Nos
relatos de um teólogo alemão (Wunibald Müller) e de um bispo brasileiro (Erwin Kräutler), o plano do Papa Francisco
deve autorizar exceções locais para a norma do celibato clerical, começando
pela Amazónia.
Reportagem de Sandro Magister, publicada por chiesa.it, 12-01-2016.
Tradução de Isaque Gomes Correa, Unisinos
Uma
troca de correspondências, uma conversa e uma inovação já tornada lei confirmam
as intenções do Papa Francisco em estender a presença do clero casado na Igreja
Católica, conforme já antecipado no artigo intitulado “O próximo Sínodo já está em construção. Sobre os padres casados”.
NA ALEMANHA
A
troca de correspondências se deu a partir da iniciativa de um teólogo do alto
escalão alemão, Wunibald Müller, 65 anos, quem, em dezembro de 2013, escreveu
uma carta aberta ao papa publicada com destaque no sítio eletrónico oficial da
Conferência Episcopal Alemã sob o título “Pope Francis, open the door”,
literalmente: “Papa Francisco, abra a porta”, pedindo-lhe que destituísse a
estreiteza do celibato aos sacerdotes.
Wunibald
Müller não é um teólogo qualquer. É um psicólogo e escritor prolífico. Fundou e
dirige o “Recollectio-Haus” na abadia beneditina de Münsterschwarzach, na diocese
de Würzburg, destinado ao acompanhamento de padres e religiosos em crise
existencial, financiado por outras sete dioceses (Augsburg, Freiburg, Limburg,
Mainz, Munique-Freising, Paderborn, Ratisbona-Stuttgart) com a ajuda espiritual
do beneditino mais amplamente lido não só na Alemanha mas no mundo: Anselm
Grün.
A
posição de Wunibald Müller está bem representada pelos títulos de sua
dissertação de graduação e tese doutoral: “O sacerdote como guia espiritual das
pessoas homossexuais” e “A homossexualidade: Um desafio para a teologia e o
cuidado das almas”.
Ao
não receber uma resposta à sua primeira missiva, em abril de 2014, Müller
decidiu escrever uma segunda carta a Jorge Mario Bergoglio. E, quase vinte
meses depois, o papa finalmente respondeu-lhe.
Em
25 de novembro passado, a Katholische Nachrichten-Agentur, agência noticiosa
dos bispos alemães, publicou uma reportagem sobre a correspondência e os sinais
de “abertura” por parte do papa. E, em 4 de janeiro, o jornal Süddeutsche
Zeitung entrevistou Müller perguntando-lhe mais detalhes:
O senhor escreveu
uma carta ao Papa Francisco.
Pedi
por um abrandamento do celibato. Deveria haver sacerdotes casados bem como
celibatários, homossexuais assim como heterossexuais.
E a resposta?
Francisco
agradeceu por minhas reflexões, o que me deixou muito feliz. Ele diz que as
minhas propostas não podem ser realizadas para a Igreja universal, mas acho que
isso não exclui soluções no nível regional. Francisco pediu ao bispo brasileiro
Erwin Kräutler que descubra em sua diocese se existem homens casados, de
experiência comprovada, que poderiam ser ordenados ao sacerdócio. O papa está à
procura de lugares onde alguma coisa pode ser mudada e que, então, poderá se
desenvolver numa dinâmica própria.
NO
BRASIL
Erwin
Kräutler, o prelado que está se aposentando por motivos de idade da imensa
prelazia amazónica do Xingu, mas que ainda está bastante ativo como secretário
da comissão episcopal para a Amazónia, é exatamente o bispo brasileiro que,
poucos dias antes do Natal, havia tido uma outra conversa com o papa sobre a
possibilidade do recurso a um clero casado em territórios drasticamente
desprovidos do clero celibatário.
A
Rádio Vaticano cobriu a notícia do diálogo entre ele e o papa em uma entrevista
com Kräutler em 22 de dezembro:
O que o papa diz
sobre comunidades sem um padre para celebrar a Eucaristia?
Ele
me disse que devemos fazer propostas concretas. Propostas ousadas, corajosas.
Ele disse que devemos ter a coragem de falar. Ele próprio não irá tomar a iniciativa,
mas se basear na escuta do povo. Ele quer a criação de um consenso e o início
das tentativas em algumas poucas regiões, visando tornar possível que as
pessoas celebrem a Eucaristia. Se lermos a exortação apostólica Dies Domini, de
João Paulo II, veremos claramente que não existe comunidade cristã se não há
encontro em volta do altar. Segundo a vontade de Deus, então, devemos abrir
caminhos para que isso possa acontecer. No Brasil, uma comissão já está
trabalhando na elaboração destes caminhos.
Nesse sentido, o
que deveríamos esperar do pontificado de Francisco?
Um
ponto de inflexão. Mais ainda: nós já estamos em um ponto de inflexão. Eu
acredito que já chegamos a um ponto sem volta. Mesmo o próximo papa ou o outro
depois dele não terá condições de voltar atrás em relação ao que Francisco está
fazendo hoje.
Num artigo de 12
de julho de 2015 na revista italiana “Credere”, Kräutler confirmava que “o papa pediu à
comissão para a Amazónia que trouxesse propostas concretas até o mês de abril”,
e desde então “nós estamos pensando algumas formas para que todas as
comunidades tenham a possibilidade de participar da Eucaristia mais de três
vezes por ano”.
Entre
essas “formas” está precisamente a ordenação de homens casados, a fim de
compensar o fato de que – confirme disse Kräutler –“temos somente 30 sacerdotes
para 800 comunidades, e a região é realmente muito extensa”.
Deve-se
dizer, no entanto, que a carência de vocações à vida sacerdotal no Brasil pode
se dever também ao terrível exemplo que parte do clero local está dando, caso
existir alguma verdade na representação feita tempos atrás por uma revista
católica como sendo um clero autoritário e irrepreensível como o “Il Regno”: “Os
fiéis não têm alternativa senão se reunir na igreja para celebrar uma espécie
de missa sem a presença de um sacerdote, mesmo nas cidades onde não há falta de
padres. No domingo, eles poderiam se dividir nas várias igrejas, mas, em vez
disso, preferem concelebrar entre si mesmos e deixar os fiéis à mercê de
fanáticos desenfreados, onde os fanáticos não são os próprios celebrantes, os
quais às vezes modificam os textos litúrgicos a seu bel prazer porque não são
sequer capazes de compreendê-los, transformam o canto do Sanctus em um ritmo de
dança, não festejam o papa, o bispo, não celebram os falecidos. São sacerdotes
tão ineptos que, normalmente aos domingos, como os barbeiros na Itália, tiram
um dia de descanso e não celebram a missa, nem mesmo nas catedrais. Ou não
visitam os enfermos, não trazem o viático, não celebram funerais. E nem sempre
podem se justificar trazendo a desculpa da escassez de seus pares”.
NOVAS
REALIDADES NA IGREJA
Um
outro fator – de forma alguma secundário – na marcha em direção à ordenação dos
“viri probati” na Igreja latina é a autorização dada a sacerdotes casados das igrejas
católicas orientais a operar mesmo do lado de fora de seus territórios
tradicionais. Ou seja, não somente no Oriente Médio e na Europa oriental, mas
em todo o mundo.
A
autorização foi dada pelo Papa Francisco, através da congregação vaticana para
as igrejas orientais, presidida pelo cardeal argentino Leonardo Sandri, em 14
de junho de 2014. Ela eliminou um século e meio de proibições intransigentes.
Principalmente
nas Américas e na Europa oriental, os hierarcas católicos latinos sustentaram
que a presença de sacerdotes casados do rito oriental em seus territórios,
chegando na esteira das migrações, traria um “gravissimum scandalum” aos fiéis.
O
Papa Francisco permitiu uma tal presença em certas condições. E citou a seu
favor a constituição apostólica de 2009 “Anglicanorum Coetibus”, com a qual
Bento XVI admitiu a presença de sacerdotes casados que anteriormente eram
anglicanos nas regiões ainda sob a proibição de padres do rito oriental
casados.
UMA
ÚLTIMA OBSERVAÇÃO
A
ordenação de homens casados ao sacerdócio, “em casos particulares e pelas
necessidades pastorais”, já foi analisada por um Sínodo dos Bispos; foi o de
1971 dedicado ao “ministério sacerdotal e à justiça no mundo”.
A
proposta foi colocada em votação diante de uma outra, que manteria o celibato
em vigor para todo o clero latino, sem exceções. E
a segunda venceu, por 107 votos contra 87.
Desde
então, 45 anos se passaram e, evidentemente, o Papa Francisco acredita que este
momento é propício para se reexaminar a questão e marcar uma abertura ao clero
casado, começando com umas poucas regiões da América Latina particularmente
afetadas pela escassez de padres.
Sem
drama. Porque esta – diz ele – “é uma questão de disciplina, e não de fé”.

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