Os padres de Bergoglio, pastores globais sem clericalismo e carreirismo


Existe um modelo de padre que, há muito tempo, o Papa Francisco está propondo para a Igreja. Ele fez isso durante muitos discursos "informais", durante as famosas homilias matinais das missas celebradas em Santa Marta e através de mensagens oficiais como a que foi destinada à Conferência Episcopal Italiana em novembro passado.

Francisco vê de perto a crise das vocações que afeta há muito tempo, em primeiro lugar, o Ocidente, ou seja, a parte do mundo em que a tradição cristã tem raízes antigas. E nessa área do mundo a Europa é o continente onde o afastamento da fé e da batina é sentido de modo particularmente evidente.

Assim, o bispo de Roma está tentando dar uma resposta à crise profunda da fé, conjugando uma ideia de Igreja popular e não barroca com o perfil do pastor que deve anunciar o Evangelho neste tempo.

Assim, se a Igreja deve se transformar em um hospital de campanha, em um lugar em que se acolhe e não se rejeita o "ferido" com base em algum artigo do catecismo aplicado secamente e sem olhar para a pessoa, se a Igreja deve deixar de funcionar como uma alfândega em que se deve ter todos os documentos em ordem para entrar, o sacerdote que está em contato com a comunidade dos fiéis deverá, em primeiro lugar, estar no meio do seu povo.

"Não servem padres clericais, cujo comportamento corre o risco de afastar as pessoas do Senhor, nem padres funcionários, que, enquanto desempenham um papel, buscam longe d'Ele a própria consolação." O Papa Francisco deixou isso claro na mensagem dirigida à CEI em novembro de 2014.

Palavras claras que talvez perturbaram uma Igreja um pouco curvada sobre si mesma e que se depara, com crescente dificuldade, com uma sociedade em constante mudança.

Na ocasião, o papa também chamava a atenção dos bispos. Entre as suas tarefas – repetiu ele várias vezes – há também o de estarem perto dos sacerdotes que, na vanguarda, mantêm viva a viva. Quantos deles, explicava Francisco, "com o seu testemunho, contribuíram para nos atrair a uma vida de consagração".

"Nós os vimos gastarem a vida entre as pessoas das nossas paróquias – afirmava o papa –, educando os jovens, acompanhando as famílias, visitando os doentes em casa e no hospital, cuidando dos pobres, na consciência de que 'separar-se para não se sujar com os outros é a maior sujeira'", observou ainda, citando o grande escritor russo Tolstoi.

Mas, se essa é a tarefa nada fácil dos padres, a fraqueza, a queda pode atingi-los ao longo do caminho. Então, é tarefa dos bispos, das Conferências Episcopais recorrer a instrumentos de formação permanente, a verificações periódicas, tentando captar os elementos de cansaço e de solidão que podem marcar a vida de um padre.

Em suma, é um olhar realista voltado pelo pontífice para a condição sacerdotal, fundamentado na consciência de que a escolha de ser padre hoje vai contra a sensibilidade e a cultura dominantes.

Aliás, os números são claros. De 2002 a 2012, a última década para a qual existem dados disponíveis, o número de sacerdotes esteve em queda constante (cerca de 5 mil a menos só na Itália; freis e freiras registram, em todos os lugares, nos países ocidentais, uma contração que parece irrefreável).

Restam mais de 30 mil sacerdotes diocesanos na Itália, mas sobre esses números incide a presença do Vaticano e das inúmeras instituições ligadas a ele (sem contar a idade média superior aos 60 anos).

As novas ordenações, além disso, caem em todo o Velho Continente. Na Itália são agora pouco mais de 300 por ano (em alguns Estados, poucas dezenas). Mas também é preciso ver quanto tempo elas duram. O crescimento ocorre em outros lugares, na África e, em particular, na Ásia, onde florescem Igrejas jovens, mas os católicos são muitas vezes uma minoria.

Mas nem por isso é preciso alargar as malhas dos seminários, ao contrário, o risco é de deixar entrar pessoas não aptas, que têm problemas de relacionamento ou de socialização. O escândalo dos abusos infantis também é filho dessas políticas superficiais.

O Papa Francisco lembrava disso em outubro 2014: "Por favor – era o convite lançado pelo pontífice aos bispos –, é preciso estudar bem o percurso de uma vocação! Examinar bem se aquele homem é sadio, se aquele homem é equilibrado, se aquele homem é capaz de dar vida, de evangelizar, se aquele homem é capaz de formar uma família e renunciar a isso para seguir a Jesus".

Muitos problemas em inúmeras dioceses, acrescentava o papa, surgem porque os bispos acolheram as pessoas que, depois, são expulsas dos seminários e das casas religiosas. Por um lado, havia o problema dos abusos e, por outro, o das vocações incompletas, feitas por pessoas que depois voltavam a uma vida como leigos.

Tornar-se padre, portanto, segundo a abordagem de Bergoglio, não é uma profissão. O padre não deve ser um organizador nem o chefe de uma ONG. A sua missão se realiza, sim, através de instrumentos sociais ou de caridade, mas na ótica forte do Evangelho, de uma fé que orienta profeticamente todo o povo de Deus, incluindo os pastores.

Assim, a adesão à palavra de Jesus, a sua proximidade aos últimos, aos pobres, deve ser tornar central na vida do sacerdote, que também é feita de espiritualidade, de oração.

Mas Francisco, nos últimos meses, tocou também outro ponto clássico de crise da vida sacerdotal, o da relação com o dinheiro. O papa denunciou publicamente aqueles padres que pedem dinheiro em troca dos sacramentos, de um casamento, de um batismo e assim por diante.

"Quantas vezes – disse ele – vemos que, ao entrar em uma igreja, ainda hoje, há ali a lista dos preços para o batismo, a bênção, as intenções para a missa... E o povo se escandaliza", porque, nessas formas, cumpre-se "o escândalo do comércio, da mundanidade".

Portanto, tomando um elemento extremo de verdade na relação entre os fiéis e a Igreja, Bergoglio afirmava: "O povo de Deus sabe perdoar os seus padres quando eles têm uma fraqueza, quando deslizam em um pecado. Mas há duas coisas que o povo de Deus não pode perdoar: um padre apegado ao dinheiro e um padre que maltrata as pessoas!"

reportagem de Francesco Peloso, publicada no sítio Vatican Tabloid, 06-04-2015. 
A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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