«Agora Francisco ainda deve enfrentar problemas muito árduos, até agora apenas mencionados», opinião de Eugenio Scalfari, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica


Papa Francisco ainda deve enfrentar problemas muito árduos, até agora apenas mencionados

O primeiro deles, que ninguém ainda se fez, mas que é de uma evidência flagrante, diz respeito aos presbíteros, isto é, aos sacerdotes que administram os sacramentos e têm o poder de absolver ou punir aqueles que julgam como pecadores.

Os presbíteros, isto é, os padres e a hierarquia que envolve a todos, só existem na Igreja Católica e têm a proibição de se casarem.

Em nenhuma outra religião existem padres e celibato, e em nenhuma outra religião a doutrina é transformada em código. Os judeus têm as suas Escrituras e os seus preceitos, mas os rabinos são apenas mestres, não têm nenhum sacramento nem obrigações de celibato. Explicam e interpretam as Escrituras, essa é a sua tarefa, não mais do que isso.

Os muçulmanos também têm as suas Escrituras e a sua doutrina, mas não há qualquer vestígio de sacerdotes. Mas atenção: as várias seitas muçulmanas têm mestres que interpretam o Alcorão, mas também tribunais que indicam o inimigo a ser morto por ser infiel. Potencialmente, são teocracias, às vezes de modo direto como no Irã, e às vezes indiretamente, já que a tentação ao fundamentalismo é forte e muitas vezes nefasta.

E assim, mesmo sendo cristãos, isso ocorre em todas as várias confissões protestantes onde não existem padres, mas pastores. Os pastores se assemelham de algum modo aos rabinos, são mestres, têm famílias, administram aqueles sacramentos que as várias confissões conservaram, mas o contato entre o homem e Deus não é obrigatoriamente mediado pelos bispos com o cuidado das almas e, em todo o caso, dos padres. É um contato direto.

Essa foi a grande revolução de Lutero: o crente lê as Escrituras, a Bíblia, os Evangelhos, e a fé lhe permite o contato direto com Deus.

Então, a pergunta é esta: a Igreja de Roma conseguirá conservar a Ordem eclesiástica com os seus deveres, os seus direitos quase de casta? O problema é ainda mais atual porque algumas confissões não católicas estão se aproximando da Igreja de Roma e também podem decidir se unificar com ela. Já aconteceu com alguns anglicanos, pode acontecer com os ortodoxos.

Mas os pastores, se decidem se tornar católicos, trazem consigo a família que legitimamente constituíram, como, aliás, já acontece há séculos com a Igreja Oriental, que sempre foi católica, mas sem a obrigação do celibato.

E, depois, há o outro grande tema da família, ao qual o Papa Francisco dedicou grande parte do Sínodo que terá, nos próximos meses, a sua conclusão.

Por fim, há o tema do Concílio Vaticano II: o contato com a cultura moderna, que tem suas raízes no Iluminismo. Esse movimento intelectual, que teve o seu maior desenvolvimento na Inglaterra e na França do século XVIII e teve em Diderot, em Voltaire, em Hume, em Kant os seus mais altos representantes, não acreditava na verdade absoluta, mas na relativa, que exclui a existência de Deus ou a admite como motor da criação da vida, que, depois, se desenvolve através de uma evolução autônoma e ditada por leis autônomas.

O Deus dos "teístas" não tinha nenhum atributo que se assemelhasse ao Deus cristão: não era misericordioso, nem vingativo, nem generoso, não intervinha na história e no destino, não se coloca o problema do mal e do bem. Era um motor, uma força cosmogônica que tinha acendido a luz da vida em alguns lugares do universo e, depois, tinha se retirado, adormentado ou ocupado em outras criações vitais.

A Europa teve o Iluminismo como base da modernidade. O tema do Vaticano II, que está muito no coração Papa Francisco, é entender o comprimento de onda com o qual se pode falar com essa Europa (e América do Norte) fortemente descristianizada e que se tornou terra de missão.

É muito provável que o Jubileu desejado por Francisco seja justamente o início da ação missionária, com todas as suas consequências, não só do outro mundo, mas também terrivelmente atuais na maré de terrorismo, guerras e tensões locais, crescente violência, famílias destroçadas e filhos desesperados, e, suma, do mais grave dos pecados que é o da desigualdade, da pobreza ignorada, da supremacia do poder e da guerra sobre amor e sobre a paz; o tema da misericórdia, em suma, é o mais adaptado não só religiosamente, mas também social e economicamente para recuperar o amor, a paz e a esperança em relação ao poder, à guerra e ao desespero.

Que o Papa Francisco viva muitos anos.

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