«O Santo Padre já falou de abrir a discussão sobre a questão (do celibato). Penso que se isso acontecer nós teremos um contributo a fazer»
Ex-bispos anglicanos e suas mulheres aquando da ordenação como padres católicos. Keith Newton à esquerda. Foto: James Bradley
Há vários anos que a Igreja Católica permite a
ordenação de homens casados ao sacerdócio quando se trata de padres anglicanos,
ou de outras confissões, que pedem para entrar em comunhão com Roma. Este é o
caso da esmagadora maioria do clero ex-anglicano. São exceções à regra do
celibato que existe na Igreja Latina, uma vez que em muitas das igrejas
católicas de rito oriental a norma é a ordenação de homens casados.
Keith Newton é o responsável pela estrutura canónica
criada por Bento XVI para acolher ex-anglicanos que queriam tornar-se
católicos, mantendo todavia algum do seu património litúrgico e espiritual.
O padre Keith Newton é casado e pai de filhos. É
responsável pelo Ordinariato Pessoal de Nossa Senhora de Walsingham, a
estrutura canónica criada por Bento XVI para acolher ex-anglicanos que queriam
tornar-se católicos.
O sacerdote esteve recentemente em Portugal para o
lançamento da tese do padre João Vergamota, sobre o "Anglicanorum
Coetibus", o documento com que Bento XVI criou os ordinariatos para
ex-anglicanos. Em conversa com Filipe d’Avillez, da Rádio Renascença, falou do estado atual do
Ordinariato de Nossa Senhora de Walsingham, das expectativas para o futuro e do
contributo que os padres ex-anglicanos, como ele, podem dar à Igreja Católica.
As normas do ordinariato, promulgadas pela Santa Sé,
dizem que o ordinário pode “peticionar o Pontífice Romano (…) para a admissão
de homens casados à ordem de presbítero, caso a caso, de acordo com critérios
objectivos, aprovados pela Santa Sé”. Que critérios são esses?
De momento não existem. Foi ordenado um homem casado
que não tinha sido antes padre anglicano e isso é porque quando o
"Anglicanorum Coetibus" [documento de Bento XVI que cria os
ordinariatos] foi publicado ele já estava no último ano de seminário e já era
casado, pai de dois filhos. Por isso pedimos autorização a Roma e o Papa Bento
XVI assinou a dispensa, permitindo a sua ordenação.
Mas foi o único caso. Ainda não temos os critérios e
penso que de momento não é provável que venhamos a ter, mas isso ainda consta
das normas.
Acredita que haverá espaço para padres casados no
futuro do ordinariato?
Para dizer a verdade, não sei a resposta. É verdade
que o clero casado faz parte do património anglicano, isso é claro para todos.
Mas penso que se permitíssemos que houvesse clero casado numa parte da Igreja
latina – de que o ordinariato faz parte – isso levantaria toda uma série de
questões, para as quais ela ainda não está preparada.
O Santo Padre já falou de abrir a discussão sobre esta
questão. Penso que se isso acontecer nós teremos um contributo a fazer. Mas não
acho que nos caiba a nós abrir o debate.
A questão do celibato é uma das que mais divide a
Igreja Católica e normalmente as opiniões dividem-se entre conservadores
pró-celibato e liberais, que defendem a ordenação de homens casados. Neste
debate você e outros padres ex-anglicanos representam uma anomalia, pois tendem
a ser mais conservadores, ou tradicionalistas, mas são exemplos de como é
possível exercer o ministério e ao mesmo tempo ter uma família. Como é que é
encontrar-se nessa posição?
É um bocado estranho. Não me parece que os padres de
tendência mais tradicionalista consideram isto uma dificuldade. Eles sabem que
se trata de uma exceção pastoral, é a Igreja a abrir os seus braços às pessoas
que querem estar em comunhão mas estavam numa posição teologicamente difícil. A
Igreja tem sido acolhedora e generosa e penso que muitos padres alinharam com
isso e tornaram-se nossos amigos e apoiantes. Mas não me parece que eles
queiram que levantemos a questão do clero casado.
A minha mulher apresenta-se como a esposa do
monsenhor, o que é um bocado estranho.
O ordinariato foi uma criação de Bento XVI. Quando o
Papa Francisco foi eleito soube-se que ele teria dito ao então arcebispo
anglicano de Buenos Aires que não concordava com a ideia. Que ambiente é que
vos chega de Roma atualmente?
Esses comentários foram feitos em privado e o
arcebispo anglicano, Greg Venables, ficou muito embaraçado por terem sido
tornados públicos. Sei porque falei com ele.
É preciso compreender que o Papa Francisco é argentino
e a Igreja Anglicana na Argentina é extremamente evangélica, por isso ele teria
encontrado no arcebispo Venables um aliado em questões morais como o casamento
homossexual, aborto e sexualidade em geral.
Teria sido bem diferente se ele fosse arcebispo de
Nova Iorque e tivesse visto o que é a Igreja Episcopal [ramo americano da
Igreja Anglicana]. Quando uma pessoa se torna Papa tem de passar a ter uma
visão mais alargada das coisas, por isso penso que ele agora nos compreende um
bocadinho melhor. Espero que sim. Mas nunca nos tratou mal.
Durante este pontificado foram feitas alterações às
normas, reconhecendo um bocado mais a missão evangelizadora do ordinariato.
Isso é uma coisa positiva, como é ter nomeado um bispo [o luso-americano Steven
Lopes] para o ordinariato americano. Isso mostra que ele não é contra a ideia.
Sabemos que muitos dos anglicanos mais preocupados com
o rumo do anglicanismo são os das igrejas africanas, mas não temos visto
qualquer entusiasmo pelos ordinariatos em África. Porquê?
Porque as pessoas em África e algumas partes da Ásia
que estão mais preocupadas com o rumo da comunhão anglicana não são de tradição
anglocatólica, mas sim evangélica. Por isso, embora concordem com a Igreja em
termos de moralidade, atitudes para com o casamento e sexualidade, e concordem
também com o que a Igreja professa no credo, a sua eclesiologia é muito
diferente. Por isso não é natural que se aproximem da Igreja Católica.
Dito isso, penso que há alguns que compreendem que a
Igreja Católica poderá ser a única que, a longo prazo, defenderá a fé dos
apóstolos.
Devemos esperar a criação de mais ordinariatos?
Não sei. Sei que tem havido interesse em alguns países
luteranos que querem uma estrutura semelhante, para pequenos grupos de cristãos
luteranos. É possível que seja criado outro ordinariato na África do Sul, ou na
Índia, mas de momento não sei de nada.
No seu caso, enquanto bispo anglicano, tornar-se
católico significou ser “reduzido” a padre e ainda ter cortes no seu salário.
Foi fácil decidir-se pela mudança?
Ah! Isso foi fácil. A decisão foi muito fácil. Quando
a constituição apostólica foi publicada não consegui ver qualquer razão para
não avançar e explorar a ideia. Durante todo o meu ministério na Igreja
Anglicana tinha sonhado e esperado a reunificação entre católicos e anglicanos.
E depois de ter visto isso a ser frustrado tantas vezes, já não me parecia uma
esperança realística.
Quando o Papa Bento XVI disse que não tínhamos de vir
para a Igreja Católica apenas como indivíduos, mas que podíamos trazer connosco
a nossa história e património, para enriquecer toda a Igreja Católica, já não
via qualquer razão para dizer que não. O que nos estava a ser oferecido era tão
incrivelmente generoso!
Houve dificuldades práticas, como por exemplo onde
iríamos viver, mas a Igreja tem sido muito generosa e encontrou-nos uma casa.
Tive um corte de vencimento, mas não perdi a pensão devida pelos anos de
serviço na Igreja Anglicana. Nesse aspecto tive sorte, os nossos padres mais
novos não têm isso.
Quando alguém vem falar comigo para saber como será
fazer a transição, digo que não vai ser fácil, que poderá haver dificuldades,
mas nenhum dos nossos padres ficou sem-abrigo ou passou fome. Deus providencia.
Algum dos padres que entrou para o ordinariato decidiu
voltar atrás?
Não.
Teria entrado para a Igreja Católica se a sua mulher
não concordasse?
Provavelmente. Mas ela teria de ter concordado, porque
no dossiê que mandámos para a Santa Sé tem de constar a declaração da mulher a
dizer que não se importa que sejamos ordenados padres católicos. Por isso,
independentemente da sua decisão, teria tido que me dar luz verde. Uma ou duas
das mulheres dos nossos padres não se tornaram católicas, por isso a decisão
final seria sempre dela e fiquei encantado quando o fez, porque torna tudo mais
fácil podermos rezar em conjunto, como católicos.
Penso que o facto de a minha filha já se ter tornado
católica antes de nós tornou as coisas mais fáceis. Mas sim, teria tomado a
decisão mesmo sem ela, mas não teria sido uma coisa tão boa.

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