Quase todo mundo conhece Teilhard de
Chardin cientista e sacerdote, mas poucos sabem que foi também um homem
apaixonado. Como cientista, tornou-se famoso com a teoria da evolução. Como
sacerdote e jesuíta, ofereceu-se totalmente a Deus. Entrou na Companhia de
Jesus em 1899, foi ordenado sacerdote em 1911, e fez sua profissão solene em
1918.
Não obstante as provações enfrentadas
durante sua vida tumultuada, nunca pôs em dúvida sua vocação inicial. Permaneceu
toda sua vida sacerdote e cientista. O universo era para Teilhard uma realidade
viva, dinâmica e pessoal. Repetir sempre que o universo tem espírito, coração e
rosto. O rosto, no final, tornou-se o para ele o rosto de Cristo. Inspirado
pelo “Eterno Feminino” representado pela Beatriz de Dante, Teilhard desenvolveu
a teologia do princípio unificador. Beatriz é vista como Maria. Logo depois,
esta beleza concretizar-se-á em várias mulheres.
Jesuíta, Sacerdote e cientista, como
juntou, Teilhard Chardin, o amor a Deus e o amor por uma mulher? Como
favoreceu-se desta experiência amorosa?
Excertos da palestra ministrada pelo Padre Bosco Lu, jesuíta chinês,
no Congresso sobre Teilhard de Chardin, realizado em Pequim em outubro de 2003.
Os textos foram publicados por Nouvelle Revue Théologique
e reproduzidos por L'Osservatore Romano, 01-09-2015.
A tradução é de Ramiro Mincato.
Para Teilhard o universo não é um “Ele”,
mas um “Tu”, que se preocupa e se envolve comigo num diálogo. No “Hino à
Matéria” dizia: “Eu te saúdo, Meio Divino, carregado de Potência Criadora,
Oceano agitado pelo Espírito, Argila amassada e animada pelo Verbo encarnado.
(…) Se quisermos ter a ti, é preciso que te sublimemos na dor, depois de
haver-te voluptuosamente agarrado em nossos braços.” Para Teilhard, a elevação
espiritual era comunhão espiritual com Deus por meio da Mãe Terra. A fé no
Senhor ressuscitado levou-o ao Cristo cósmico, pleno de amor-energia que renova
o mundo. Em sua procura mística, foi acompanhado, incentivado e, até mesmo
guiado pelo seu entourage feminino.
“A Divina Comédia” de Dante e o “Eterno
Feminino” de Goethe, na segunda parte do Fausto, inspiraram Teilhard a
descobrir o Eterno Feminino. Thomas King escreve no prefácio das Cartas:
"Em março de 1918, Teilhard escreveu um ensaio, “O Eterno Feminino”. Nele
explica que "quando o homem ama uma mulher, imagina que seu amor vai
somente para uma pessoa como ela, que o envolve com seu poder e que se une com
ela livremente". Mas logo é surpreendido pela violência das forças que se
manifestam nele e "estremece ao compreender" que não pode estar unido
ao Feminino sem "submeter-se a um trabalho escravo de criação
universal". Assim, o Feminino é percebido como a força que faz o homem
sair de si mesmo, para entrar na vida. O Evangelho recomendou a virgindade, o
que não significa, em absoluto, que o Feminino devia perder seu poder. A
virgindade não deve banir o amor do coração humano: "Ao contrário, deve
mantê-lo, fundamentalmente, humano”.
De acordo com Henri de Lubac, o motivo por
que Teilhard mudou Beatriz em Beatrix é que ele queria transformar o ideal
virginal presente em Dante, numa Virgem Cristã bem concreta, Maria. A primeira,
vagamente identificada, envolta num véu, como símbolo, não podia revelar o
mistério do Feminino em sua essência mais pura. Nossa Senhora, ao contrário,
como mãe do Verbo Encarnado, é uma pessoa real. Em Maria, Teilhard espelhava
sua vocação e o modo de viver no celibato consagrado.
Foi somente depois da longa formação,
concluída em 1911, com a ordenação sacerdotal, quando já tinha 30 anos,
especializando-se em Paleontologia em Paris, que viveu sua primeira experiência
amorosa. Este episódio influenciaria sua compreensão do Feminino. Marguerite
Teilhard-Chambon, prima distante de Pierre, seis meses mais velha do que ele,
também tinha crescido em Clermont-Ferrand. Como crianças, compartilharam muitas
experiências. Marguerite, mudou-se depois para Paris, habilitou-se em filosofia
e ensinava numa escola de renome. Seu reencontro, depois de longa separação,
representou uma etapa importante na educação sentimental de Teilhard.
A relação entre o jovem sacerdote e sua
prima foi, em todos os sentidos, um verdadeiro encontro de amor. Ursula King
descreve assim a história: "Teilhard descobriu o poder do “ideal
feminino" e da "beleza inalterável" somente quando encontrou sua
prima Marguerite, como mulher adulta, culta, inteligente, espírito sutil, cheia
de charme e muito gentil, dotada de fé e devoção profundas. Encontraram-se, na
véspera da guerra, e se apaixonaram. Ela foi a primeira a ouvi-lo desenvolver
suas ideias, foi sua primeira leitora, bem como sua primeira crítica. Havia
entre eles colaboração espiritual e intelectual, mas Marguerite também foi a
primeira mulher a amá-lo como homem, e foi graças a ela que Teilhard
encontrou-se totalmente consigo mesmo. A descoberta do amor por Marguerite e a
resposta amorosa dela mudou tudo. Aquela foi exatamente a energia que ele
precisava, para que suas ideias fermentassem e se organizassem
plenamente"(Spirit of Fire).
Em dezembro 1914, Teilhard foi alistado.
Do fronte, escreve várias cartas para Marguerite e compreende que o celibato
não exclui certa intimidade com o outro sexo. No elogio do “Eterno Feminino”,
diz à mulher: "Quem ouve o chamado de Jesus não deve banir o amor de seu
coração. Pelo contrário, deve permanecer essencialmente humano. Tem, portanto,
necessidade de mim para sensibilizar suas forças e despertar sua alma à paixão
do divino". Num dos últimos livros, “O Coração da Matéria”, Teilhard diz
que ninguém, mesmo dedicado à Deus, pode encontrar o caminho para "a
maturidade e plenitude espiritual, fora da influência sentimental que
sensibiliza a inteligência e estimula, ao menos inicialmente, a força de amar.
Não mais do quanto pode fazer a menos da luz, do oxigênio e das vitaminas,
nenhum homem pode fazer a menos do feminino".
Depois de Marguerite, Teilhard teve
relacionamento profundo com Léontine Zanta, Ida Treat, Lucille Swan, Rhoda de
Terra, Claude Rivière, Jeanne Mortier e outras, mas nunca desviou-se do seu
fim: todo amor para com uma mulher é para Deus e com Deus, e em última análise,
deverá convergir em Deus. Seu amor para com cada uma das mulher constituía um
relacionamento "a três termos: homem, mulher e Deus". Esta forma
triangular do amor, ou o amor-a-três, era, para Teilhard, o princípio do amor,
não apenas para ele e para os religiosos, mas para toda a humanidade.
"Logo só terá Deus para ti, num universo inteiramente virginizado. É Deus
quem te espera em mim".
Vejamos agora a amizade extraordinária que
uniu Teilhard e Lucille Swan, e o preço para manter este relacionamento.
Encontraram-se em Pequim, pela primeira vez, em 1929. A lua de mel na Cidade
Proibida durará doze anos. Teilhard, em grande parte, desenvolveu, seu poder
criativo graças às conversas com Lucille. Sua correspondência epistolar,
iniciada em 1932, continuou por vinte e três anos. O aparecimento desta
americana sacudiu os princípios do amor-a-três.
Lucille era escultora, divorciada, recém-chegada
em Pequim, de Iowa. Conheceu Teilhard por meio do Dr. Grabau, geólogo
americano, no outono de 1929. Teilhard tinha 48 anos, Lucille, nove a menos.
Tornaram-se bons amigos. Em 1932 Lucille fez o primeiro busto de Teilhard. Em
seu estúdio, enquanto posava como modelo, continuavam suas longas conversas. No
outono do mesmo ano, Teilhard partiu para a França, ausentando-se por seis
meses. Do navio, escreveu a primeira carta a Lucille (30 de agosto de 1932). No
ano seguinte, foi para os Estados Unidos, e as cartas tornaram-se mais
frequentes, em intervalos de seis ou treze dias.
Lucille acendera nele um fogo intenso que
arderia todos os anos da sua maturidade. Sua família, seus amigos e seus
futuros admiradores conheceram a força do seu amor recíproco, sua intimidade e
seu compromisso, sua separação, seu desencanto e seu sofrimento somente muitos
anos depois da morte de ambos. De fato, tiveram muito mais do que uma simples
amizade. Não compartilhavam apenas as mesmas ideias, mas também a vida, até nos
mínimos detalhes.
Em 1950, Teilhard, aos 69 anos, no “O
Coração da Matéria”, escreveu sua autobiografia, terminando com a frase:
"nada se desenvolveu em mim, senão sob o olhar ou sob a influência de uma
mulher". Enviou cópia do livro para Lucille dizendo: "Você sempre me
ajudou, por quase vinte anos, a subir para Deus, mais luminoso e mais
quente". Lucille não foi, porém, só uma colega de trabalho, mas parte da
sua personalidade. "Você tornou-se parte da minha vida mais profunda"
(17 de julho de 1936). O itinerário místico de Teilhard foi facilitado com o
auxílio da mulher que o acompanhava: Lucille. Era uma mulher que precisava de
amor e tinha coragem de amar. Sua agonia começou, quando o relacionamento
tornou-se mais profundo. Teilhard sonhava com um caminho de virgindade, ou de
amor-a-três, que levasse a convergência, enquanto Lucille procurava algo mais.
"A amizade é certamente a forma mais elevada do amor, e também a mais
difícil. Meus instintos de mulher são tão fortes. É tão difícil aprender a
controlar esse amor".
Um ano após o fim da II Guerra Mundial,
Teilhard voltou para a Europa. De Paris, fez várias viagens a Nova Iorque e
África do Sul. Em dezembro de 1951, emigrou para os Estados Unidos, e lá se
estabeleceu de forma definitiva. Naquela década foi Rhoda de Terra quem ficou
permanentemente ao lado de Teilhard, tanto em Paris como em Nova Iorque, e
também em duas viagens à África do Sul. A presença constante ao seu lado
despertou uma crise terrível em Lucille. Depois da crise cardíaca de Teilhard,
em 1947, Rhoda tornou-se, aos poucos, sua enfermeira-secretária. Em dezembro de
1951, quando Teilhard mudou-se para os Estados Unidos, estava muito fraco, mas
extremamente envolvido na pesquisa acadêmica. Lucille ocasionalmente viajava
para Nova Iorque para vê-lo. Teilhard pediu-lhe para reduzir suas visitas, para
escrever e telefonar com menos frequência, porque sentia-se demasiadamente
fraco. Enquanto isso, Rhoda estava sempre ao seu lado, suplantando
completamente Lucille, ao que parecia. Teilhard tinha plena consciência do
sofrimento que causava nas pessoas que tinha amado. Thomas King escreve:
"Em Paris, em julho de 1954, Teilhard releu o final de “O Coração da
Matéria”. Começou a chorar ‘lembrando todas as Beatrizes, cheio de censuras,
que tinha involuntariamente ferido’. Uma delas era Lucille".
Alguns dias depois, Teilhard caiu, numa
rua em Nova Iorque, durante uma caminhada. No hospital, pediu por Lucille. Ela
veio imediatamente e assegurou-o do seu amor. Logo depois, voltando para a
residência jesuíta, escreveu-lhe uma carta de agradecimento: "Convergimos,
você e eu, com coragem e alegria, para o novo rosto de Deus que nos atrai um
para o outro". Em sua última carta à Lucille (30 de março de 1955), diz:
"Realmente, eu preciso da sua presença, da sua influência na minha vida
(...). Estamos sempre aqui, um para o outro". Na noite do Domingo de
Páscoa de 1955, 10 de abril, Teilhard morreu, enquanto conversava, com alguns
convidados, na casa de Rhoda de Terra, em Nova York.
A criatividade intelectual de Teilhard de
Chardin precisava de afeto para aprimorar-se. Seu amor por Marguerite, foi
fonte de novas ideias, que resultaram em alguns artigos importantes, durante a
guerra, entre os quais o insuperável “Eterno Feminino”. Segundo essa teoria, as
pessoas castas têm, também elas, a possibilidade de viver uma experiência de
amor a Deus e com o outro sexo. Amor-a-três, profundo e casto, inscreve-se
aqui. Para Teilhard, um amor casto ou virginal liberará da Matéria um Fogo
novo. Um novo tipo de energia. O amor virginal é um estágio superior do amor
humano. Depois de Marguerite, Teilhard encontraria outras mulheres. Seu calor e
seu encanto foram passando, gota a gota, para o sangue das suas mais amadas ideias.

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