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O padre Duarte da Cunha (padreduarte@gmail.com) explica, em entrevista à
Renascença, que é natural que haja discussão e polémica no sínodo, uma vez que
o Papa pediu um debate livre e aberto.
Duarte da Cunha, padre português a trabalhar
actualmente na Suíça, como secretário do Conselho das Conferências Episcopais
da Europa, foi nomeado para participar no sínodo da família, na qualidade de
perito.
O sínodo, que terminará os trabalhos iniciados no de
2014, começa no dia 4 de Outubro. São vários os temas em discussão, mas os mais
polémicos têm a ver com questões como o acesso aos sacramentos por parte de
pessoas em uniões irregulares ou como acolher os homossexuais na Igreja.
Nesta entrevista, o padre Duarte da Cunha diz que a
polémica e a discussão são inevitáveis, mas esclarece que não estará no sínodo
para defender uma ou outra posição.
Filipe d'Avillez |
Rádio Renascença | 17 Set, 2015
Estava à espera desta nomeação?
Estava mais ou menos à espera, visto que o meu
trabalho pela Pastoral da Família tem vários anos e visto o facto de trabalhar
também com os bispos. Penso que foi o resultado das duas coisas, o contacto que
tenho com os bispos europeus e a experiência que tenho com a Pastoral da
Família, que fizeram alguém pensar que podia ser útil lá, e acho que foi por
isso que me chamaram.
Espero por isso também poder ajudar o melhor possível
no diálogo entre os bispos e a aprofundar este tema da família.
Em que qualidade é que vai e o que é que vai fazer?
O meu trabalho vai ser sobretudo ajudar o secretário
especial e o relator geral - que é quem apresenta os textos de síntese e as
proposições - no trabalho deles. Portanto, vai ser um bocado de secretariado e
de assistir no trabalho do secretário especial.
Além do secretário-geral do sínodo, há o secretário
especial que é aquele que organiza as proposições, os textos, as sínteses e
juntamente com o relator geral, o cardeal Erdo. Portanto, vou estar num grupo
que será composto por 15 ou 20 pessoas a fazer este trabalho.
No último sínodo houve discussões e críticas entre os
bispos por causa do relatório apresentado a meio do sínodo, com alguns a dizer
que o documento não reflectia o que tinha sido discutido. Por isso, é um trabalho
que pode não estar isento de polémica...
Em relação ao sínodo passado não sei, não estive lá.
Em relação a este, enfim, vamos para um lugar onde o Papa tem dito várias vezes
para sermos livres de discutir e há vontade de reflectir, de aprofundar e de
verificar as diversas perspectivas e sensibilidades. O meu trabalho vai ser
certamente de ouvir todos e obedecer, não vou estar ali a defender as minhas
posições, mas a tentar ser o mais obediente possível ao que vou ouvir.
Há quem diga que o facto de o Papa ter agilizado
alguns processos de nulidade pode diminuir a tensão no sínodo.
Penso que isso foi uma coisa que do último sínodo saiu
com muita clareza. Não era uma coisa polémica, era uma coisa que estava mais ou
menos aceite, que era preciso facilitar e resolver um pouco a complexidade dos
processos de declaração de nulidade dos matrimónios. A convicção que o Papa
tem, e que é partilhada por muita gente, de que muitos dos matrimónios,
infelizmente, por inconsciência ou por várias razões, são nulos, exigia uma
simplificação dos processos, sem esquecer a certeza de que a verdade é aquilo
que está em jogo.
Mas aquilo é uma coisa que já vinha do último sínodo
como uma coisa evidente, em que estava toda a gente de acordo. Não era preciso
estar à espera de mais um sínodo... É uma forma de dizer que aquilo já está
resolvido e vamos para a frente. Vamos continuar a discutir as questões e
reflectir sobre como ajudar a família, proteger a família. Pelo menos foi assim
que eu interpretei.
Está neste momento na Terra Santa, onde organizou o
encontro do Conselho das Conferências Episcopais Europeias. Que balanço é que
faz no final deste encontro?
Foi um encontro excepcional, excepcional a todos os
níveis, e estou mesmo comovido e agradecido ao Senhor por ter sido o organizador
do encontro.
De facto, ter aqui durante seis dias 40 e tal bispos,
representantes de quase todos os países da Europa, em que tivemos peregrinação
- fomos a Nazaré, a Belém, ao Santo Sepulcro, tivemos muito contacto com os
lugares santos e oportunidade para recordar Jesus e os bispos vinham muito
comovidos - foi uma coisa excepcional. Visitámos também os cristãos na Terra
Santa, visitámos uma escola em Nazaré, fizemos uma experiência de uma procissão
onde estavam 8 mil pessoas, numa aldeia onde só vivem 3 mil e em que são todos
cristãos, no Norte da Galileia. Tivemos com os religiosos de vida consagrada
que estão aqui na Terra Santa. Visitámos obras de caridade onde eles estão,
para crianças, para surdos, para idosos.
Foram seis dias muito intensos, os bispos saíram daqui
cansados, mas comovidos, e julgo que pela ajuda da comunicação social houve uma
certa mediatização que testemunha quanto os bispos estão preocupados com a
Terra Santa e quanto os bispos estão mesmo decididos a concentrar toda a sua vida
pastoral na memória da presença de Jesus Cristo.
Além disso, houve também tempo para reflexão sobre os
desafios da Europa. Houve quatro sessões em que, país por país, vimos quais
eram os grandes desafios e de onde ressaltou, como veio na mensagem final, sobretudo três grandes temas: o
tema das migrações, o tema da família e o tema da paz no Médio Oriente, na
Terra Santa e no Norte de África, com a consciência de que a paz num lado é
fundamental para a estabilidade na Europa.

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