Uma parábola pascal - Deus é o Pai que reserva para o culpado arrependido a sorte do justo


A parábola do Filho Pródigo (Lucas 15, 1-3.11-32) envia-nos muitos sinais em direção aos acontecimentos da Páscoa. 

Por P.e Marcel Domergue, Sj

Perguntemos, em primeiro lugar, o que representa o filho perdido. Podemos ver nele "aqueles que estão longe", expressão que, em Paulo, designa os pagãos. Israel, ao contrário, é o povo fiel, o filho mais velho que não deixou a casa paterna e que, conforme a epístola aos Romanos, fica enciumado ao ver as "nações" entrarem em sua herança.

Outra leitura legítima: o filho caçula representa todo homem pecador, cada um de nós, enquanto separa-se da sua origem, do seu Pai, Deus. Indo mais longe: este filho de Deus desgarrado é a humanidade inteira; muitos são os textos que nos dizem que todos os homens, os judeus com a Lei e os pagãos sem a Lei, têm necessidade de se reconciliar (ver a 2.ª leitura: 2 Coríntios 5,17-21).

Esta reconciliação se opera pelo ato pascal e por isso o nosso evangelho termina por: "Teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado". Estas palavras, "morto e tornou a viver; perdido e foi encontrado" pertencem ao vocabulário da ressurreição.

Já em Lucas 2, a questão era que Jesus, perdido, foi encontrado no Templo depois de três dias; e bem sabemos que este "relato" é uma espécie de profecia pascal. A parábola do filho pródigo é, portanto, uma ilustração de toda a aventura humana. Por isso, mais que usá-la imediatamente, para extrair dela lições de moral, melhor é entregar-se à admiração e entrar na alegria da festa.

Cristo como filho pródigo

Surpresa: há uma interpretação que faz do filho exilado uma figura do próprio Cristo. Esta é a leitura proposta há anos pelo P.e Pierre-Jean Labarrière.

No entanto, o que o filho mais novo fez por concupiscência - exige a sua parte na herança, antes da morte do pai, mata o seu pai simbolicamente e deixa a sua casa para ir gozar da boa vida - Cristo, filho mais velho, fará por amor. Pois, não se exilou Ele livremente? Ele, que “estando na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo...” (Filipenses 2,5-11).
Tornando-se homem, colocou uma distância infinita entre a sua condição e a condição divina. E ainda duplicou esta distância, porque assumiu não só a condição humana abstrata, como também a condição do homem pecador. "Abaixou-se a si mesmo (...) até à morte, e morte de cruz".

É o que diz a última frase da 2.ª leitura: "Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, nós nos tornemos justiça de Deus." 
Cristo encontra-se no filho pródigo, não no seu pecado, mas no seu sofrimento. Identifica-se com ele. A partir daí, juntos, fazendo-se um só, podem voltar para o Pai. Para este Pai que consente em reservar ao culpado a sorte do justo.

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