''Se for preciso, o Papa Francisco vai abrir passo aos padres casados, sem hesitar.'' Entrevista com Alberto Melloni
"Um
cardeal diria que o celibato dos padres é uma tradição venerável, que
não pode ser tratada como uma questão banal, de consumo carnal ou erótico. Eu
diria que essa é a sua vocação, o seu chamado, a sua vida. Exatamente como
pessoa casada, eu diria que o seu matrimónio é o que ele quis e o que mais
desejou. Que é o que ele ama. Que é a plenitude de sua vida."
A reportagem
é de Virginia Della Sala, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 20-02-2015.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Alberto Melloni é um
historiador italiano, especialista em história do cristianismo e,
particularmente, do Concílio
Vaticano II. Em março,
ele vai publicar, pela editora Il Mulino, um livro intitulado Amore senza fine, amore
senza fini [Amor sem
fim, amor sem fins] sobre o matrimónio.
Eis a
entrevista.
O celibato,
como a concepção para o matrimónio, faz parte da vocação do sacerdote?
De um ponto
de vista espiritual, é a vocação para o Reino de Deus. É o modo pelo qual
os padres respondem à busca de Deus na vida, em todas as coisas, das maiores às
menores. Representa
uma escolha à qual se deve ser fiel. Fala-se de vocação celibatária.
Existe também
uma vocação sacerdotal não celibatária?
Sim. Na
doutrina católica, deve-se distinguir o "estado de vida", que pode
ser celibatário ou uxorado [casado], e que prevê o chamado pessoal a uma das
duas, do "ministério". As duas coisas estão desvinculadas, mas há o
costume de reservar o sacerdócio àqueles que fizeram uma escolha de vida de
celibato. Não é Deus quem impõe isso: é uma escolha de direito humano, uma
obrigação de disciplina, não de direito divino, como, ao contrário, é o fato de
reservar o sacerdócio só aos homens.
Por que para
a Igreja é tão importante que o sacerdócio seja reservado aos célibes?
O celibato
foi inserido com uma norma reformadora, uma espécie de decreto medieval para a
anticorrupção, pelos reformadores gregorianos do século XI. Servia para impedir
que o episcopado se tornasse um cargo hereditário. Ele resolvia o problema da
herança patrimonial e garantia que não houvesse mais entrelaçamentos entre bens
eclesiásticos e bens temporais.
O celibato,
portanto, nasce apenas para garantir a separação entre as necessidades
materiais e as espirituais do padre?
Praticamente,
sim. Depois, do século XVII ao século XIX, foi teorizada uma espiritualidade do
celibato. Nasceu uma bela construção mística que se baseava na ideia de uma
excelência do estado celibatário em relação ao estado conjugal. Fazia-se
referência às doutrinas do Novo
Testamento,
especialmente aos escritos do discípulo Paulo, que, ao
contrário de Pedro, não era casado e, nas suas cartas,
inseria recomendações com um selo fortemente anticonjugal. O celibato era visto
como uma forma de matrimónio com Jesus. O
sacerdócio tornou-se uma função desempenhada "in persona Christi". Não se casar era apenas a constatação
da intensidade da doação, da prova de si mesmo, de abnegação em relação a Deus.
O princípio foi tão forte que deu início a uma cultura revolucionária do
celibato: houve um celibato mazziniano e um bolchevique, baseados na ideia de
que um homem que tem coisas importantes para fazer não tem tempo para formar
uma família.
Por que hoje
a Igreja deveria mudar de ideia?
Porque, sem
padres, não se celebra a missa. Diante da crise das vocações, a Igreja deve
fazer uma escolha. E não pode deixar de escolher a Eucaristia, que é reservada
apenas aos padres. E se, para celebrar, for preciso estender o sacerdócio também para as pessoas casadas, a
Igreja fará isso. O Papa
Francisco fará isso sem
hesitação. Embora não se exclua que os problemas ligados à herança matrimonial
também poderiam vir à tona: do sustento das viúvas à assistência aos filhos, o
problema vai exigir a aplicação das devidas cautelas.

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