Deus é um Deus próximo. Os Padres da Igreja chamavam a esta
verdade condescendência divina, um “abaixar-se de Deus”, acomodar-se às
capacidades do homem. E tudo por amor.
Deus é um Deus próximo da nossa vida: que por amor gratuito
fez de Israel o seu povo eleito, que por amor paterno lhe dirigiu a sua
Palavra, que com amor firme o libertou “com mão forte e braço poderoso” da
escravidão (1.ª leitura), e que, aos que estamos batizados no seu Nome, nos
concede ser filhos adotivos seus (2.ª leitura) e nos lançou pelo mundo para
ensinar esta verdade ensinada por Cristo (Evangelho).
Comentário à Solenidade da Santíssima Trindade por P.e Antonio Rivero, L.C.
Textos: Deut 4, 32-34.39-40; Rm 8, 14-17; Mt 28, 16-20
Este abaixar-se de Deus até nós foi progressivo. São
Gregório Nazianzeno diz: «No Antigo Testamento se revelou claramente o Pai e
começou a se revelar, de forma ainda velada e escura, o Filho. No Novo
Testamento, se revelou claramente o Filho e começou a fazer-se luz o Espírito
Santo. Agora (na Igreja), o Espírito habita entre nós e se revela abertamente.
Desse modo, por sucessivas conquistas e ascensões, passando de claridade em
claridade, era necessário que a luz da Trindade brilhasse diante dos olhos já
iniciados na luz» (Oratio, 31,26). Santo Agostinho viu com mais clareza este
mistério: esse Deus que se aproxima e condescende com o homem é Amor, é uma
Trindade de Amor na qual o Pai é o amante, o Filho, o amado, e o Espírito
Santo, a amor (cf. De Trinitate, VIII, 10,14; IX, 2,2). A primeira leitura nos
dá gestos de amor desse Deus: nos fala através dos patriarcas, profetas;
salva-nos da escravidão. Ele será a alegria para nós, com tal de guardarmos a
sua Palavra e os seus mandamentos.
Na segunda leitura de hoje este Deus tão próximo dá um passo
mais: é Pai amoroso e nós somos filhos no Filho. A analogia nos permite
distinguir claramente entre a nossa filiação e a do Senhor Jesus: Ele é Filho
por natureza, nós somos por incorporação. A mesma analogia, embora imperfeita,
não é uma filiação fictícia, mas “uma participação real na vida do Filho único”
(Catecismo da Igreja Católica, 460), “por quem podemos invocar Deus Pai com o
mesmo nome familiar que usava Jesus: Abba” (Juan Pablo II, Catequese do dia 16
de dezembro, 1998). Por que é uma filiação autêntica? Porque se realizou em nós
uma profunda mudança na nossa natureza, uma transformação ontológica que nos
configura com o Senhor Jesus e nos incorpora no seu Corpo místico, que é a
Igreja (Catecismo da Igreja Católica, 1121; 1272-1273). Por um Dom do Pai os
que cremos no Filho único chegamos a ser verdadeiramente filhos no Filho único
(Jo 1,12), segundo a comovida expressão do apóstolo João: “Vede com que amor o
Pai nos amou para nos chamar filhos de Deus, e de fato, o somos!” (1 Jo
3,1).
Finalmente, no evangelho, dá-se o terceiro passo desta bela
revelação de Deus. Deus é Trindade. O Deus uno e simples, vive em três Pessoas:
o Pai, o Filho, que assumiu carne em Cristo, e o Espírito Santo. A Trindade
significa que Deus não é um Deus solitário, mas é uma comunidade de amor. Deus
é um amor feito vida: amor como pessoa. O resto do que sabemos ou podemos saber
de Deus vem como consequência. E neste evangelho, Cristo nos anuncia a missão
que encomendou à Igreja. É uma triple missão: evangelizadora (“Ide e fazei
discípulos”), celebrativa (“batizando-os no nome do Pai e do Filho e do
Espírito Santo”) e vivencial (“ensinando-os a guardar tudo que eu vos
mandei”).
Para refletir
Como experimento na minha vida o amor da Santíssima
Trindade? Como trato cada dia a Trindade Santa? Com qual Pessoa divina tenho
mais intimidade: com o Pai, com o Filho, com o Espírito Santo? Com quem mais me
assemelho: com o Pai na sua ternura, com o Filho na sua sabedoria, como
Espírito Santo no seu bálsamo consolador?
Para rezar
Rezemos com a beata Isabel da Trindade:
“Ó meu Deus, trindade adorável, ajudai-me a esquecer-me de
mim por inteiro para me estabelecer em Vós!
Ó meu Cristo amado, crucificado por amor! Sinto a minha
impotência e vos peço que me revistais de Vós mesmo, que identifiqueis a minha
alma com todos os movimentos da vossa alma; que me substituais, para que a
minha vida não seja mais que uma irradiação da vossa própria vida. Vinde a mim
como adorador, como reparador e como salvador...
Ó fogo consumidor, Espírito de amor! Vinde a mim, para se
faça em minha alma uma como encarnação do Verbo: que eu seja para ele uma
humanidade sobre acrescentada na que ele renove todo o seu mistério.
E Vós, Ó Pai, inclinai-vos sobre a vossa criatura; não
vejais nela mais que o vossa amado no qual pusestes todas as vossas
complacências.
Ó meus três, meu tudo, minha felicidade, solidão infinita,
imensidão na qual me perco! Entrego-me a Vós como uma presa; sepultai-vos em
mim para que me sepultar em Vós, na espera de ir para contemplar na vossa luz o
abismo das vossas grandezas.»

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