«O Senhor Deus deu-me uma língua habilidosa para que aos desanimados eu saiba ajudar com uma palavra. Toda manhã ele desperta meus ouvidos para que, como bom discípulo, eu preste atenção. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos, e eu não fiquei revoltado, para trás não andei» (Is 50, 4-5).
«O discípulo, fundamentado na rocha da Palavra de Deus, sente-se motivado a levar a Boa Nova da salvação a seus irmãos» (Bento XVI)
«Discipulado e missão são como os dois lados de uma mesma moeda: quando o discípulo está enamorado de Cristo, não pode deixar de anunciar ao mundo que só ele salva» (cf. At 4,12)» (Documento de Aparecida, 146).
Reflexão de Dom Alberto Taveira Correa, arcebispo metropolitano de Belém do Pará
sobre o Evangelho de São Marcos (10, 46-52)
Aqueles que foram escolhidos por Jesus percorreram várias etapas na sua formação. Descobriram-se amigos, chamados pelo nome, amados por Jesus, que lhes ia ao encontro com misericórdia, corrigidos por ele em sua imaturidade, ajudados a superar as dificuldades, para o seguirem com radicalidade. Foram por ele enviados às primeiras experiências missionárias.
O Evangelho de São Marcos (10, 46-52), proclamado neste final de semana em nossas celebrações eucarísticas, descreve uma etapa preciosa da formação ao discipulado, quando chegam com Jesus a Jericó, depois de fazerem um caminho ao longo do Jordão, vindos da Galileia. Curioso é que intervém uma figura que não fazia parte do grupo escolhido inicialmente por Jesus. Chama atenção o facto de que ele tem nome, Bartimeu, o filho de Timeu. Mendigo, cego, morador de Jericó, ele se torna o modelo do discípulo. No Evangelho, pobre tem nome e é importante!
Um homem que vivia na escuridão de sua cegueira, tendo ouvido falar de Jesus, pergunta a respeito do ruído que se espalhava pela cidade. Jesus se transforma na grande oportunidade para sua vida: “Jesus, filho de David, tem piedade de mim”. Descobre que Jesus é a sua esperança! Não pode desperdiçar esta oportunidade! Do mais profundo da vida de cada pessoa, emerge o grito e o desejo de conhecer Jesus, quem sabe no meio de tanta confusão. O discípulo é parecido com as outras pessoas. Não é melhor do que ninguém, mas é capaz de gritar! Podem criticá-lo, mas Bartimeu aposta tudo e não faz caso das reprovações circunstantes.
Nós também, muitas vezes temos os olhos e o coração fechados. Jesus passa pelo caminho e, do mais profundo do abismo (Cf. Sl 129) pode subir ao Senhor nosso clamor. Podem começar as dificuldades, pois os cegos, os coxos e aleijados de sempre encontram muitas vozes que querem abafar o grito. Pode ser a própria sociedade ou o ambiente que nos desviam, até para que não incomodemos Jesus. Ou, quem sabe nosso comodismo, os hábitos adquiridos ou outros impedimentos nos fazem calar a boca. O discípulo autêntico começa com um clamor pela verdade e pela liberdade verdadeira!
Quem não escuta a voz das turbas, mas deixa vir à tona o grito pela verdade, quem for constante na busca do Senhor, insistindo para encontrar o Senhor, vai fazer Jesus parar nas estradas de Jericó. Apesar das dificuldades externas, a oração do cego foi ouvida, mesmo quando aparentemente Jesus está em silêncio, não fala nada, apenas caminha. É que o Senhor, tendo ouvido desde o princípio o clamor do cego, quer vê-lo insistente e corajoso! Depois Jesus parou, como faz sempre diante de qualquer pedido confiante. Chamaram o cego: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama”. Bartimeu lança fora o manto! Afinal, a vida agora será outra! E com um pulo se apresenta diante do Senhor! Trata-se do salto a ser dado corajosamente pelo discípulo, na direção do Senhor. Uma veste nova, presente de Batismo, é o sinal da novidade para cada discípulo de todos os tempos!
Cegos ou não, temos desejos profundos a ser apresentados ao Senhor, e ele não os despreza: “Mestre, que eu veja!”. Os discípulos encontram mestres e não apenas professores. Mestre atrai, arrasta as pessoas para compartilharem de sua vida. O milagre que se segue é o encontro daquele que busca com o único que pode dar respostas. “Vai, a tua fé te salvou!”. Pediu a cura dos olhos e encontrou a salvação. O mendigo se faz discípulo missionário, seguindo Jesus pelo caminho, e nunca se esquecerá do Senhor. Certamente vamos encontrá-lo no Céu, entre santos cujos nomes não foram divulgados.
Roteiro de vida para os discípulos de hoje: gritar, pular, largar o manto, dizer o que quer, confrontar-se com o Senhor, deixar-se envolver pelo manto da vida nova que vem da fé, continuar na estrada de Jesus para a Jerusalém da morte e da ressurreição, sair pelo caminho contando o que lhe aconteceu.
Comentário de Carlos Mesters e Lopes:
A cura de Bartimeu (Mc 10,46-52) esclarece um aspecto muito importante da longa instrução de Jesus aos discípulos. Bartimeu tinha invocado Jesus com o título messiânico "Filho de Davi" (Mc 10,47). Jesus não gostava deste título (Mc 12,35-37). Porém, mesmo invocando Jesus com ideias não inteiramente corretas, Bartimeu teve fé e foi curado.
Diferentemente de Pedro (Mc 8,32-33), acreditou mais em Jesus do que nas ideias que tinha sobre Jesus. Converteu-se, largou tudo e seguiu Jesus no caminho para o Calvário (Mc 10,52). A compreensão plena do seguimento de Jesus não se obtém pela instrução teórica, mas sim pelo compromisso prático, caminhando com ele no caminho do serviço, desde a Galiléia até Jerusalém.
Quem insiste em manter a ideia de Pedro, isto é, do Messias glorioso sem a cruz, nada vai entender de Jesus e nunca chegará a tomar a atitude do verdadeiro discípulo. Quem souber crer em Jesus e fazer a "entrega de si" (Mc 8,35), aceitar "ser o último" (Mc 9,35), "beber o cálice e carregar sua cruz" (Mc 10,38), este, como Bartimeu, mesmo tendo ideias não inteiramente corretas, conseguirá enxergar e "seguirá Jesus no caminho" (Mc 10,52). Nesta certeza de caminhar com Jesus estão a fonte da coragem e a semente da vitória sobre a cruz.

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