De quem era o colete salva-vidas mostrado pelo Papa Francisco?


O colete que o Papa Francisco levou consigo para o encontro com 500 crianças era o colete salva-vidas laranja que deveria ter salvo a vida de uma menina síria que tentava chegar a Lesbos.
Oscar Camps, diretor da ONG Proactiva Open Arms - uma ONG de salva-vidas espanhóis que, com os seus jet-skis e as suas embarcações, no último ano e meio, salvaram milhares de vidas ao largo da costa de Lesbos - conta a história:

«Foi uma das noites mais horríveis da minha vida, nunca vou esquecê-la. O mar estava muito forte, e dezenas de pessoas já estavam afogadas. Eu alcancei o barco da menina com o meu jet-ski: ele estava invertido, havia dezenas de pessoas na água. Eram sírios. Havia gritos em árabe ao meu redor. Depois, eu a vi. Ela estava muito mal, não conseguia se manter fora da água: a mãe lutava com todas as suas forças para segurá-la. Junto com ela, estavam os pais e dois irmãos mais velhos. Com os nossos jet-skis, conseguimos levar uma pessoa de cada vez. Eles são rápidos, permitem que nos aproximemos, mas transportam apenas uma pessoa. Eu peguei ela, porque era a que mais precisava de ajuda.
Eu levei-a para o barco grande, correndo entre as ondas, desabotoei o colete e passei-a para os meus colegas. Depois, voltei para pegar os outros, mas não cheguei a tempo, era tarde demais: estavam todos afogados, toda a sua família. Eu pensei nela, supliquei que ao menos ela conseguisse, que chegasse a tempo de um médico. Mas, quando tudo acabou e voltámos, disseram-me que ela também tinha morrido, não tinham conseguido levá-la viva para a terra: ela já estava muito mal. Eu não sei o seu nome e não sei onde a sepultaram: não posso perguntar, com o trabalho que eu faço, caso contrário não conseguiria fazê-lo. 
Mas eu nunca me vou esquecer daquela noite. Morreram 200 pessoas, não sei quantas nós salvamos, certamente não o suficiente. Na manhã seguinte, eu olhei para o meu jet-ski, e o colete dela tinha ficado preso nele. Eu sei com certeza que era o da menina, porque eu o tinha tirado dela, para fazê-la respirar. Ele tinha resistido a tudo: as ondas loucas, a alta velocidade, as milhares de viagens para o barco para resgatar as pessoas, a chuva. Eu pensei que era um sinal, que aquele fim horrível devia servir para alguma coisa, que ele não estava lá por acaso: aquele colete estava lá para dizer ao mundo como tinha morrido aquela que a tinha usado, com os seus poucos anos. Por isso, eu o guardei.»

Camps é um homem forte: nos últimos anos, ele viu dezenas de pessoas morrerem diante dos seus olhos, enfrentou a desconfiança do governo grego e das grandes organizações, lutou para que o mundo saiba o que acontece em Lesbos e conquistou a confiança de milhares de pessoas que, hoje, financiam via crowdfunding o trabalho do seu grupo.

Mas, quando ele fala da menina sem nome, ele tem a voz cheia de lágrimas e raiva: «O papa entendeu quando colocaram esse colete na sua mão: ele sabe quem somos, o que fazemos. O facto de o ter levado com ele para o mostrar às crianças é muito importante para nós. O mundo deve abrir os olhos para o modo como deixou essa menina se afogar junto com os seus irmãos e os seus pais. E o Papa Francisco é o líder que mais está a fazer para despertar as consciências. Ela era uma entre milhares: a esperança é de que a sua história obrigue a Europa a agir para que nenhuma outra criança tenha que morrer dessa forma.»

Francesca Caferri, em La Repubblica, 7.6.2016. Tradução de Moisés Sbardelotto, Unisinos

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