Mensagem do santo padre Francisco para a celebração do 47.º dia mundial da
paz, 1 de janeiro de 2014
1. No início dum novo ano, que acolhemos como uma graça e um dom de Deus
para a humanidade, desejo dirigir, a cada homem e mulher, bem como a todos os
povos e nações do mundo, aos chefes de Estado e de Governo e aos responsáveis
das várias religiões, os meus ardentes votos de paz, que acompanho com a minha
oração a fim de que cessem as guerras, os conflitos e os inúmeros sofrimentos
provocados quer pela mão do homem quer por velhas e novas epidemias e pelos
efeitos devastadores das calamidades naturais. Rezo de modo particular para
que, respondendo à nossa vocação comum de colaborar com Deus e com todas as
pessoas de boa vontade para a promoção da concórdia e da paz no mundo, saibamos
resistir à tentação de nos comportarmos de forma não digna da nossa humanidade.
Já, na minha mensagem para o 1º de Janeiro passado,
fazia notar que «o anseio duma vida plena (…) contém uma aspiração irreprimível
de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos
inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar».[1] Sendo
o homem um ser relacional, destinado a realizar-se no contexto de relações
interpessoais inspiradas pela justiça e a caridade, é fundamental para o seu
desenvolvimento que sejam reconhecidas e respeitadas a sua dignidade, liberdade
e autonomia. Infelizmente, o flagelo generalizado da exploração do homem pelo
homem fere gravemente a vida de comunhão e a vocação a tecer relações
interpessoais marcadas pelo respeito, a justiça e a caridade. Tal fenómeno
abominável, que leva a espezinhar os direitos fundamentais do outro e a
aniquilar a sua liberdade e dignidade, assume múltiplas formas sobre as quais
desejo deter-me, brevemente, para que, à luz da Palavra de Deus, possamos
considerar todos os homens, «já não escravos, mas irmãos».
À escuta do projecto de Deus para a humanidade
2. O tema, que escolhi para esta mensagem, inspira-se na Carta de São Paulo
a Filémon; nela, o Apóstolo pede ao seu colaborador para acolher Onésimo, que
antes era escravo do próprio Filémon mas agora tornou-se cristão, merecendo por
isso mesmo, segundo Paulo, ser considerado um irmão. Escreve o
Apóstolo dos gentios: «Ele foi afastado por breve tempo, a fim de que o recebas
para sempre, não já como escravo, mas muito mais do que um escravo, como irmão
querido» (Flm 15-16). Tornando-se cristão, Onésimo passou a ser
irmão de Filémon. Deste modo, a conversão a Cristo, o início duma vida de discipulado
em Cristo constitui um novo nascimento (cf. 2
Cor 5, 17; 1 Ped 1, 3), que regenera a fraternidade como
vínculo fundante da vida familiar e alicerce da vida social.
Lemos, no livro do Génesis (cf. 1, 27-28), que Deus criou o ser humano como homem
e mulher e abençoou-os para que crescessem e se multiplicassem: a Adão
e Eva, fê-los pais, que, no cumprimento da bênção de Deus para ser fecundos e
multiplicar-se, geraram a primeira fraternidade: a de Caim e Abel.
Saídos do mesmo ventre, Caim e Abel são irmãos e, por isso, têm a mesma origem,
natureza e dignidade de seus pais, criados à imagem e semelhança de Deus.
Mas, apesar de os irmãos estarem ligados por nascimento e possuírem a mesma
natureza e a mesma dignidade, a fraternidadeexprime também a
multiplicidade e a diferença que existe entre eles. Por conseguinte, como irmãos
e irmãs, todas as pessoas estão, por natureza, relacionadas umas com as
outras, cada qual com a própria especificidade e todas partilhando a mesma
origem, natureza e dignidade. Em virtude disso, a fraternidade constitui
a rede de relações fundamentais para a construção da família humana criada por
Deus.
Infelizmente, entre a primeira criação narrada no livro do Génesis e o novo
nascimento em Cristo – que torna, os crentes, irmãos e irmãs do
«primogénito de muitos irmãos» (Rom 8, 29) –, existe a realidade
negativa do pecado, que interrompe tantas vezes a nossa fraternidade de
criaturas e deforma continuamente a beleza e nobreza de sermos irmãos e
irmãs da mesma família humana. Caim não só não suporta o seu irmão
Abel, mas mata-o por inveja, cometendo o primeiro fratricídio. «O assassinato
de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejeição radical da vocação a ser
irmãos. A sua história (cf. Gen 4, 1-16) põe em evidência o
difícil dever, a que todos os homens são chamados, de viver juntos, cuidando
uns dos outros».[2]
Também na história da família de Noé e seus filhos (cf. Gen 9,
18-27), é a falta de piedade de Cam para com seu pai, Noé, que impele este a
amaldiçoar o filho irreverente e a abençoar os outros que o tinham honrado,
dando assim lugar a uma desigualdade entre irmãos nascidos do mesmo ventre.
Na narração das origens da família humana, o pecado de afastamento de Deus,
da figura do pai e do irmão torna-se uma expressão da recusa da comunhão e
traduz-se na cultura da servidão (cf. Gen 9, 25-27), com as
consequências daí resultantes que se prolongam de geração em geração: rejeição
do outro, maus-tratos às pessoas, violação da dignidade e dos direitos
fundamentais, institucionalização de desigualdades. Daqui se vê a necessidade
duma conversão contínua à Aliança levada à perfeição pela oblação de Cristo na
cruz, confiantes de que, «onde abundou o pecado, superabundou a graça (…) por
Jesus Cristo» (Rom 5, 20.21). Ele, o Filho amado (cf. Mt 3,
17), veio para revelar o amor do Pai pela humanidade. Todo aquele que escuta o
Evangelho e acolhe o seu apelo à conversão, torna-se, para Jesus, «irmão,
irmã e mãe» (Mt 12, 50) e, consequentemente, filho
adoptivo de seu Pai (cf. Ef 1, 5).
No entanto, os seres humanos não se tornam cristãos, filhos do Pai e irmãos
em Cristo por imposição divina, isto é, sem o exercício da liberdade pessoal,
sem se converterem livremente a Cristo. Ser filho de Deus
requer que primeiro se abrace o imperativo da conversão: «Convertei-vos – dizia
Pedro no dia de Pentecostes – e peça cada um o baptismo em nome de Jesus
Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito
Santo» (Act 2, 38). Todos aqueles que responderam com a fé e a vida
àquela pregação de Pedro, entraram na fraternidade da primeira
comunidade cristã (cf. 1 Ped 2, 17; Act 1,
15.16; 6, 3; 15, 23): judeus e gregos, escravos e homens livres (cf. 1
Cor 12, 13; Gal 3, 28), cuja diversidade de origem e
estado social não diminui a dignidade de cada um, nem exclui ninguém do povo de
Deus. Por isso, a comunidade cristã é o lugar da comunhão vivida no amor entre
os irmãos (cf. Rom 12, 10; 1 Tes 4, 9; Heb 13,
1; 1 Ped 1, 22; 2 Ped 1, 7).
Tudo isto prova como a Boa Nova de Jesus Cristo – por meio de Quem Deus
«renova todas as coisas» (Ap 21, 5)[3] –
é capaz de redimir também as relações entre os homens, incluindo a relação entre
um escravo e o seu senhor, pondo em evidência aquilo que ambos têm em comum: a
filiação adoptiva e o vínculo de fraternidade em Cristo. O próprio Jesus disse
aos seus discípulos: «Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao
corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a
conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai» (Jo 15, 15).
As múltiplas faces da escravatura, ontem e hoje
3. Desde tempos imemoriais, as diferentes sociedades humanas conhecem o
fenómeno da sujeição do homem pelo homem. Houve períodos na história da
humanidade em que a instituição da escravatura era geralmente admitida e
regulamentada pelo direito. Este estabelecia quem nascia livre e quem, pelo
contrário, nascia escravo, bem como as condições em que a pessoa, nascida
livre, podia perder a sua liberdade ou recuperá-la. Por outras palavras, o
próprio direito admitia que algumas pessoas podiam ou deviam ser consideradas
propriedade de outra pessoa, a qual podia dispor livremente delas; o escravo
podia ser vendido e comprado, cedido e adquirido como se fosse uma mercadoria
qualquer.
Hoje, na sequência duma evolução positiva da consciência da humanidade, a
escravatura – delito de lesa humanidade[4] –
foi formalmente abolida no mundo. O direito de cada pessoa não ser mantida em
estado de escravidão ou servidão foi reconhecido, no direito internacional,
como norma inderrogável.
Mas, apesar de a comunidade internacional ter adoptado numerosos acordos
para pôr termo à escravatura em todas as suas formas e ter lançado diversas
estratégias para combater este fenómeno, ainda hoje milhões de pessoas –
crianças, homens e mulheres de todas as idades – são privadas da liberdade e
constrangidas a viver em condições semelhantes às da escravatura.
Penso em tantos trabalhadores e trabalhadoras, mesmo menores,
escravizados nos mais diversos sectores, a nível formal e informal, desde o
trabalho doméstico ao trabalho agrícola, da indústria manufactureira à
mineração, tanto nos países onde a legislação do trabalho não está conforme às
normas e padrões mínimos internacionais, como – ainda que ilegalmente – naqueles
cuja legislação protege o trabalhador.
Penso também nas condições de vida de muitos migrantes que,
ao longo do seu trajecto dramático, padecem a fome, são privados da liberdade,
despojados dos seus bens ou abusados física e sexualmente. Penso em tantos
deles que, chegados ao destino depois duma viagem duríssima e dominada pelo
medo e a insegurança, ficam detidos em condições às vezes desumanas. Penso em
tantos deles que diversas circunstâncias sociais, políticas e económicas
impelem a passar à clandestinidade, e naqueles que, para permanecer na
legalidade, aceitam viver e trabalhar em condições indignas, especialmente
quando as legislações nacionais criam ou permitem uma dependência estrutural do
trabalhador migrante em relação ao dador de trabalho como, por exemplo,
condicionando a legalidade da estadia ao contrato de trabalho... Sim! Penso no
«trabalho escravo».
Penso nas pessoas obrigadas a prostituírem-se, entre as quais
se contam muitos menores, e nas escravas e escravos sexuais; nas
mulheres forçadas a casar-se, quer as que são vendidas para casamento quer as
que são deixadas em sucessão a um familiar por morte do marido, sem que tenham
o direito de dar ou não o próprio consentimento.
Não posso deixar de pensar a quantos, menores e adultos, são
objecto de tráfico e comercialização para remoção de órgãos, para
ser recrutados como soldados, para servir de pedintes,
para actividades ilegais como a produção ou venda de drogas, ou
paraformas disfarçadas de adopção internacional.
Penso, enfim, em todos aqueles que são raptados e mantidos em cativeiro por grupos
terroristas, servindo os seus objectivos como combatentes ou, especialmente
no que diz respeito às meninas e mulheres, como escravas sexuais. Muitos deles
desaparecem, alguns são vendidos várias vezes, torturados, mutilados ou mortos.
Algumas causas profundas da escravatura
4. Hoje como ontem, na raiz da escravatura, está uma concepção da pessoa
humana que admite a possibilidade de a tratar como um objecto. Quando o pecado
corrompe o coração do homem e o afasta do seu Criador e dos seus semelhantes,
estes deixam de ser sentidos como seres de igual dignidade, como irmãos e irmãs
em humanidade, passando a ser vistos como objectos. Com a força, o engano, a
coacção física ou psicológica, a pessoa humana – criada à imagem e semelhança
de Deus – é privada da liberdade, mercantilizada, reduzida a propriedade de
alguém; é tratada como meio, e não como fim.
Juntamente com esta causa ontológica – a rejeição da humanidade no outro –,
há outras causas que concorrem para se explicar as formas actuais de
escravatura. Entre elas, penso em primeiro lugar na pobreza, no
subdesenvolvimento e na exclusão, especialmente quando os três se aliam com a falta
de acesso à educação ou com uma realidade caracterizada por escassas,
se não mesmo inexistentes, oportunidades de emprego. Não raro, as vítimas de
tráfico e servidão são pessoas que procuravam uma forma de sair da condição de
pobreza extrema e, dando crédito a falsas promessas de trabalho, caíram nas
mãos das redes criminosas que gerem o tráfico de seres humanos. Estas redes
utilizam habilmente as tecnologias informáticas modernas para atrair jovens e
adolescentes de todos os cantos do mundo.
Entre as causas da escravatura, deve ser incluída também a corrupção daqueles
que, para enriquecer, estão dispostos a tudo. Na realidade, a servidão e o
tráfico das pessoas humanas requerem uma cumplicidade que muitas vezes passa
através da corrupção dos intermediários, de alguns membros das forças da
polícia, de outros actores do Estado ou de variadas instituições, civis e
militares. «Isto acontece quando, no centro de um sistema económico, está o
deus dinheiro, e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de cada sistema
social ou económico, deve estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse
o dominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e chega o deus dinheiro,
dá-se esta inversão de valores».[5]
Outras causas da escravidão são os conflitos armados, as violências,
a criminalidade e o terrorismo. Há inúmeras
pessoas raptadas para ser vendidas, recrutadas como combatentes ou exploradas
sexualmente, enquanto outras se vêem obrigadas a emigrar, deixando tudo o que
possuem: terra, casa, propriedades e mesmo os familiares. Estas últimas,
impelidas a procurar uma alternativa a tão terríveis condições, mesmo à custa
da própria dignidade e sobrevivência, arriscam-se assim a entrar naquele
círculo vicioso que as torna presa da miséria, da corrupção e das suas
consequências perniciosas.
Um compromisso comum para vencer a escravatura
5. Quando se observa o fenómeno do comércio de pessoas, do tráfico ilegal
de migrantes e de outras faces conhecidas e desconhecidas da escravidão,
fica-se frequentemente com a impressão de que o mesmo tem lugar no meio da
indiferença geral.
Sem negar que isto seja, infelizmente, verdade em grande parte, apraz-me
mencionar o enorme trabalho que muitas congregações religiosas,
especialmente femininas, realizam silenciosamente, há tantos anos, a favor das
vítimas. Tais institutos actuam em contextos difíceis, por vezes dominados pela
violência, procurando quebrar as cadeias invisíveis que mantêm as vítimas
presas aos seus traficantes e exploradores; cadeias, cujos elos são feitos não
só de subtis mecanismos psicológicos que tornam as vítimas dependentes dos seus
algozes, através de chantagem e ameaça a eles e aos seus entes queridos, mas
também através de meios materiais, como a apreensão dos documentos de
identidade e a violência física. A actividade das congregações religiosas está
articulada a três níveis principais: o socorro às vítimas, a sua reabilitação
sob o perfil psicológico e formativo e a sua reintegração na sociedade de
destino ou de origem.
Este trabalho imenso, que requer coragem, paciência e perseverança, merece
o aplauso da Igreja inteira e da sociedade. Naturalmente o aplauso, por si só,
não basta para se pôr termo ao flagelo da exploração da pessoa humana. Faz
falta também um tríplice empenho a nível institucional: prevenção,
protecção das vítimas e acção judicial contra os responsáveis. Além disso,
assim como as organizações criminosas usam redes globais para alcançar os seus
objectivos, assim também a acção para vencer este fenómeno requer um esforço
comum e igualmente global por parte dos diferentes actores que compõem a
sociedade.
Os Estados deveriam vigiar por que as respectivas
legislações nacionais sobre as migrações, o trabalho, as adopções, a
transferência das empresas e a comercialização de produtos feitos por meio da
exploração do trabalho sejam efectivamente respeitadoras da dignidade da
pessoa. São necessárias leis justas, centradas na pessoa humana, que defendam
os seus direitos fundamentais e, se violados, os recuperem reabilitando quem é
vítima e assegurando a sua incolumidade, como são necessários também mecanismos
eficazes de controle da correcta aplicação de tais normas, que não deixem
espaço à corrupção e à impunidade. É preciso ainda que seja reconhecido o papel
da mulher na sociedade, intervindo também no plano cultural e da comunicação
para se obter os resultados esperados.
As organizações intergovernamentais são chamadas, no
respeito pelo princípio da subsidiariedade, a implementar iniciativas
coordenadas para combater as redes transnacionais do crime organizado que gerem
o mercado de pessoas humanas e o tráfico ilegal dos migrantes. Torna-se
necessária uma cooperação a vários níveis, que englobe as instituições
nacionais e internacionais, bem como as organizações da sociedade civil e do
mundo empresarial.
Com efeito, as empresas[6] têm
o dever não só de garantir aos seus empregados condições de trabalho dignas e
salários adequados, mas também de vigiar por que não tenham lugar, nas cadeias
de distribuição, formas de servidão ou tráfico de pessoas humanas. A par da
responsabilidade social da empresa, aparece depois a responsabilidade
social do consumidor. Na realidade, cada pessoa deveria ter consciência de
que «comprar é sempre um acto moral, para além de económico».[7]
As organizações da sociedade civil, por sua vez, têm o dever de
sensibilizar e estimular as consciências sobre os passos necessários para
combater e erradicar a cultura da servidão.
Nos últimos anos, a Santa Sé, acolhendo o grito de sofrimento das vítimas
do tráfico e a voz das congregações religiosas que as acompanham rumo à libertação,
multiplicou os apelos à comunidade internacional pedindo que os diversos
actores unam os seus esforços e cooperem para acabar com este flagelo.[8] Além
disso, foram organizados alguns encontros com a finalidade de dar visibilidade
ao fenómeno do tráfico de pessoas e facilitar a colaboração entre os diferentes
actores, incluindo peritos do mundo académico e das organizações
internacionais, forças da polícia dos diferentes países de origem, trânsito e
destino dos migrantes, e representantes dos grupos eclesiais comprometidos em
favor das vítimas. Espero que este empenho continue e se reforce nos próximos
anos.
Globalizar a fraternidade, não a escravidão nem a
indiferença
6. Na sua actividade de «proclamação da verdade do amor de Cristo na
sociedade»,[9] a
Igreja não cessa de se empenhar em acções de carácter caritativo guiada pela
verdade sobre o homem. Ela tem o dever de mostrar a todos o caminho da
conversão, que induz a voltar os olhos para o próximo, a ver no outro – seja
ele quem for – um irmão e uma irmã em humanidade, a reconhecer a sua dignidade
intrínseca na verdade e na liberdade, como nos ensina a história de Josefina
Bakhita, a Santa originária da região do Darfur, no Sudão. Raptada por
traficantes de escravos e vendida a patrões desalmados desde a idade de nove
anos, haveria de tornar-se, depois de dolorosas vicissitudes, «uma livre filha
de Deus» mediante a fé vivida na consagração religiosa e no serviço aos outros,
especialmente aos pequenos e fracos. Esta Santa, que viveu a cavalo entre os
séculos XIX e XX, é também hoje testemunha exemplar de esperança[10] para
as numerosas vítimas da escravatura e pode apoiar os esforços de quantos se
dedicam à luta contra esta «ferida no corpo da humanidade contemporânea, uma
chaga na carne de Cristo».[11]
Nesta perspectiva, desejo convidar cada um, segundo a respectiva missão e
responsabilidades particulares, a realizar gestos de fraternidade a bem de
quantos são mantidos em estado de servidão. Perguntemo-nos, enquanto comunidade
e indivíduo, como nos sentimos interpelados quando, na vida quotidiana, nos
encontramos ou lidamos com pessoas que poderiam ser vítimas do tráfico de seres
humanos ou, quando temos de comprar, se escolhemos produtos que poderiam
razoavelmente resultar da exploração de outras pessoas. Há alguns de nós que,
por indiferença, porque distraídos com as preocupações diárias, ou por razões
económicas, fecham os olhos. Outros, pelo contrário, optam por fazer algo de
positivo, comprometendo-se nas associações da sociedade civil ou praticando no
dia-a-dia pequenos gestos como dirigir uma palavra, trocar um cumprimento,
dizer «bom dia» ou oferecer um sorriso; estes gestos, que têm imenso valor e
não nos custam nada, podem dar esperança, abrir estradas, mudar a vida a uma
pessoa que tacteia na invisibilidade e mudar também a nossa vida face a esta
realidade.
Temos de reconhecer que estamos perante um fenómeno mundial que excede as
competências de uma única comunidade ou nação. Para vencê-lo, é preciso uma
mobilização de dimensões comparáveis às do próprio fenómeno. Por esta razão,
lanço um veemente apelo a todos os homens e mulheres de boa vontade e a
quantos, mesmo nos mais altos níveis das instituições, são testemunhas, de
perto ou de longe, do flagelo da escravidão contemporânea, para que não se
tornem cúmplices deste mal, não afastem o olhar à vista dos sofrimentos de seus
irmãos e irmãs em humanidade, privados de liberdade e dignidade, mas tenham a
coragem de tocar a carne sofredora de Cristo,[12] o
Qual Se torna visível através dos rostos inumeráveis daqueles a quem Ele mesmo
chama os «meus irmãos mais pequeninos» (Mt 25, 40.45).
Sabemos que Deus perguntará a cada um de nós: Que fizeste do teu irmão?
(cf. Gen 4, 9-10). A globalização da indiferença, que hoje
pesa sobre a vida de tantas irmãs e de tantos irmãos, requer de todos nós que
nos façamos artífices duma globalização da solidariedade e da fraternidade que
possa devolver-lhes a esperança e levá-los a retomar, com coragem, o caminho
através dos problemas do nosso tempo e as novas perspectivas que este traz
consigo e que Deus coloca nas nossas mãos.
Vaticano, 8 de Dezembro de 2014.
FRANCISCUS
[3] Cf.
Exort. ap. Evangelii gaudium, 11.
[4] Cf. Discurso à Delegação internacional da Associação de Direito
Penal (23 de Outubro de 2014): L’Osservatore Romano (ed.
portuguesa de 30/X/2014), 9.
[5] Discurso aos participantes no Encontro mundial dos
Movimentos Populares (28 de Outubro de 2014): L’Osservatore
Romano(ed. portuguesa de 06/XI/2014), 9.
[6] Cf. Pontifício Conselho «Justiça e Paz», La
vocazione del leader d’impresa. Una riflessione (Milão e Roma, 2013).
[8] Cf. Mensagem ao
Senhor Guy Rydes, Director-Geral da Organização Internacional do Trabalho, por
ocasião da 103ª sessão da Conferência da O.I.T. (22 de Maio de
2014): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 05/VI/2014), 7.
[10] «Mediante
o conhecimento desta esperança, ela estava “redimida”, já não se sentia
escrava, mas uma livre filha de Deus. Entendia aquilo que Paulo queria dizer
quando lembrava aos Efésios que, antes, estavam sem esperança e sem Deus no
mundo: sem esperança porque sem Deus» ( Bento XVI, Carta enc. Spe salvi, 3).
[11] Discurso aos participantes na II Conferência Internacional
« Combating Human Trafficking: Church and Law Enforcement in
partnership» (10 de Abril de 2014): L’Osservatore
Romano (ed. portuguesa de 17/IV/2014), 8; cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 270.

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