No livro "A Economia de Francisco - Diagnóstico de um
Equívoco", que o Observador pré-publica, João César das Neves* analisa o
pensamento económico do Papa. Há alguma semelhança com o que disse Marx?
*João César das Neves é doutorado em Economia e autor de
vários livros e artigos científicos nessa área. É professor na Universidade
Católica Portuguesa e presidente do Conselho Científico da Faculdade de
Ciências Económicas e Empresariais da mesma universidade.
Assinala-se no domingo, 13 de março, o terceiro
aniversário da eleição do Papa Francisco. Para marcar a data, o economista João
César das Neves escreveu um livro onde reflete sobre o pensamento económico do
Papa. Na obra “A Economia de Francisco — Diagnóstico de um Equívoco” o autor
clarifica que o “propósito do livro não é fazer uma análise económica das
posições do Papa Francisco, discutir a sua validade ou medir o seu impacto na
realidade empresarial. O objetivo é unicamente ouvir o Papa Francisco como ele
quer ser ouvido”. O livro já chegou às livrarias e, na segunda parte do
capítulo 2, que o Observador pré-publica, o autor analisa a relação do Papa com
os cânones da Igreja e clarifica a relação entre o marxismo e a doutrina da
Igreja.
Trata-se de uma visão
socialista?
“O primeiro erro, como vimos, é desqualificar à partida a
análise espiritual de Francisco confundindo-a com uma reação emotiva e
sentimental. Mas aqueles que a tomam a sério caem depois com frequência num
segundo erro: o de confundir a doutrina da Igreja com uma visão ideológica de
esquerda.
Já fomos vendo como o Santo Padre responde a isto: ele
limita-se a apresentar a doutrina da Igreja. Antes de analisarmos até que ponto
esta afirmação é justa, vale a pena inspecionar a resposta de Francisco à
acusação.
Como já vimos, ele já enfrentou este tipo de comentários
durante o seu período argentino. A reação costumava ser citar um dos seus
trechos favoritos, Mateus 25:
«Acontece que – como já disse numa visita à rádio do
Santuário de São Cayetano – é um dever compartilhar com os nossos irmãos a
alimentação, o vestuário, a saúde, a educação. Alguns podem afirmar: “Mas que
grande padre comunista!”. Não, o que digo é puro Evangelho. Porque, atenção,
vamos ser julgados por isto. Quando Jesus vier julgar-nos, vai dizer a alguns:
“Porque tive fome e deste-Me de comer, tive sede e deste-Me de beber, estava nu
e vestiste-Me, estive doente e visitaste-Me”. E perguntar-se-á, então, ao
Senhor: “Quando é que fiz isso, porque não me lembro?”. E Ele responderá: “De
cada vez que o fizeste a um pobre, a Mim o fizeste. Mas também vai dizer a
outros: “Fora daqui, porque tive fome e não Me deram de comer”. E também nos
repreenderá pelo pecado de ter vivido deitando as culpas da pobreza aos
governantes, quando a responsabilidade, na medida das nossas possibilidades, é
de todos».
Assim que foi publicada a Evangelii Gaudium, a mesma
acusação explodiu. Temos de dizer, mais uma vez, que o remoque não vem de
comentadores sérios e, ainda menos, de cristãos minimamente informados. Esses
sabem bem aquilo que as sucessivas encíclicas sociais têm ensinado e que, mesmo
se de forma mais contundente, Francisco repete. Na verdade, temos de dizer que
esta crítica é relativamente espúria. No entanto, os jornalistas nunca deixam
passar uma oportunidade de a referir, embora deixando sempre vaga a origem da
atribuição.
Ao princípio, o Papa ainda se dava ao trabalho de explicar
demoradamente o erro. Mas faz sempre questão de não cair na jogada dos
críticos, afirmando que conhece muitos marxistas bons:
«Alguns trechos da Evangelii
Gaudium valeram-lhe acusações dos ultraconservadores americanos. Que efeito
tem para um Papa sentir-se definido como “marxista”?
A ideologia marxista está errada. Mas na minha vida conheci
muitos marxistas bons como pessoas, e por isso não me sinto ofendido. As
palavras que feriram mais foram sobre a economia que “mata”… Na exortação não
há nada que não se encontre na doutrina social da Igreja. Não falei de um ponto
de vista técnico, procurei apresentar uma fotografia do que acontece».
«Passa por ser um Papa comunista, pauperista, populista. The Economist, que lhe dedicou uma capa,
afirma que fala como Lenine. Reconhece-se nestas vestes?
Eu digo só que os comunistas nos roubaram a bandeira. A
bandeira dos pobres é cristã. A pobreza é o centro do Evangelho. Os pobres
estão no centro do Evangelho. Tomemos Mateus 25, o protocolo segundo o qual nós
seremos julgados: tive fome, tive sede, estive preso, estava doente, nu. Ou
então vejamos as Bem-Aventuranças, outra bandeira. Os comunistas dizem que tudo
isto é comunista. Sim, porque não, vinte séculos depois. Então, quando falam,
poderia dizer-lhes: “Mas vós sois cristãos” (risos)».
A repetição contínua torna difícil uma resposta original.
Mas num encontro com os jornalistas, à saída de um país comunista, Francisco
admitiu que possa haver algum motivo para a confusão, para logo a seguir
eliminar esse erro:
«As coisas podem ser explicadas. É possível que alguma
explicação tenha dado a impressão de ser um pouquinho mais “esquerdista”, mas
seria um erro de explicação. Não. A minha doutrina na Laudato Si’, sobre tudo
isso, sobre o imperialismo económico e tudo o mais, é da doutrina social da
Igreja».
Padres da Igreja e
comunistas
Esta acusação é, portanto, inválida. Aliás, para se defender
dela, Bergoglio cita com frequência os Padres dos primeiros séculos. Este
argumento aparece já no período argentino:
«Alguns, quando leem coisas da opção preferencial pelos
pobres dizem: “Que comunistas, que revolucionários!”. Leiam os Santos Padres.
Leiam São Jerónimo, dos séculos II, III, IV, V. Nós nas expressões somos menos
selvagens do que eles. Eram duríssimos neste ponto, na opção pelos pobres».
Mais marcante é a explicação que o cardeal dá durante o seu
interrogatório diante do tribunal sobre os crimes da ditadura argentina, no
qual Bergoglio compareceu como testemunha. Nas perguntas feitas pelo advogado
da parte civil, o arcebispo fez questão de explicar demoradamente o sentido da
opção preferencial pelos pobres, desde o Evangelho até Medellín, passando pelos
Padres, São Lourenço e o Concílio Vaticano II. A pequena história de São
Lourenço é mais uma das suas favoritas, citando-a com frequência.
«Rito: Recorda-se de ter ouvido a expressão “padres dos
bairros de lata” [curas villeros]?
Bergoglio: Sim.
Rito: O que significa? Em que contexto se dizia?
Bergoglio: Eram os sacerdotes que trabalhavam nos bairros
pobres. […]
Rito: Segundo o senhor, isso tem alguma coisa a ver ou
inspira-se nalgumas declarações que saíram no Concílio Vaticano II?
Bergoglio: Sim, embora a opção pelos pobres remonte aos
primeiros séculos do Cristianismo. Está no próprio Evangelho. Se eu lesse como
homilia alguns dos sermões dos primeiros Padres da Igreja, diríeis que a minha
homilia era maoísta ou trotskista. A Igreja sempre tem honrado a opção de
preferir os pobres. Considerava que os pobres são um tesouro da Igreja. Durante
a perseguição do diácono Lourenço, que era o administrador da diocese, quando
lhe pediram que levasse todos os tesouros da Igreja […], ele apresentou-se com
uma maré de pobres e disse: “São estes os tesouros da Igreja”. Estou a falar
dos séculos II e III. A opção pelos pobres vem do Evangelho. Durante o Concílio
Vaticano II, reformulou-se a definição de Igreja como povo de Deus, e é a
partir daí que este conceito se fortalece; e, na segunda Conferência Geral do
Episcopado Latino-Americano, em Medellín, transformou-se na forte identidade da
América Latina».
Nos primeiros tempos da Igreja, os tempos de fome e carestia
suscitavam textos muito violentos contra os ricos insensíveis e exploradores.
Não admira pois que Jorge Bergoglio use expressões fortes que, no entanto, sabe
serem «menos selvagens» do que as de São Basílio Magno, Santo Ambrósio de Milão
ou São João Crisóstomo, entre outros
O Papa tem indiscutivelmente razão. Nos primeiros tempos da
Igreja, os tempos de fome e carestia suscitavam textos muito violentos contra
os ricos insensíveis e exploradores. Não admira pois que Jorge Bergoglio use
expressões fortes que, no entanto, sabe serem «menos selvagens» do que as de
São Basílio Magno (329 – 379), Santo Ambrósio de Milão (340 – 397) ou São João
Crisóstomo (349 – 340), entre outros.
Acusação de
pauperismo
Para além da ligação aos Padres da Antiguidade, que
Francisco assume, existe uma outra referência implícita à história da Igreja
nas acusações, mas essa é rejeitada. Na época medieval, sobretudo à volta das
ordens mendicantes dos Franciscanos e Dominicanos, surgiram algumas perspetivas
qualificadas de «pauperistas» que defendiam a pobreza em si mesma como um
valor. Essas teses extremistas, que geraram tanta confusão, foram condenadas
pela Igreja.
Numa das entrevistas em que foi confrontado com essa
identificação, o Papa referiu o erro, mas, como se pode ver, em vez de se dar
ao trabalho de o desmontar, limitou-se a descartá-lo e a referir a doutrina
cristã sobre a pobreza:
«O Evangelho condena o culto à riqueza. O pauperismo é uma
das interpretações críticas. Na Idade Média havia muitas correntes pauperistas.
São Francisco teve a genialidade de colocar o tema da pobreza no caminho
evangélico. Jesus disse que não se pode servir a dois senhores, Deus e o
dinheiro. E, quando formos julgados no final dos tempos (Mateus, 25),
perguntar-nos-ão pela nossa proximidade com a pobreza. A pobreza afasta-nos da
idolatria e abre as portas à Providência. Zaqueu entrega a metade das suas riquezas
aos pobres. E a quem tem os seus celeiros cheios do seu próprio egoísmo o
Senhor, no final, lhe pedirá contas. Creio ter expressado bem o meu pensamento
sobre a pobreza na Evangelii Gaudium».
O Papa Francisco está consciente de que a pobreza não é um
fim em si mesma. Aliás, em si, a pobreza é um mal. Mas ela torna-se um
instrumento útil quando, esvaziando-nos dos bens deste mundo, abre espaço para
nos abrirmos a Deus:
«O Senhor ensina-nos qual é o caminho: não é o caminho da
pobreza pela pobreza em si. Não! É o caminho da pobreza como instrumento, para
que Deus seja Deus, para que Ele seja o único Senhor! Não o ídolo do ouro! Além
disso, todos os bens que temos, o Senhor no-los dá para fazer o mundo seguir em
frente, para que a humanidade siga em frente, para ajudar, para ajudar os
outros».
Assim regressamos ao problema da idolatria, a questão
central de que devemos cuidar: amar a Deus «com todo o coração, com toda a
alma, com todo o entendimento, e com todas as forças» (cf. Mc 12, 30). Isso
implica amar a Deus com todo o nosso dinheiro também. Se o dinheiro ocupa algo
do nosso coração, da nossa alma, do nosso entendimento ou das nossas forças,
violamos o mandamento e existe idolatria.
É pois evidente que aqueles que acusam o Papa de pauperismo
ignoram a verdadeira posição da Igreja. Esses, aliás, ficam sempre anónimos,
por falta de substância da sua posição.
Marxismo e doutrina
da Igreja
Para terminar o tratamento desta crítica, é conveniente
considerar brevemente as relações entre a doutrina da Igreja e o marxismo. De
facto, uma das manifestações mais claras do mal-entendido que este livro
pretende combater está precisamente nesta identificação das posições papais com
ideologias de esquerda. Já sabemos que o Papa considera que a identificação resulta
da ignorância, aliás dos dois lados: «Certamente quem fez esse comentário não
conhece a doutrina social da Igreja e, no fundo, não conhece assim tão bem
sequer o marxismo».
Os discípulos do carpinteiro de Nazaré têm afirmado desde
sempre as duas ideias que hoje a doutrina formula como «destino universal dos
bens» e «opção preferencial pelos pobres». Isso já acontecia séculos antes de
Robespierre e Marx. Como também afirmou Francisco, foram eles que roubaram essa
bandeira. Mas, além de muito anteriores ao socialismo de qualquer espécie,
estes conceitos da doutrina cristã são em certa medida alheios a essas
ideologias. Vale a pena elucidar rapidamente este ponto.
Existe uma diferença enorme entre o conceito de destino
universal dos bens e a forma como o marxismo considera a questão da
propriedade. No sistema comunista não existe nenhum destino universal, mas
apenas a anulação da propriedade individual em nome da propriedade coletiva.
Esta distinção não exige grande elaboração, porque foi um dos aspetos mais
centrais da condenação do socialismo que a Rerum Novarum e, depois dela, todas
as encíclicas sociais fizeram.
Depois de estabelecer que «a propriedade particular e
pessoal é, para o Homem, de direito natural» (RN 5), o Papa Leão XIII não só
explica claramente porque é que o intervencionismo estatal não é adequado para
lidar com este problema, mas também relaciona cuidadosamente este conceito com
o destino universal dos bens:
«E não se apele para a providência do Estado, porque o
Estado é posterior ao Homem e, antes que ele pudesse formar-se, já o Homem
tinha recebido da natureza o direito de viver e proteger a sua existência. Não
se oponha também à legitimidade da propriedade particular o facto de que Deus
concedeu a Terra a todo o género humano para a gozar, porque Deus não a
concedeu aos homens para que a dominassem confusamente todos juntos. Tal não é
o sentido dessa verdade. Ela significa, unicamente, que Deus não atribuiu uma
parte a nenhum homem em particular, mas quis deixar a limitação das propriedades
à indústria humana e às instituições dos povos» (RN 5).
«Aliás, para um comunista, dar esmola significa perpetuar a
exploração, adiando a revolta purificadora.»
Quanto à preferência pelos pobres, é importante dizer que o
sistema comunista não a conhece. Aliás, Karl Marx desprezava os mendigos como
lumpen proletariat. A sua preferência ia para os trabalhadores, que, através da
sua exploração, se tornam veículos da revolução libertadora. Esta confusão é
ainda hoje muito comum, quando as pessoas se surpreendem por verem marxistas
ricos sem praticar esmola. Estão a confundir a caridade cristã com o desejo da
revolução libertadora. Aliás, para um comunista, dar esmola significa perpetuar
a exploração, adiando a revolta purificadora.
Mais uma vez fica clara a importância do esclarecimento que
São João Paulo II fez em 1987 acerca da relação entre a doutrina da Igreja e as
ideologias:
«A doutrina social da Igreja não é uma “terceira via” entre
capitalismo liberal e coletivismo marxista, nem sequer uma possível alternativa
a outras soluções menos radicalmente contrapostas: ela constitui por si mesma
uma categoria. Não é tampouco uma ideologia, mas a formulação acurada dos
resultados de uma reflexão atenta sobre as complexas realidades da existência
do Homem, na sociedade e no contexto internacional, à luz da fé e da tradição
eclesial. […] Ela pertence, por conseguinte, não ao domínio da ideologia, mas
da teologia e especialmente da teologia moral» (SRS 41).
Só quem entende esta explicação pode ler com proveito as
afirmações do Papa Francisco sobre economia.”

De: Frei Lopes Morgado
ResponderEliminarData: 15 de março de 2016 às 16:54
Assunto: Re: "O Papa Francisco é socialista?
Acho que já demos demasiado para este peditório. Continuar a destacá-lo é manter a ambiguidade sobre um problema que, à partida, sabemos não existir na parte do papa, e ajudar autores e editoras a ganhar dinheiro à custa dele.
Quero ver é o amigo João César das Neves, como economista católico, a propor ideias ou pistas de solução para as crises que a economia tem vivido, e muito à conta dos economistas - ele que foi conselheiro de Cavaco (na sombra anónima) e nunca membro de nenhum Governo (exposto ao contraditório permanente entre as belas teorias e as INconseguidas práticas). Ou então, a dizer que de especificamente cristão e católico os alunos da sua Faculdade recebem na UCP, de modo a influenciarem depois o rumo da "economia que mata".
E bem poderia aproveitar a página semanal no DN, para isso.
Lopes Morgado