A cada 5 minutos morre um cristão no Médio Oriente
Os cristãos no Oriente Médio estão "mal" ou
"menos mal", declarava nos últimos dias o patriarca latino Fouad Twal
de Jerusalém, mas acrescentando que a condição dos palestinos na Cisjordânia,
sem dúvida, é ainda melhor do que os desafios enfrentados pelos cristãos na
Síria e no Iraque, especialmente aqueles que são forçados a abandonar suas
casas diante do avanço dos militantes do Estado Islâmico.
Reportagem de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no
sítio Vatican Insider, 27-07-2015. Tradução
de Moisés Sbardelotto.
"Assistiremos ao fim do cristianismo no Oriente
Médio?", pergunta o jornal New York Times no seu caderno especial Magazine
do domingo, 26 de julho, intitulado "A sombra da morte".
A partir da história de Diyaa e Rana, um casal de Qaraqosh,
a maior cidade cristã na planície de Nínive, no Iraque – 1.500 milhas quadrados
encravadas entre o território curdo e o árabe, até o verão passado quase o
celeiro do Iraque pelos seus extensos cultivos de cereais, mas também
florescentes criações de gado e de aves, o centro vivo com inúmeros bares e
atividades comerciais.
A história afunda as suas raízes no início da fé cristã
naquela terra: no pano de fundo dos testemunhos, o terror que acompanha a
disseminação das milícias do Isis, a seca dos poços (em regiões onde as
temperaturas chegam a 110ºF, mais de 43ºC), as decapitações em massa, a fuga
das populações para Erbil, a capital da região curda, 50 milhas mais a Norte.
A maioria dos cristãos do Iraque se definem como assírios,
caldeus ou sírios, nomes diferentes para indicar uma raiz étnica comum que se
desenvolveu nos reinos mesopotâmicos entre os rios Tigre e Eufrates, milhares
de anos antes de Cristo. De acordo com o historiador Eusébio, o cristianismo
teria chegado lá durante o século I, mas a tradição afirma que Tomé, um dos
Apóstolos, teria enviado Tadeu, um dos primeiros convertidos do judaísmo, a
pregar o Evangelho na Mesopotâmia.
O cristianismo cresceu em pacífica coexistência com outras
tradições religiosas, como o judaísmo, o zoroastrismo e o monoteísmo de drusos,
yazidis e mandeus: comunidades em conflito entre si, divididas por diferenças
doutrinais que persistem ainda hoje.
Quando as primeiras tropas islâmicas chegaram à Península
Arábica durante o século VII, a passagem para o domínio islâmico ocorreu sem
traumas: os cristãos do Oriente gozavam de proteção, é verdade que deviam pagar
a jizya (o imposto para os não islâmicos), mas ainda lhes era permitido aquilo
que, de outra forma, lhes seria proibido, como comer carne de porco ou beber
álcool, e os governantes muçulmanos tendiam também a serem mais tolerantes com
as minorias do que os seus homônimos cristãos, e, por cerca de 1.500 anos, as
diversas religiões prosperaram uma ao lado da outra.
Há 100 anos, dois fatos deram origem ao maior período de
violência contra os cristãos: a queda do Império Otomano e a Primeira Guerra
Mundial. O genocídio realizado pelos Jovens Turcos em nome do nacionalismo (não
da religião!) deixou espalhados pelos campos ao menos dois milhões de armênios,
assírios e gregos, em sua maioria cristãos. Entre os sobreviventes, os mais
instruídos foram para o Ocidente, outros se instalaram no Iraque ou na Síria,
protegidos pelos ditadores militares.
No arco de um século (1910-2010), o número de cristãos no
Oriente Médio, em países como Egito, Israel, Palestina e Jordânia, continuou a
diminuir: se no início os cristãos representavam 14% da população, agora são
4%.
Até mesmo no Líbano, o único país da região onde os cristãos
detêm um significativo poder, o seu número se reduziu ao longo do último
século, de 78 para 34%. As razões para o declínio devem ser contadas entre a
baixa taxa de natalidade, o clima politicamente hostil e a crise econômica, mas
também o medo faz a sua parte, e ao simultâneo aumento de grupos extremistas ou
a perceção de que as suas comunidades já estão desaparecendo levam as pessoas a
abandonarem a sua terra.
Há mais de uma década os extremistas tomaram como alvo os
cristãos e outras minorias, muitas vezes vistos como emblema do mundo ocidental:
no Iraque, a invasão estadunidense levou centenas de milhares de pessoas a
fugir.
"Desde 2003, perdemos padres, bispos, e mais de 60
igrejas foram bombardeadas no Iraque", declara Bashar Warda, arcebispo
católico caldeu de Erbil. Com a queda de Saddam Hussein, os cristãos se
reduziram para menos de 500 mil (em 2003, eram mais de um 1,5 milhão).
A Primavera Árabe só piorou as coisas. Caídos ditadores como
Mubarak no Egito e Kadafi na Líbia, a atávica proteção das minorias acabou, e
hoje o Isis está tentando erradicar os cristãos e as outras minorias,
invertendo com a força das armas a antiga história da região, para legitimar o
seu empreendimento milenar, utilizando os meios de comunicação social para
alertar a população.
Pela primeira vez, o futuro do cristianismo na região é
bastante incerto. "Por quanto tempo podemos fugir, antes que nós e outras
minorias nos tornemos apenas um capítulo dentro de um livro de história?",
pergunta-se Nuri Kino, jornalista e fundador de um grupo de defesa do pedido de
intervenção por parte do Ocidente.
Segundo um estudo do Pew, os cristãos já estão diante da
perseguição religiosa mais do que em qualquer outro momento na história.
"O Isis só acendeu os holofotes sobre um problema de sobrevivência",
diz Anna Eshoo, deputada democrata da Califórnia, cujos pais vieram daquela
região, e que é ativamente comprometida com a defesa dos cristãos do Oriente.
Desde o início da guerra civil que estourou na Síria em
2011, Assad permitiu que os cristãos abandonassem o país: quase um terço dos
cristãos, cerca de 600 mil, não tiveram outra escolha senão fugir.
Emblemática é a história de Bassam: o seu irmão Yussef se
mudou para Chicago há dois anos, ainda não tem emprego, mas a sua esposa é
empregada do Walmart e poderia ajudá-lo. "O que eu poderia fazer aqui?
Tenho quatro filhos, não posso deixá-los morrer."
Nos últimos meses, o Conselho de Segurança das Nações Unidas
se reuniu para abordar a situação das minorias religiosas no Iraque. "Se
prestamos atenção aos direitos das minorias somente depois que começou o
dramático genocídio, fracassamos de partida", declarou Zeid Ra'ad
al-Hussein, alto comissário para os Direitos Humanos.
Foi quase impossível, afirma o NYT, que dois presidentes dos
EUA – Bush, evangélico conservador, e Obama, liberal progressista –
enfrentassem explicitamente a difícil situação dos cristãos por medo do choque
de civilizações.
"Uma das sombras do governo Bush foi a incapacidade de
lidar com esse problema, consequência direta da invasão", diz Timothy
Shah, diretor do Freedom Project da Georgetown University.
Mais recentemente, a Casa Branca foi criticada por quase
omitir o próprio termo "cristão": quando o Isis massacrou os coptas
egípcios na Líbia no início do ano, o Departamento de Estado fez referência às
vítimas simplesmente como "cidadãos egípcios".
Daniel Philpott, professor de ciências políticas da Notre
Dame University, afirma: "Quando silencia sobre o fato de que o Isis tem
motivações religiosas ou que mira as minorias religiosas, a prudência do atual
governo parece excessiva".
Mesmo que o Isis fosse derrotado, o destino das minorias
religiosas na Síria e no Iraque permanecerá desoladora: "Vivemos aqui como
um grupo étnico há 6.000 anos e, como cristãos, há 1.700 anos", diz Srood
Maqdasy, membro do Parlamento curdo. "Temos a nossa própria cultura,
língua e tradição. Se vivêssemos dentro de outras comunidades, tudo isso
desapareceria dentro de duas gerações."
A solução prática, de acordo com alguns, seria constituir um
refúgio seguro na planície de Nínive, talvez gerido pela ACNUR como solução
permanente, sugere Nuri Kino, ou uma solução tipo no-fly zone, embora tudo isso
deva ser verificado pelo apoio internacional.
Para outros, a convivência entre fés diferentes acabou:
"Não há mais tempo para esperar por soluções", afirma o padre Emanuel
Youkhana, à frente do Christian Aid Program no norte do Iraque. "O Iraque
é um casamento forçado entre sunitas, xiitas, curdos e cristãos, e não foi
bem-sucedido. E eu, como sacerdote, prefiro o divórcio."

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