«Os conterrâneos de Jesus Cristo sofriam de miopia espiritual: "Não é ele o filho do carpinteiro". E nós?» Comentário às leituras bíblicas do XIV Domingo Comum


As três leituras deste domingo apresentam um panorama nada agradável nem consolador: a incredulidade e a teimosia de tantas pessoas face à mensagem de Cristo.

Na primeira leitura, o pobre profeta Ezequiel experimenta essa teimosia e rejeição da mensagem de Deus que ele devia pregar. É enviado aos israelitas, aos rebeldes de Israel, teimosos e obstinados. Rebeldes pela sua apostasia e idolatria e também pela sua oposição contra Nabucodonosor, feita realidade na atitude de Jecomias e Sedecias na dos seus súditos contra o rei de Babilónia. Mas Ezequiel é fiel à sua missão e ele transmite as palavras de Deus, especialmente palavras de juízo, que Deus lhe entrega num rolo e que ele há de comer e assumir para fazê-las próprias. O resultado destas palavras de juízo será para o povo de Israel lamentações, gemidos e ameaças (Ez 2,10), mas para o profeta será algo doce como o mel (Ez 3,3). Isto manifesta o implícito contraste da obediência de Ezequiel à voz divina com a rebeldia do povo de Israel. Ezequiel é um autêntico mártir no duplo sentido da palavra: testemunha e vítima. Mas ele se manterá firme na hostilidade e no isolamento que experimenta. 

Na segunda leituraPaulo também experimenta essa teimosia: açoites, cárcere, ameaças, perseguições...

No Evangelho, o próprio Jesus sofre também essa teimosia, hostilidade e solidão na sua terra. Que humilhação! Ele mesmo se estranhou porque não esperava isso e nem merecia. Prega na Sinagoga, mas a única coisa que consegue é que os seus conterrâneos perguntem de onde lhe veem essa sabedoria e esses milagres que dizem fazer.
Felizes deveriam estar e festejar que um grande profeta tenha saído do seu povoado! Mas não, não foi assim. Os seus conterrâneos sofrem de miopia espiritual; não veem nada da grandeza de Jesus, cegados pelas suas mesquinhezes e preocupações diárias. Por isso, não realizou muitos milagres entre eles, pois não são números de circo para sugestionar os curiosos e fazer gritar os exaltados. Não os fez, não porque não pudesse, já que era onipotente, mas porque esse povo não estava disposto para receber a fé que lhe oferecia. Esse povo não aceitou Deus com roupagem humano: detrás desse filho do carpinteiro se escondia o Verbo de Deus e o Salvador da humanidade. Pedra de escândalo foi Jesus para esses homens incrédulos! Desde aquele dia, Jesus se calará no seu povo.

Entre nós, hoje
Se alguém pensa que na vida tudo são aplausos e saúde, é bom ler de novo o evangelho de hoje, para não se enganar. 
Quantas humilhações sofrem os pais de família por parte dos seus filhos ingratos! Quantas humilhações podem sofrer os trabalhadores dos seus chefes! E nas paróquias, quanta teimosia e pretensões de soberba de alguns que estão na frente dos grupos.
Deus seguirá dizendo o que disse a Ezequiel: continua falando, embora não te deem bola. Se não te dão atenção, será responsabilidade deles. Devemos cuidar e acrescentar a nossa própria fé, e ao mesmo tempo não abrandar no nosso empenho de ajudar os demais também nesse crescimento da própria fé, sem esperar necessariamente frutos a curto prazo.

Para refletir
O que experimento quando sofro teimosias e hostilidade ao meu redor, por pregar e dar testemunho da minha fé em Cristo Jesus? Desanimo-me ou, ao contrário, cresço e peço forças a Deus?

Para rezar
Medita estas palavras: “Filho, se te aproximas para servir ao Senhor, prepara a tua alma para a prova. Corrige o teu coração, e fica firme, e não te angusties no tempo da adversidade. Junta-te a Ele e não te separes, para que sejas exaltado no final da tua vida. Tudo o que te acontecer, aceita, e nas humilhações, sê paciente. Porque no fogo se purifica o ouro, e os que agradam a Deus, no forno da humilhação. Confia Nele, e Ele te ajudará, endireita os teus caminhos e espera Nele. Os que temeis ao Senhor, aguardai a sua misericórdia, e não vos desvieis, não seja que caiais. Os que temeis ao Senhor, confiai Nele, e não vos faltará a recompensa. Os que temeis ao Senhor, esperai bens, gozo eterno e misericórdia” (Eclesiástico 2,1-22).

Comentário do P.e Antonio Rivero, L.C
Textos: Ez 2, 2-5; 2 Co 12, 7-10; Mc 6, 1-6


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