Catequese II: A missão do amor
SEGUNDA DE DEZ CATEQUESES PREPARATÓRIAS
DO VIII ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS FILADÉLFIA, 22 a 27 de setembro de 2015
Deus opera por meio de nós. Temos uma missão. Há um
propósito neste mundo para nós: receber o amor de Deus e manifestá-lo aos
outros. Deus busca curar um universo ferido. Convida-nos a sermos suas
testemunhas e operários nesta obra.
A Sagrada Escritura oferece a substância e a forma do
significado do amor
21. A história começa com o fato de termos sido criados à
imagem de Deus. Na história, Deus convoca e forma um povo. Ele faz uma aliança
connosco: primeiro por meio de Israel, depois por Cristo e pela sua Igreja.
Nesta relação, Deus nos ensina a amar como Ele ama.
22. Com outras palavras, uma vez que fomos criados para a
comunhão, aprendemos que o amor é a nossa missão. O dom de nossa existência
precede e modela o que fazemos e como vivemos. Em suma: “o modo de Deus amar
torna-se a medida do amor humano”.
23. A humildade é o requisito para se viver desta forma.
Isso requer que conformemos os nossos corações a Deus e vejamos o mundo por
meio de Seus olhos. O melhor caminho é Deus, embora nem sempre o mais fácil.
24. A Bíblia é plena de imagens do amor de Deus. Ele se
apresenta como um pai acolhedor de seu filho retornando à casa, e para quem
realiza um banquete (cf. Lc 15, 1132). Ele é o pastor em busca de sua ovelha
perdida (cf. Lc 15, 37). Deus é uma mãe que conforta seus filhos (cf. Is 66,
13). Deus é um amigo que doa sua vida em favor dos outros, e chora quando seus
amigos sofrem (cf. Jo 11, 35). Ele é um pedagogo que nos conduz a amar e servir
aos outros como nossos irmãos (cf. Mt 22, 39). Deus é o jardineiro que de nós
cuida até produzirmos bons frutos (cf. Jo 15,1). Ele é o Rei que nos convida
para o banquete de núpcias de seu filho (cf. Mt 22, 114). Deus ouve o clamor do
homem cego e para a fim de perguntar: O que você quer que eu faça por você?
(cf. Mc 10, 4652). Deus é acolhedor, pleno de compaixão para com seu povo,
quando este está faminto oferece-lhe comida e doa-se a si mesmo (cf. Mt 26,26).
O matrimónio é uma essencial imagem bíblica do amor de Deus
25. Todas essas imagens e muitas outras nos ajudam a
perceber a profundidade do amor de Deus. Elas enfatizam o tipo de amor a que
somos chamados a testemunhar em nossas próprias vidas. O Papa Bento XVI
observou que uma imagem fundamental nos oferece um contexto para todas as
outras: “Deus ama o seu povo”. A revelação bíblica, com efeito, antes de tudo é
expressão de uma história de amor, a história da aliança de Deus com os homens.
Eis porque a história do amor e da união entre um homem e uma mulher na aliança
do matrimónio foi assumida por Deus como símbolo da história da salvação.
26. A imagem do matrimónio é central para a descrição da
aliança de Deus com Israel, e mais adiante, com a Igreja. Assim ensina o Papa
Bento XVI: “O matrimónio baseado num amor exclusivo e definitivo torna-se o
ícone do relacionamento de Deus com o seu povo e, vice-versa”. Tema central na
Sagrada Escritura é aliança com Deus, e o matrimónio é uma metáfora
privilegiada para descrever o relacionamento d’Ele com a humanidade. Nesta
perspetiva, quando ainda era arcebispo de Munique, Bento XVI havia explicado:
Podemos afirmar que Deus criou o universo para que pudesse entrar em uma
história de amor com a humanidade. Ele o criou de modo que o amor pudesse
existir. Por trás disso estão palavras de Israel que nos conduzem diretamente
ao Novo Testamento... Deus criou o universo e desta forma é capaz de tornar-se
um ser humano, derramar seu amor em nós e nos convidar a retribuir esse amor.
27. Esta imagem nupcial inicia-se no Antigo Testamento.
Aprendemos ali que Deus nos ama de forma íntima, com ternura e anseio.
“Sobretudo os profetas Oseias e Ezequiel descreveram esta paixão de Deus pelo
seu povo, com arrojadas imagens eróticas.” Em Oseias, Deus promete “seduzir”
Israel “falando-lhe de forma carinhosa”, até que ela “responda como nos dias de
sua juventude” e me chame de “seu esposo” (cf. Os 2, 1416). Em Ezequiel, Deus
fala a Israel em imagens sensoriais: “Estendi o manto sobre ti para cobrir a
nudez. Eu te fiz um juramento, estabelecendo uma aliança contigo – oráculo do
Senhor Deus – e passaste a ser minha. Banhei-te na água [...] e te ungi com
óleo. [...] Ficaste extremamente bela e chegaste à realeza.” (Ez 16,713)
Encontramos linguagem semelhante em Isaías, Jeremias e nos Salmos. O livro do
Cântico dos Cânticos também impulsionou pregações ao longo dos séculos
utilizando o matrimónio para explanar a intensidade do amor de Deus para com o
seu povo.
A Bíblia não é sentimentalista em relação ao amor conjugal
28. O casamento entre Deus e o seu povo não pode ser
empedernido. “O relacionamento de Deus com Israel é descrito com as metáforas
do noivado e do matrimónio”, desta forma quando o povo de Deus peca, essa queda
torna-se um tipo de ‘adultério e prostituição’. Em Oseias, o amor de Deus por
Israel o coloca na posição do esposo traído por uma esposa infiel. Assim Ele
fala a Oseias: “Vai amar de novo aquela mulher adúltera, amada por um amante. É
dessa forma que o Senhor ama os filhos de Israel, apesar de o terem trocado por
outros deuses.” (Os 3,1).
29. Quando o povo de Deus se esquece de seus mandamentos,
negligencia em seu meio o pobre, procura a segurança proveniente de forças
estrangeiras ou se volta para falsos deuses – as palavras adultério e
prostituição são os termos apropriados para descrever sua infidelidade.
30. Ainda assim, Deus permanece inabalável. O Papa
Francisco, em uma recente reflexão sobre o texto de Ezequiel 16, percebe como
Deus fala palavras de amor mesmo quando Israel lhe é infiel. Israel peca,
esquece-se do único Deus, prostitui-se ao buscar falsos deuses. Porém Deus não
abandona o povo da aliança. O arrependimento e o perdão sempre são possíveis.
Sua misericórdia significa que Ele busca o bem de Israel enquanto este foge
d’Ele. “Mulher abandonada e aflita, o Senhor te chama. Esposa da juventude um
dia abandonada, contigo fala o teu Deus. Por um breve instante eu te abandonei,
com imenso amor de novo te recolho […] com amor eterno voltei a me apaixonar
por ti” (Is 54, 68). Deus persevera em seu amor pelo seu povo, mesmo que
caíamos, mesmo quando insistimos em tentar viver sem Ele.
31. Nos mesmos moldes, o amor cristão envolve muito mais do
que emoção. Este inclui o erótico e o afetivo, mas também a escolha. O amor é
uma missão que recebemos, uma disposição para acolher; uma convocação à qual
aderimos. Este tipo de amor possui dimensões que descobrimos à medida que nos
rendemos a ele. Este tipo de amor procura e segue o Deus cuja aliança de
fidelidade nos ensina o que é o amor. Deus nunca troca Israel por uma parceira
mais atraente. E Ele também não se torna desencorajado pela rejeição. Ele nunca
é temperamental. Deus deseja somente o melhor, o verdadeiro, e o supremo bem
para o seu povo. Como o seu amor por Israel é uma paixão ardente – ninguém ao
ler os profetas pode negar isso – este aspeto ‘erótico’ do amor divino é sempre
fermentado com Sua fidelidade sacrificial. O eros de Deus sempre está integrado
à Sua compaixão e paciência.
Matrimónio, amor e o sacrifício de Cristo na cruz
32. O amor de Deus é retratado de forma muito vivaz na Carta
aos Efésios, capítulo 5. Neste trecho, São Paulo emprega a analogia do
matrimónio em relação a Cristo e à Igreja. Paulo incita tanto os maridos quanto
as mulheres a “serem submissos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5,21). O
matrimónio cristão não é, portanto, uma negociação de direitos e
responsabilidades, mas antes uma manifestação de uma mútua doação. É muito mais
radical do que qualquer igualitarismo. De fato, Paulo escreve que “o marido é a
cabeça da mulher, como Cristo também é a cabeça da Igreja” (Ef 5,23). Mas o que
isso significa no contexto e na prática? Paulo conclama os maridos a um amor
abnegado que espelha o sacrifício de Cristo na cruz. Paulo, em profunda
contraposição a outros códigos conjugais do mundo antigo, destrói o machismo e
a exploração, quando ensina uma dinâmica à imagem de Deus: “Maridos, amai
vossas mulheres como Cristo também amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef
5,25). A partir da leitura de Efésios 5, a Igreja fala do matrimónio enquanto
sacramento e convoca os casais a esse tipo de comunhão cruciforme e de
sacrifício pelo outro.
33. Jesus capacita os cristãos a falar confiantemente sobre
o amor de Deus. Ele concede a aliança de Deus, em sua plenitude, a todos os
povos, e assim, realiza-se a história de Israel como uma narrativa universal da
redenção. Jesus incorpora o amor-doação pois Ele é, literalmente, a Palavra de
Deus feita carne. Ele ama a Igreja como sua esposa, e isso é amor altruísta –
provado pelo sangue derramado na cruz – que se propõe como modelo para o tipo
de amor e serviço necessários em cada casamento e família cristã.
34. Como ensinou o Papa Bento XVI: “O olhar fixo no lado
trespassado de Cristo de que fala João (cf. 19, 37), compreende [...] ‘Deus é
amor’ (1Jo 4, 8). É lá que esta verdade pode ser contemplada. E começando de
lá, pretende-se agora definir em que consiste o amor. A partir daquele olhar, o
cristão encontra o caminho do seu viver e amar”.
35. Hoje, para muitos, ‘amor’ é um pouco mais que um
calorzinho no coração ou uma atração física. Estas coisas até têm o seu lugar,
contudo, o verdadeiro amor – um amor que se aprofunda, suporta e satisfaz o
coração humano ao longo de toda uma vida – cresce a partir do que ofertamos aos
outros, e não do que tiramos para nós mesmos. O Senhor Jesus morreu na cruz
para a nossa salvação. Aquela capacidade radical e libertadora de abandonar
nossas prerrogativas e nos ofertarmos aos outros é o elemento que torna coeso
todo o ensinamento católico sobre o matrimónio e a família. O ensinamento
católico autêntico sobre o matrimónio e a família faz a separação entre amor
verdadeiro e todas as outras falsas formas.
36. A Sagrada Escritura possui muitas outras formas complementares
e sobrepostas de descrever o amor de Deus, mas a do matrimónio é a que se
sobressai. A aliança entre Deus e seu povo – primeiro Israel e depois a Igreja
– é como um casamento. Este casamento nem sempre é fácil, mas o pecado nunca
possui a última palavra. A fidelidade de Deus revela como o amor verdadeiro e a
fidelidade realmente são. Jesus Cristo, que nos acolhe a todos como membros da
família de Deus, dá-nos uma definição nova e inaudita do amor, oferece-nos
novas possibilidades para vivenciá-lo.
Questões para partilha
Por que o amor de Deus assemelha-se ao matrimónio?
De que forma o amor de Deus se distingue do nosso modo de
amar?
O que é o verdadeiro amor e como fazer para reconhecê-lo?
Quais são as semelhanças e as diferenças entre a noção cultural de amor
romântico e o amor da Aliança de Deus?
Pode pensar em algum momento de sua vida no qual o amor de
Deus lhe ajudou a amar de uma forma mais intensa e honesta?

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