falar do que se está a ver ou ouvir. Por outro
lado, há grande tensão entre os familiares. De igual modo, mudança de
comportamento, ou seja, a família torna-se arrogante e agressiva para com o
adito.
4. Pensando que se está a ajudar o adito a lidar com as
suas ansiedades, medos e vontade se consumir, dá-se dinheiro, compra-se drogas,
consome-se ou bebe-se com o adito. Também se encobre os problemas resultantes
dos comportamentos dele, mentindo ou assumindo as culpas. Há uma total mudança
de personalidade. Tudo por promessas ou compromissos que não se cumprem, o que
origina raiva, ressentimento e sentimentos de culpa, mas que, claramente, não
representa uma melhor posição, pois apenas se facilita a progressão da adição ativa
do doente.
5. A família começa
a evitar sair de casa e de conviver com amigos ou outros familiares para não
enfrentarem o problema. (isolamento). Há um sentimento de que são as únicas que
têm este problema. O familiar vive em função do dependente químico. Começa-se a
centrar toda a atenção no adito, fazendo tentativas de controlar e corrigir a
vida dele.
6. Devido à mudança do estilo de vida, podem surgir
problemas de saúde (ansiedade, estados depressivos), problemas no trabalho,
problemas relacionais.
7. Para evitar reconhecer todos os problemas e situações de desgovernabilidade
e deterioração física e mental, a família pode fugir para realidades adversas
como o trabalho compulsivo, os negócios ou outros interesses, apesar do medo e
da desconfiança aumentarem à medida que se esgotam todas as desculpas para os
consumos do adito.
8. Quando se esgotam todas as tentativas de controlar e
ajudar o adito, quando se aceita o facto de que a vida está progressivamente a
ser afetada, que as relações, o trabalho, a condição emocional e física estão
destruídas, toma-se consciência do poder que a doença da adição tem sobre o
adito e sobre todos os familiares, admite-se o problema e a necessidade de
ajuda
9. Depois é o acreditar que é possível encontrar ajuda, que
sozinho não se é possível lidar com a doença da adição e que se o adito não
quiser ajuda, a própria família não necessita de se afundar com ele e, deverá
procurar ajuda para si. Deste modo, os grupos de ajuda mútua, ou seja, os
Al-Anon (AA) e as Famílias Anónimas (NA), são um espaço seguro e confortável.
Neste campo, há algumas dificuldades e relutância por parte
das famílias, como é o caso das dificuldades em falar de sentimentos frente a
outras pessoas (Culturalmente, mais nos Homens do que nas Mulheres).
Por outro lado, quando os familiares vão às reuniões,
acreditam que podem aprender a curar o seu adito, em vez de aprender
diferentes formas de lidar com o comportamento do adito (deixar de facilitar a
dependência do adito).
Inicialmente, torna-se importante apenas ouvir, sendo isso o
que a família precisa, para começar a sentir que a sua história e experiência é
igual ao que se ouve. Depois, o necessário é o familiar falar de si mesmo,
deixando de olhar para o adito, de falar sobre ele, de o culpar, etc.
Torna-se, igualmente, importante pôr a recuperação emocional
em primeiro lugar e começar a pensar de forma positiva em cuidar de si própria.
Não deixar de fazer coisas por causa do adito, arranjar tempo para si e não
apenas para o adito, olhar para os danos que fez a ele próprio ou a outros familiares
com os comportamentos que teve.
Mudar de atitude porque as anteriores não resultaram, é
outro dos passos mais importantes a tomar: compreender a diferença entre o
curar e intervir sobre a doença; parar de ajudar o adito; praticar amor firme;
intervenção jurídica; tomar a iniciativa.
Mais especificamente às crianças, e quando estas são
apanhadas pela doença da adição, torna-se necessário:
1. Dizer a verdade – ser honesto com os filhos. É muito
melhor para os familiares e para eles do que verem a doença e o comportamento
do adito como tabus. Devido às mentiras, promessas não cumpridas, às
desilusões, é importante que as crianças sintam que a culpa não é delas, mas
sim porque o pai ou mãe têm uma doença;
2. Aceitar os sentimentos delas relativamente à mãe ou pai;
3. Encontrar ajuda para as crianças;
4. Educá-las;
5. Impor limites;
6. Atenção aos seus comportamentos.
Infelizmente, a doença da adição como uma doença da família,
também influencia todo o processo terapêutico, no momento do tratamento de um
adito.
Alguns exemplos:
1. Em programas familiares, grande dificuldade em falarem de
si, sempre focadas no adito, encontrando-se a resistir ao processo de mudança
(continuar com atitudes antigas). Não são específicos, divagam, usam o
silêncio, são falsas, quer a falar de sentimentos, quer a falar de como sentem
o familiar;
2. Há a quebra de regras, através dos telefonemas, dos
horários das visitas, do que trazem nas visitas;
3. Questionam as decisões da equipa, podem culpar a equipa e
compactuar com os comportamentos dos pacientes em tratamento (guardam
informações importantes ou segredos). São várias as vezes que querem tratamento
especial;
4. Facilitam e fazem as "vontades todas" ao
paciente, mesmo contra sugestões da Equipa Terapêutica.
Texto de João Roldão Soares, em http://ologosdaadiccao.blogspot.pt

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